Tóquio (AE-AP) - A paranóia econômica cresceu no Japão. Assim o demonstra o argumento de um recente filme de televisão: um banco dos Estados Unidos retira de repente seus empréstimos de milhares de pequenos negócios japoneses. Com isto, os negócios ficaram paralisados e foi aberto o caminho para o desígnio secreto dos Estados Unidos: o desmantelamento da capacidade empresarial japonesa. Apesar do Japão se esforçar para sair de sua pior recessão em meio século, uma série de livros, artigos e filmes de televisão declaram que o país está a bordo de uma "ocupação econômica" pelos investidores estrangeiros.
A situação é irônica. Na década passada, os investidores japoneses eram o alvo do mal-estar popular nos Estados Unidos devido a suas grandes compras de edifícios, propriedades e empresas norte-americanas. Os analistas econômicos dizem que os temores são infundados, mas que as emoções são reais. "A população está surpresa e inquieta com o súbito aumento de absorções empresariais por firmas estrangeiras", disse Seiichi Tsurumi, analista do Instituto Japonês de Assuntos Sociais e Econômicos. "Quando eles pensam em firmas estrangeiras, se imaginam despidos", agregou. Os especialistas dizem que está associação não é precisa. O fluxo de entrada de capitais estrangeiros poderia estar ajudando a manter em pé as empresas japonesas e a conservar os empregos dos trabalhadores.
Mas a presença das empresas estrangeiras parece aumentar a cada dia. Firmas como General Electric, Goodyear Tire e Merrill Lynch passaram a adquirir operações que antes estavam a cargo de gigantes japoneses como Japan Leasing, Sumitomo Rubber Industries e Yamaichi Securities. Até a Nissan Motor - um nome que literalmente significa "feito no Japão" - vendeu cerca de 37% de suas operações à francesa Renault. A reação da imprensa tem sido intensa e às vezes alarmista. Os tablóides publicam artigos sobre supostas maquinações estrangeiras para "comprar o Japão". Um respeitável semanário publicou histórias de horror sobre os trabalhadores japoneses que lidam com as práticas implacáveis do capitalismo ao estilo norte-americano. Outro publicou um artigo sobre a "ocupação" estrangeira de escritórios no centro comercial de Tóquio. O fato tem conotações delicadas no Japão, que esteve ocupado pelas tropas norte-americanas durante sete anos depois da Segunda Guerra Mundial.
Apesar da comoção, o setor empresarial não está ocupado por estrangeiros. Em 1996 o Ministério do Comércio indicou que as afiliadas das empresas estrangeiras só representavam 1,3% das vendas totais no Japão e 0,5% de todos os empregos. Mas muitos trabalhadores japoneses temem que a influência estrangeira altere as tradicionais relações paternalistas entre os trabalhadores e os executivos empresariais. De todos os modos isso já vinha ocorrendo, e não necessariamente por culpa dos investidores estrangeiros. As empresas japonesas estão abandonando paulatinamente as práticas como o emprego vitalício e as promoções por tempo de serviço para reduzir custos e fazer frente aos ganhos decrescentes. Para alguns trabalhadores, essa tendência não representa uma ameaça, e sim uma oportunidade.
Junto com os livros que alertam sobre os "ocupantes" estrangeiros, apareceram outros que dão conselhos sobre como triunfar trabalhando para empresas estrangeiras. Um deles, escrito pelo ex-titular das operações da cervejaria norte-americana Coors no Japão, tem o título de "Assim que você quer trabalhar para uma empresa estrangeira?". O público desta variante de livros parece ser de jovens, que tendem a ser mais flexíveis do que os mais velhos no que diz respeito a trabalhar para firmas de outros países. Kiyoshige Mizuno, graduado pela prestigiosa Universidade Sofia de Tóquio, nunca imaginou trabalhar para uma firma que não fosse japonesa, até que seu empregador, a Japan Leasing, se esfacelou na pior crise corporativa em 50 anos. Agora a GE Capital Corporation possui a maior parte da Japan Leasing e Mizuno, de 37 anos, pediu demissão e foi trabalhar para a nova unidade japonesa da Hudson Advisors, uma firma com sede em Dallas. "Não podemos seguir dependendo do modo tradicional japonês de fazer as coisas", explicou Mizuno. "Devemos sobreviver no sistema global" que prevalece hoje em dia.

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