A Otan da esquerda européia se atreve à guerra
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quarta-feira, 04 de agosto de 1999
Por Alejandro Kirk, da IPS 
Lisboa, 05 (AE-IPS) - Ao contrário do socialista espanhol Javier Solana, o novo secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o escocês George Robertson, não tem um passado pacifista que lamentar.
Integrante do Partido Trabalhista britânico, que historicamente fez da paz e da desmilitarização das relações internacionais um dos pilares de sua política, Robertson pertenceu entretanto à tenaz minoria que nos anos 70 e 80 apoiava a Otan, os Estados Unidos e as armas nucleares.
Solona, por outro lado, naqueles anos recolhia assinaturas nas ruas para impedir o ingresso da Espanha na Otan e escrevia manifestos sobre o perigo que representava para um país frágil como o seu intrometer-se na confrontação entre os Estados Unidos e a então União Soviética.
Entretanto, Solana e a esquerda européia se transformaram profundamente. Com Solana à frente, a Otan lançou a primeira guerra de sua história, quando o comunismo já havia desmoronado, e Robertson declarou nesta quarta-feira seu propósito de presidir a entrada da aliança no novo século sob o signo da expansão.
O novo Partido Trabalhista britânico considera a aliança com os Estados Unidos a base de toda sua política exterior, mesmo por cima da Europa, como demonstrou em dezembro, quando Londres e Washington bombardearam o Iraque sem uma consulta prévia a seus aliados.
Quando o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, apresentou na semana passada a candidatura de seu ministro da Defesa ao cargo, ele sabia que não haveria competidores: Robertson foi duro entre os duros na guerra aérea lançada contra a Iugoslávia em março, e estabeleceu sólidos laços de amizade com seu colega americano, William Cohen.
A Otan também mudou. Seus estatutos originais a definem como uma aliança defensiva que atuaria no âmbito europeu e atlântico apenas em resposta a um ataque externo, e que atribuía às Nações Unidas a responsabilidade pela segurança internacional.
A guerra lançada contra a Iugoslávia modificou este conceito. Ao lançar uma ofensiva militar contra um país soberano, a Otan precipitou não só a revisão de sua própria essência, mas também a dos acordos surgidos da correlação de forças internacionais de 1945, materializados na ONU.
Ignacio Ramonet, diretor da publicação francesa Le Monde Diplomatique, avaliou numa entrevista ao El Pais, de Madri, que "depois de Kosovo, a Otan se apresenta como o único meio eficaz de intervenção e como sistema de segurança da globalização".
"Basta que a partir de agora a Otan diga que é necessário intervir porque estão em jogo interesses superiores da humanidade, para que intervenha", acrescentou.
Há os que dizem que se coalizões de centro-esquerda não estivessem no poder na maior parte dos países europeus da Otan, com a Itália - sede das bases operativas - em primeiro lugar, a "guerra humanitária" contra a Iugoslávia não teria sido possível.
A questão da Otan, portanto, faz parte da reformulação política e ideológica da globalização.
A revista britânica The Economist sentencia em sua última edição que "após o fim do comunismo, não existem competidores sérios para a democracia de livre mercado como método social para organizar a política e a economia".
"Cedo ou tarde, todos os países, exceto alguns remotos focos de caos na áfrica e ásia, conduzirão suas economias sobre as bases do capitalismo competitivo que olha para o mercado para obter instruções", escreveu a publicação, num artigo especial intitulado "A nova geopolítica".
O poder do mercado é superior ao dos governos, concorda Ramonet, para quem "a direita de hoje é a social-democracia, que na realidade é liberalismo".
"A social-democracia está baseada na idéia de ponderar a brutalidade neoliberal com uma maior sensibilidade social, mas nem isto é certo, tudo que oferece é um contrato de confiança, ou seja, ao eleitor só cabe a esperança de que seja assim", sublinhou.
O motivo desta situação, segundo o analista franco-espanhol, é que os governantes modernos têm uma capacidade muito limitada de intervir no mundo financeiro e monetário, o que diminui o "perímetro da democracia".
O escritor catalão Manuel Vásquez Montalbán, por seu lado, assinalou que, no âmbito da guerra contra a Iugoslávia, "a linha direta decisória era Clinton (presidente dos Estados Unidos) e Clark (chefe militar da aliança), os demais atuavam como comparsas".
Para Vásquez Montalbán, o papel de Solana foi "patético" frente ao poder indiscutível que exercem os Estados Unidos, representados pelo general Wesley Clark, que, segundo o escritor
"ainda não se sabe se foi destituído por bombardear muito ou por bombardear pouco".
Solana assumirá agora o cargo de ministro virtual da União Européia para assuntos relacionados ao exterior e segurança, enquanto que caberá a Robertson e ao general americano que substituir Clark a tarefa de analisar a fundo as consequências da guerra travada pela província de Kosovo.
As 11 semanas de bombardeios promovidos por milhares de aviões da Otan lograram destruir grande parte da Iugoslávia, e a retirada das forças sérvias de Kosovo, mas deixaram praticamente intactas as forças militares iugoslavas e no poder o presidente Slobodan Milosevic.
Uma das lições da guerra, disse Robertson, é que os europeus devem gastar mais e com mais eficiência em suas forças armadas, para tratar de nivelar-se com os Estados Unidos, que está décadas à frente em tecnologia militar.
O novo chefe político da Otan prometeu também uma "determinação firme para se ir até onde penso que se deve ir", que a julgar pelas ações na Iugoslávia e a mudança estratégica decidida pela aliança em abril, é um horizonte sem limites e com mínimo espaço para dissensão.


