Moscou, 18 (AE-IPS) - A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deveria anunciar imediatamente a total finalização de sua operação militar em Kosovo a fim de abrir o caminho para a concretização de um acordo de político nos Bálcãs.
A recente suspensão das operações não é suficiente; até que não esteja clara e convincentemente estabelecida sua conclusão, permanece a ameaça da retomada da operação militar sob um ou outro pretexto. Essa posibilidade deve ser excluída.
Existe, entretanto, muito a se fazer antes que a tragédia dos Bálcãs termine realmente.
A prioridade primeira é garantir o retorno seguro de mais de um milhão de refugiados e a restauração das condições normais de vida em Kosovo.
As condições normais de vida devem também ser restabelecidas para os 10 milhões de habitantes da Iugoslávia. A operação militar da Otan devastou toda a infra-estrutura do país. A tarefa que está adiante é colossal e ainda maior do que os esforços internacionais levados a cabo na Bósnia.
Ela exigirá muito tempo e deveria incluir as Nações Unidas, a União Européia, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, a Cruz Vermelha, as organizações humanitárias, o Fundo Monetário Internacional e outras instituições econômicas e financeiras.
Considerando que a Rússia tem dado uma importante contribuição para a busca de um arranjo pacífico, entendemos que deveríamos tomar parte em todo tipo de operação.
O tempo é de fundamental importância, dado o apertado calendário, que se mede em dias em não em meses, para a retirada das tropas e polícia iugoslavas de Kosovo. Uma operação internacional deveria ir adiante simultaneamente com essa retirada, pois ao contrário pode-se produzir um vazio de segurança que poderia ser rapidamente explorado por diversos grupos extremistas para agravar a situação.
Por isso a urgência em se resolver as questões relacionadas com a organização de uma operação internacional de segurança. Estão em curso conversações para tal fim, mas os progressos são lentos e difíceis, já que a Rússia não vai aceitar qualquer tipo de condição para participar da operação.
A Rússia não se resignará a desempenhar um papel de unidade de segunda classe e subordinada. Sua participação deve ser formulada segundo condições que satisfaçam plenamente os interesses da Rússia e assegurem o respeito de seus direitos em relação às tarefas estabelecidas. Com base nessas condições, se tomará uma decisão sobre a participação da Rússia e acerca do nível e da forma dessa participação.
Para que uma operação internacional de segurança seja efetiva deveria ser construída sobre bases negociadas.
Kosovo não pode converter-se agora em uma série de zonas controladas por militares estrangeiros que tenham relações conflitivas entre eles. Uma presença internacional deve ser guiada por um único objetivo: garantir a paz e a segurança. Caso contrário, haveria problemas com o retorno dos refugiados, com o desarmamento dos terroristas albaneses e com outros assuntos complicados.
Particularmente importante é prevenir a perseguição de outras nacionalidades, especialmente os sérvios. Nesse sentido, lembro que a Rússia sempre advertiu que o Exército de Libertação de Kosovo é dirigido desde o estrangeiro para tumultuar a situação.
Os instigadores, me parece, agora são claramente conscientes de que iniciaram um problema que não sabem como resolver. Mas o gênio já está fora da garrafa.
Outra questão fundamental é a reconstrução pós-guerra. Estima-se que serão necessários uns US$ 35 bilhões para a restauração da infra-estrutura da Iugoslávia, que deveria ser também uma preocupação da comunidade internacional.
Os países europeus parecem prontos para essa tarefa e acredito que seria tanto moral como justo que se proporcione uma ajuda considerável, sobretudo por parte dos países que empregaram a força militar para devastar a Iugoslávia.
Só depois que seja anunciado o fim da operação militar da Otan se poderá falar de uma retomada nos contatos entre a Rússia e a Otan a fim de se elaborar futuras normas de conduta.
Desde 24 de março último, quando a Otan começou sua operação militar contra a Iugoslávia, as relações entre a Rússia e a Otan foram congeladas.
Isso também afetou a segurança européia, dado que as relações Otan-Rússia têm sido cultivadas com o interesse de consolidar a estabilidade e a segurança européias. Essas relações deverão ser reconstruídas para torná-las previsíveis e livres de surpresas semelhantes à que Moscou recebeu março. * Igor Ivanov é o ministro do Exterior da Rússia.

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