Los Angeles (AE-NEWSWEEK) - Caixas pretas brilhantes não estão
necessariamente, fora de lugar nos lançamentos de produtos do Vale do Silício. Mas a presença de uma dessas caixas em particular foi um "visitante estranho" no anúncio da interjunção ou ligação (ou cola - "glue") de software da Sun Microsystems para os dispositivos de computação do próximo século.
Executivos da IBM, Philips, Sony e 3Com explicaram com ufania como seus dispositivos futurÍsticos irão usar os códigos Jini da Sun para transformar nosso mundo do trabalho cotidiano em algo parecido com a ponte da Nave Espacial Enterprise. Veio então um executivo europeu para explicar aquele cubo preto brilhante. Afirmou que a caixa estava repleta de software "revolucionários". E, naturalmente, tinha uma conexão com a Internet. O homem era da Bosch. A caixa era uma máquina de lavar pratos.
Pode ter sido uma coisa estranha. Mas certamente apropriada, porque a nova revolução tecnológica não é para hackers e geeks. Ela surgirá, mais provavelmente, no ciclo de enxague das lavadoras de pratos da Internet, para aquecer as cafeteiras conectadas, para acelerar o sedã da famíla que surfa na Web e para olhar para o usuário pelo espelho do banheiro biométrico. Alguns chamam isso de Movimento Pós-PC.
Outros chamam de computação onipresente, "pervasiva", ou difusiva. Mas praticamente todo o mundo, do Vale do Silício até Armonk, em Nova York, chama isso de futuro. Todos os gênios que subestimaram a Internet (e alguns que a viram chegar) estão entoando o mesmo mantra: computadores em tudo. Tudo conectado à Net. É uma combinação que poderia mudar nossas vidas fazendo o que o PC, apesar de todas as suas virtudes, nunca pôde fazer: facilitar as coisas.
Ainda resta criar a infraestrutura - um processo que poderia levar cerca de uma década -, mas a visão é bem clara. Uma mistura de "tubulações" de informações de banda larga e transferências de dados sem fio, a alta velocidade, lançarão uma manta de conectividade sobre nossas casas, escritórios e estradas. Na sua casa, por exemplo, provavelmente haverá um item
ou mais de um, ativamente ligado à Internet: uma caixa colocada sobre o aparelho de TV, um console de jogos, um servidor instalado no porão e talvez até um PC tradicional.
Esses serão os pontos de partida para uma pequena rede de frequência de rádio que transmitirá para a casa inteira. Desse modo a Internet estaria, literalmente, no ar. As coisas dentro da casa inalariam os bits importantes. Sua cafeteira automática teria acesso à sua agenda online, e, assim, quando você estivesse fora da cidade ela não faria o café.
Seu despertador poderia tocar mais tarde do que normalmente, se ele se conectasse e descobrisse que nesse dia você não precisaria aprontar as crianças para ir à escola - um dia com neve! E aquela lavadora de pratos da Internet? Não, ela não seria vendida em leilões.
Como no caso de praticamente todos os seus outros eletrodomésticos importantes, sua conexão com a Internet será usada para fazer contato com o fabricante se alguma coisa estiver errada. Examinando os chips de diagnóstico existentes na máquina, a companhia poderia consertá-la à distância, ou enviar uma pessoa à sua casa para consertá-la.
"Também poderíamos, afirma o executivo Michael Rockstroh, da Bosch, modificar o software da lavadora de pratos à distância, para que o consumidor final pudesse tirar partido de diversos detergentes." Essa visão pressupõe um panorama tecnológico radicalmente diferente. E há uma coisa de particular interesse para Bill Gates : Esse panorama será baseado na suposição de que as funções que eram executadas costumeiramente por computadores pessoais - surfar na Web, fazer a agenda, tomar notas e construir Sim cities - passarão a ser executadas por eletrodomésticos especializados.
Conforme definição do guru do movimento, Don Norman (autor de "O Computador Invisível"), esses eletrodomésticos diferem dos PCs pelo fato de terem sido projetados para executar uma única tarefa, e, portanto, evitar a irritante complexidade que nos faz sentir vontade de lançar nosso amado PC pela janela, mais ou menos uma vez por hora.
Norman também especifica que as informações geradas e absorvidas por eletrodomésticos deveriam ter condições de se mover entre os dispositivos com a firmeza de apertos de mão e a facilidade de beijos lançados no ar. Isso é algo que os atuais info-eletrodomésticos têm dificuldades para fazer.
Mas, se adotarmos a língua franca, que permite que os dispositivos troquem informações entre si livremente, todos os nossos Rocket eBooks, Web Touch Phones, Palm Pilots e Diamond Rios se tornarão muito mais valiosos - e mais fáceis de usar. Se esses protocolos permitem virtualmente tudo o que atrai o poder de beber no oceano de informações da Internet, então objetos que antes eram comuns, como fechaduras de portas e extintores de incêndio, poderão transformar-se em info-eletrodomésticos. Embora zilhões de dispositivos devam estar recuperando informações e enviando material para zilhões de outros dispositivos, os tecnóides insistem em afirmar que eles funcionarão suavemente.
E o velho e bom PC? Alguns prevêem que a sua balcanização e transformação em componentes que poderão ser utilizados por qualquer dispositivo ocorrerão em breve. Por que o seu PC (ou TV) deveria ter um monitor dispendioso quando telas grandes poderiam estar igualmente à disposição de uma PlayStation da Sony, da WebTV e mesmo de um computador que cabe na palma da mão (palmtop)? E as informações contidas na sua unidade de disco rígido não deveriam ficar isoladas.
Protegidos (esperamos), por firmes medidas de segurança, seus arquivos deveriam estar acessíveis a você, de onde quer que você estivesse.
Naturalmente, os dispositivos de armazenamento de dados constituirão uma implementação mais imediata da linguagem Jini, da Sun, que aspira transformar-se na "lingua franca" acima mencionada. Neste ano, deverão também aparecer impressoras e câmeras digitais que, se funcionarem como se promete, se conetarão facilmente com outros dispositivos sem que a pessoa fique coçando a cabeça, arrancando os cabelos e fazendo chamadas frenéticas ao telefone de ajuda ao cliente.
As aplicações mais intrigantes ainda estão sendo "cozinhadas". No Centro de Pesquisa de Palo Alto (PARC), da Xerox, você poderá ver "grampos inteligentes" que ligam documentos impressos às últimas versões digitais. Mas o "info-estratagema" mais legal na PARC é uma fonte de água, que acessa o mercado de ações, via Net. Quando as ações da Xerox sobem , aumenta o fluxo de água.
Os pesquisadores do Media Lab, no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) estão desenvolvendo minúsculos "Penny PCs" (PCs centavos) que podem ser gravados em pacotes de alimentos ou folhas de papel. Fora do âmbito das universidades, o Laboratório para a Ciência da Computação recebeu uma doação federal de US$ 40 milhões para criar o Oxygen, sua própria versão de "computação pervasiva".
A indústria está ocupada no planejamento de produtos para o novo paradigma. O refrigerador da Internet, da Electrolux, pode avisar quando os estoques de alimentos está baixo e até encomendar mais alimentos no supermercado. Há ainda o "ponto alto" da casa do futuro, idealizada pela Matsushita: um vaso sanitário inteligente. Seus sensores analisam a "produção"de seu usuário (aca!) e enviam os dados, via Internet, para os fornecedores de serviços de saúde. O dispositivo de banheiro, da Philips, é um espelho da Net. "Enquanto você está fazendo a barba, este espelho lhe dará uma oportunidade para acompanhar o noticiário ou verificar uma lista de ofertas de emprego", diz o chefe de desenho da Philips, Stefano Marzano.
Os pesquisadores da IBM estão encolhendo os discos rígidos e reduzindo-os ao tamanho de carteirinhas de fósforos. Uma companhia recém-criada, chamada emWare, está aprontando um sistema de irrigação que analisa as informações metereológicas para deixar de funcionar durante um forte aguaceiro. A indústria automobilística, que já entulhou seus carros com microprocessadores, está agora pensando seriamente em colocar a Net dentro dos veículos. Imagine só! Quando seu alternador está prestes a estourar, seu carro envia um e-mail para encontrar o posto de serviço mais próximo que tiver em seu estoque um alternador de reposição.
Aqui não existem garantias, mas os promotores da "ubi-computação", ou computação onipresente, oferecem razões poderosas para provar que sua visão não é apenas um sonho irreal.
É simples. Essa turma do "pós-PC" adora vergastar o pobre computador de mesa (desktop) antigo. O principal executivo da Sun, Scott McNealy, chama o PC desktop de "dispositivo bobo, absurdo". O gerente Mark Bregman, da IBM, o compara às bugigangas do Popeil Pocket Fisherman (artigos de pesca) apregoadas em programas de TV exibidos altas horas da noite. Um montão de instrumentos, "mas todos eles abaixo dos padrões", diz ele.
Os aplicativos de informação, porém, são um "produto natural da maneira como surgem as tecnologias", diz Don Norman. Ele acredita que a computação está prestes a passar por uma transformação semelhante à dos motores elétricos, que originalmente eram vendidos separadamente , mas, eventualmente, tornaram-se invisíveis aos usuários.
É barato. Agora, todos os nossos dispositivos são equipados com seus próprios controles e interfaces. É uma coisa cara. "Mas se você pegar por exemplo um vídeocassete e arrancar esses caros botões e saliências na parte da frente e puser um interface de rede na parte de trás, você poderá controlá-lo com um "browser" da Web", disse David Clark, do MIT. "Colocar os dispositivos em rede torna-os mais baratos e tudo o que é mais barato é inevitável".
É confiável. Bill Joy, principal designer da linguagem Jini, da Sun, compara a confiabilidade de um PC à de um aeroplano. Não é raro seu PC falhar e apagar seus registros do imposto de renda. Mas, os acidentes de avião (raros, graças a Deus!) são intoleráveis: eles provocam investigações e frequentemente resultam em mudanças no sistema. "É isso que devemos ter em mira", disse ele. A maioria, porém , aceitaria o nível de confiabilidade dos aparelhos de estéreo, onde a expectativa de que as coisas funcionem como devem funcionar é quase sempre satisfeita. Esta é a promesa da "pervasividade" - na qual a complexidade do PC é eliminada, os chips de computador substituem processos mecânicos menos confiáveis e onde se supõe que os diagnósticos da Internet consertarão as coisas, mesmo antes de quebrarem.
Possibilita um poderoso modelo industrial. Embora a teoria econômica da Internet (na qual a gente constrói riqueza renunciando a coisas) seja frequentemente obscura no tocante ao que gera os lucros, a turma do "pós-PC" tem uma resposta: os serviços. Como os preços dos chips de computador e da largura de banda só tendem a baixar, é logico raciocinar que todos os tipos de coisas de alta tecnologia - na verdade, tudo o que é feito de átomos - devem ser considerados os líderes de prejuízos no século 21 para as coisas produtoras de receitas - subscrições, contratos e taxas de licença que as pessoas pagarão pelo fluxo de informações e aplicações.
"Não se trata de ganhar dinheiro com hardware, mas um modelo promovido pela anuidade, como o telefone celular", diz David Armitage, principal diretor executivo da Qubit Technology, que fabrica um aplicativo de informação de duas libras, que possibilita percorrer os bancos de dados (browsing) de toda a Web De fato, a visão Pós-PC poderá liderar o caminho para uma mudança importante no modo de pensar das pessoas a respeito da maneira de gastar o dinheiro.
Em vez de apenas comprar "coisas", o enfoque poderá mudar para comprar um meio para fazer ou aprontar as coisas. Bill Joy diz isso de outra maneira: "Eu realmente não quero um carro", afirma ele. "Prefiro pagar por um serviço de carro".
Não é controlado pela Microsoft (pelo menos por enquanto). Aqui está a teoria: se milhões de dispositivos estão falando diretamente entre si , os PCs perderão seu lugar no centro de gravidade e o poderoso controle da Microsoft sobre a indústria irá afrouxar. Em consequência, os competidores da Microsoft têm um enorme incentivo para investir em "computação pervasiva".
Naturalmente, a Microsoft tem seu próprio ponto de vista: O vice-presidente Craig Mundie faz objeção ao termo "Pós-PC", sugerindo utilmente uma alternativa: "PC Plus". Mas Mundie afirma que sua empresa não pode ignorar o fenômeno. A Microsoft já progrediu criando várias versões de seu próprio padrão de info-eletrodoméstico, o Windows CE.
Desenhou um sistema de computação para carros. Criou um "micro-browser" para telefones móveis. E sua aventura para dominar o universo da set-top-box (não-PC) é a principal motivação para seu investimento de US$ 5 bilhões na AT&T.
Quando poderá ser realizada esta visão? Os especialistas estimam em cinco a sete anos, no mínimo, o espaço de tempo para que surjam as novas tecnologias, para que a largura de banda se torne maior e para que uma longa lista de consórcios e alianças chegue a um acordo sobre padrões comuns.
Mas alguns "pedaços" dessa visão estão se encaixando quase todos os dias. Dezenas de dispositivos de informação estão fazendo um bom serviço na realização de tarefas especializadas e o sucesso do PalmPilot galvanizou a indústria. O Palm VII, apresentado nesta semana, abre um caminho novo com sua conexão fácil com a Internet e deverá incentivar os provedores de conteúdo a repensarem as páginas da Web para que possam atender a minúsculas telas. O próximo salto poderá ser na fusão dos telefones móveis com a Net. Na Finlândia, país louco por aparelhos e engenhocas, as pessoas estão usando seus aparelhos Nokia para pagar contas, acessar horários de ônibus em pequenas telas dos telefones móveis e digitar os códigos de pagamento para lavagens de carro e musicas de "jukebox".
Seja qual for a rapidez e a forma da "computação pervasiva", a esperança é de que ela cumprirá sua promessa principal: Integrar os computadores e a Internet de maneira tão "inconsútil" através de dispositivos que a gente chegue até a esquecer o que está dentro deles.
Em vez disso, nós nos concentraremos nas tarefas que queremos realizar em primeiro lugar. "Durante anos, estivemos lutando com todos esses dispositivos; como foi muito difícil usá-los, eles ficaram no centro de nossa consciência", disse o escritor Kevin Kelly. "Mas tornando-se onipresentes e adatando-se a nós - e não vice-versa - eles se afastarão" de nosso pensamento.
Mas será que esse novo mundo realmente eliminará os problemas do antigo? No meio de um recente monólogo sobre a era vindoura, mantido em seu escritório em Aspen, Bill Joy propõe imprimir um papel para ilustrar um ponto importante. Ele pega seu computador laptop, equipado com o tipo de conexão sem fio. de alta velocidade, com a Internet - que um dia poderá ser um adorno de rotina em todas as nossas câmeras, "palmtops", máquinas de jogo, sensores médicos e - sim, certamente - lavadores de pratos. De acordo com a teoria, com certeza todos estes dispositivos estarão ligados entre si numa infraestrutura que na prática eliminará quebras e falhas. Ele tecla o comando para imprimir o papel no quarto adjacente. E nada acontece.
"Sabe o que aconteceu?" pergunta ele. "Eu acho que foi impresso - na impressora que está lá em minha casa no outro lado da cidade."

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