WASHINGTON (AE-NEWSWEEK) - Uma guerra num extremo dos Bálcãs está tendo consequências políticas bem além de Kosovo. Na Rússia um ultrajante senso de humilhação com a ação da Otan tem espalhado das elites para a população em geral e ameaça corroer as relações russo-americanas por muitos anos.
Em Pequim, a virulenta reação ao bombardeios da embaixada chinesa em Belgrado tem desabafado frustrações com a natureza sobe e desce das relações sino-americanas que têm acumulado por muitos meses.
E na Europa, a aparente unidade da Aliança Atlântica tem se tornado frágil: aliados-chaves estão procurando por uma saída; a oposição doméstica está crescendo; os recém-admitidos membros da Europa Central estão inconfortáveis que sua primeira atividade aliada é como parte de uma guarra iniciada pela Otan.
As causas na Rússia e China são claras o suficiente. Seus líderes são produtos de sociedades que interpretam decisões sobre guerra e paz de acordo a se elas melhoram a segurança da nação ou outros interesses vitais. Se eles não podem discernir tal racionalidade no comportamento dos EUA, eles atribuem nossos motivos não ao altruísmo mas a uma agenda secreta para dominação.
Na Europa, a situação é mais complexa. Os aliados compartilham nossos motivos, mas começam a questionar nosso julgamento. E eles se encontraram sob crescente pressão interna enquanto os danos dos bombardeios à Sérvia combinam-se com a devastação de Kosovo.
Um choque de gerações tem exacerbado a crise. As experiências que formaram pessoas-chave da administração Clinton foram nas trincheiras do movimento de protesto contra a guerra do Vietnã ou em campanhas presidenciais - ou ambas.
Desconfiados do papel do poder na política externa, eles o usam ineficientemente e sem convicção. Eles enfatizam os chamados assuntos "leves", como ambiente, e têm pouca preocupação com noções do equilíbrio internacional ou com os tradicionais interesses dos EUA, que eles desprezam como desatualizados. Guiados obsessivamente pelas pesquisas de opinião pública, eles estão sempre tentados a tratar a política externa como uma extensão da política interna. A diplomacia deles é razoavelmente hábil ao lidar com questões táticas de curto-prazo, mas obtusa em relação à estratégia; adepta da opinião pública "giratória", mas inconsciente de valorosas lições de uma geração sobre a limitação do poder aéreo e a futilidade de noções de "escalada gradual".
A rejeição de estratégia de longo-prazo explica como foi possível jogar-se no conflito de Kosovo sem adequadas considerações sobre todas as suas implicações - especialmente a visceral reação de quase todas as nações do mundo contra a nova doutrina da Otan de intervenção humanitária.
Antes do início dos bombardeios, era senso comum em Washington que a histórica fixação da Sérvia com Kosovo era exagerada e que Slobodan Milosevic estava procurando um pretexto para se livrar do pesadelo que ele representava - o que poucos dias de bombardeios deveriam suprir. Mas e se a Sérvia, o país que combateu os impérios turco e austríaco e desafiou Hitler e Stalin no auge de seus poderes, não se rendesse? Até onde desejaríamos ir? Não até uma guerra terrestre, foi anunciado logo no começo, deixando Milosevic tentado a testar sua resistência ao sustentado bombardeio. Não foram feitas preparações para uma guerra de atrito ou a onda de refugiados que deveria criar - para não falar da limpeza étnica que a guerra tem acelerado e intensificado.
Desde o início, tem havido um grande fosso entre a retórica e os meios para apoiá-la. Pronunciamentos aliados têm ritualmente comparado Milosevic a Hitler. Mas a transparente relutância em aceitar baixas assinala que a Aliança não iria ter o comprometimento necessário para derrubar o acusado tirano. Agora se o resultado tiver de ser alguma barganha, Milosevic irá inevitavelmente ser legitimizado e emergirá como um válido interlocutor. Ao justificar a guerra em termos que requerem uma vitória total enquanto conduzindo uma estratégia que impulsiona para um compromisso mútuo, a Otan se jogou numa armadilha.
Várias decisões funestas foram tomadas naqueles, agora aparentemente muitos distantes, dias de fevereiro, quando outras opções ainda estavam abertas. A primeira foi exigir que 30.000 soldados da Otan entrassem na Iugoslávia, um país contra o qual a Otan não estava em guerra, e administrar uma província que tem significância emocional como origem da independência sérvia. A segunda foi usar uma previsível rejeição sérvia como justificativa para o início dos bombardeios.
Rambouillet não foi uma negociação - como muitas vezes clamam - mas um ultimato. Isto marcou um estonteante afastamento para uma administração que assumiu o poder proclamando sua devoção à Carta da ONU e procedimentos multilaterais. A transformação da Aliança de um agrupamento militar defensivo numa instituição preparada para impor seus valores pela força ocorreu nos mesmos meses em que três antigos satélites soviéticos uniram-se à Otan. Isto acabou com as garantias norte-americanas e aliadas de que a Rússia não tinha nada a temer com a expansão da Otan, desde que o tratado da aliança proclamava que ela era uma instituição puramente defensiva.
Kosovo tem desta forma tornado-se um símbolo das frustrações pós-Guerra Fria da Rússia. As atribulações da Iugoslávia, um tradicional amigo de Moscou (deixando de lado a interrupção dos anos de Tito), enfatizou o declínio da Rússia e tem gerado uma hostilidade em relação à América e ao Ocidente que pode produzir uma Rússia nacionalista e socialista - similar ao fascismo europeu dos anos 30. Isto seria um lamentável fim para a política da administração de apoiar as reformas russas e atrair a Rússia para mais perto do Ocidente.
É por isso que as expectativas jogadas na mediação russa em Kosovo parecem ser excessivas. Líderes russos dificilmente lamentariam se o que resultar de Kosovo enfraqueça a Otan. Um intermediário russo enfrenta um duplo dilema: se ele parecer estar apoiando o programa da Otan, ele perderá estrutura em casa; se ele nos induzir a reduzir nossas exigências, ele se tornará um bode expiatório no debate interno norte-americano sobre barganhar nossos objetivos na guerra. O mais construtivo papel da Rússia na minha opinião seria como um participante pleno na conferência para arrajamentos políticos nos Bálcãs seguindo-se a um cessar-fogo.
Para seu crédito, a administração reconheceu desde o começo a importância de se trazer a Rússia para o lado da comunidade internacional. Mas ela tem identificado esse esforço primariamente com reformas democráticas e economia de mercado dentro da Rússia e não-proliferação no exterior. Tudo isto acentua o senso russo de ter caído sob uma tutelagem colonial. A Rússia, por sua vez, tem se apegado a muitos aspectos de sua diplomacia tradicional: buscando reduzir nossa influência, especialmente no Oriente Médio. A imagem que a Rússia tem dela mesma de ser um protagonista histórico no cenário mundial tem de ser levado seriamente em conta. Isto requer menos sermões e mais diálogo; menos sentimentalismo e mais reconhecimento de que os interesses nacionais da Rússia não são sempre congruentes com os nossos; menos sociologia e mais política externa.
Antes do ataque contra sua embaixada em Belgrado, a reação da China à guerra aérea foi mais discreta do que a da Rússia - mas igualmente negativa. Toda a nação vê eventos internacionais pelo prisma de sua história. E para a China, a nova doutrina da Otan de intervenção humanitária evoca as unilateralmente proclamadas missões civilizatórias da Europa no século 19, que levou à fragmentação da China e uma série de intervenções ocidentais. A essas humilhações seguiu-se no século 20 à chamada doutrina Brezhnev que proclamava o direito do Kremlin de punir com a força das armas os regimes comunistas que se afastassem de sua linha ideológica. Na verdade, foi para resistir à doutrina Brezhnev que a China tomou a iniciativa de restaurar suas relações com os Estados Unidos em 1971.
Aquela política de laços próximos entre Estados Unidos e China é agora questionada em ambas as capitais. A política do presidente Clinton foi montada sobre a convicção de todos seus predecessores desde Richard Nixon que tanto a China como os Estados Unidos têm muito a ganhar de uma cooperação e arriscam se exaurir com a confrontação. Para a China, um colapso nas relações seria um duro golpe para seus programas econômico e de modernização. Para a América, ele iria assegurar um turbilhão em toda a ásia, deixando vizinhos da China divididos entre a necessidade de escolher entre o país mais populoso do mundo, cujos 5.000 anos de história dão a ele um lugar especial na ásia e a América, a única superpotência do mundo.
Essa política de cooperação está perdendo momento no nosso lado muito por causa do impasse entre a administração e oponentes que vêem a China como nossa principal ameaça estratégica. O beco-sem-saída advém da tendência da administração de apresentar sua política de engajamento com a China menos em termos de objetivo comum e mais em um método melhor de se alcançar os objetivos dos críticos.
Uma "parceria estratégica" tem sido proclamada, mas a verdadeira discussão estratégica no mais alto nível tem sido rara em meio a disputas sobre questões que vão de Taiwan a direitos humanos e não-proliferação. E a administração tem se sentido obrigada a balancear sua política para a China com periódicas concessões a seus críticos.
Um bom exemplo foi a visita a Washington no começo de abril do primeiro-ministro chinês Zhu Rongji - amplamente considerado entre os mais reformistas e orientados para o mercado dos líderes chineses. A visita foi antecedida pelo anúncio - um pouco antes da chegada de Zhu - de que os Estados Unidos apoiariam uma resolução da ONU condenando as práticas quanto aos direitos humanos na China, e imediatamente seguida da venda de radares de longa distância para Taiwan.
E durante a visita, a administração declinou da assinatura de um acordo sobre a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, pela qual os chineses fizeram grandes concessões e que eles tinham razão para acreditar que seria o tema central da visita de Zhu. (Para aumentar o embaraço de Zhu, a administração publicou todas as concessões que ele fez.)
Seja qual for o ponto de vista do conteúdo destas decisões, sua velocidade deu a impressão de um governo guiado por seus críticos a subordinar à política interna uma política que deveria ter como base os interesses nacionais mútuos.
O bombardeio à embaixada em Belgrado foi a gota dágua que detonou a explosão. Suspeitas mútuas passaram a alimentar um ao outro. Os chineses viram o pedido de desculpas original do presidente - feito em uma resposta a uma pergunta levantada numa coletiva de imprensa durante uma visita a Oklahoma e seguida por uma justificativa do bombardeio da Otan - como inadequada. Os norte-americanos consideraram a violência chinesa contra a embaixada dos EUA em Pequim inaceitável. Mas, para as relações sino-americanas não tenderem para uma confrontação, é essencial o fim das recriminações mútuas e a procura da restauração de um diálogo.
Os líderes de ambos os países parecem estar cientes de que uma confrontação seria catastrófica para os dois lados assim como para a paz mundial. Mas os dois estão sob pressão dos oponentes ideológicos em casa. No entanto, não há maneira de evitar este debate. Nos Estados Unidos, os críticos são sérios e assim deve ser a administração.
Os críticos de uma política cooperativa da China estão em dois campos. O primeiro grupo afirma que a emergência da China como uma grande potência automaticamente ameaça os interesses vitais americanos, especialmente sob a liderança comunista. Um segundo grupo está preocupado com políticas específicas da China que vão de direitos humanos à proliferação.
Para ter certeza, os atos da China em muitas frentes refletem a não sentimental política de uma potência emergente. Contudo, os desacordos sino-americanos podem ser mantidos longe da confrontação por meio da diplomacia paciente e firme. E há muitas áreas de interesses congruentes. Se, na falta de um desafio direto, a emergência da China como uma grande potência e seu sistema político se tornarem combustível para a hostilidade americana, embarcaremos em uma cruzada solitária sem apoio de nenhuma grande nação na Europa e na ásia.
Eu advertiria contra tal aventura que irá distorcer nossa política levada em relação à ásia por décadas. Não há tarefa mais importante para a política externa norte-americana do que determinar uma estratégia reconhecendo e administrando elementos adversos em nossas relações com a China, empurrando Pequim para o sistema internacional. Nos não podemos repetir na ásia as políticas emocionais e confusas que nos levaram à situação atual nos Balcãs. A lei das consequências inesperadas ainda opera.
Apesar da aparente unidade da cúpula da Otan, Kosovo tornou inevitável o debate sobre o futuro da aliança. Ele vem sendo postergado pelo horror das barbaridades de Milosevic e pelo paradoxo dos novos governos de esquerda da Europa - especialmente Alemanha e Itália - temerem que caia sobre eles a acusação de minar o legado de seus antecessores conservadores a favor das políticas externas dos Estados Unidos e da Otan.
Mas é provável que esses novos governos considerem que eles já homenagearam demais as tradições da solidariedade aliada.
É possível esperar que eles sejam influenciados pela indignação crescente em suas próprias fileiras, que estariam protestando às dezenas de milhares nas ruas da Alemanha se o ex-chanceler Helmut Kohl tivesse vencido as eleições e adotasse uma política semelhante.
Uma vez encerrada a crise em Kosovo - mesmo com o prosseguimento da guerra - esses quadros se tornarão mais dominantes. Tal influência já foi demonstrada na recusa abrupta e sem precedentes do chanceler alemão de considerar o envio de tropas terrestres a Kosovo. As questões expostas na cúpula do Otan não permitiam mais atraso.
Especificamente, qual é a missão formal nos tão falados conflitos "fora de área"? Quais são os papéis relativos à Europa e à América? A aliança teria sérias estratégias política e militar para estabilizar regiões da Europa ou regiões estratégicas adjacentes?
A Europa (a Grã-Bretanha incluída) já começou a esboçar a conclusão sobre Kosovo de que é necessário elaborar suas próprias instituições para aumentar sua autonomia em relação aos Estados Unidos - dificilmente apresentando uma moção de censura no meio da guerra. Mas se a Europa não fornecer os recursos para tal tarefa - como é provável - a aliança será deixada com o pior de todos os cenários: uma Europa afirmando maior liberdade de ação em relação aos Estados Unidos mas com pouca habilidade real para agir sozinha; e uma América distanciada da Europa.
Nenhuma questão tem maior necessidade de ser repensada do que o conceito de intervenção humanitária iniciada enquanto a contribuição das administrações para uma nova aproximação para a política externa. A guerra aérea em Kosovo é justificada como estabelecendo o princípio de que a comunidade internacional - ou pelo menos a Otan - irá, daqui em diante, punir as transgressões de governos contrar seus próprios povos. Mas não fizemos o mesmo na Argélia, Sudão, Serra Leoa, Croácia, Ruanda, no Cáucaso, nas áreas curdas e em muitas outras regiões. E qual será nossa atitude para os conflitos étnicos emergentes na ásia, como na Indonésia e nas Filipinas?
A resposta uma vez dada é de que agiríamos onde pudéssemos estar menos suscetíveis a risco, não em qualquer lugar. Mas quais são os critérios para esta distinção? E que tipo de humanismo expressa sua relutância a sofrer baixas militares ao devastar a economia civil de seu adversário pelas próximas décadas?
Princípios morais são expressos por completo. Mas a política externa deve estar sempre preocupada em reconciliar fins e meios. O fato de a limpeza étnica ser repugnante não torna óbvia a necessidade de inventar a resposta mais apropriada. Em qualquer estágio da tragédia de Kosovo, outras misturas de diplomacia e força estão disponíveis, apesar de não ser claro se elas são seriamente consideradas.
Uma estratégia que justifica suas convicções morais apenas de altitudes acima de 15.000 pés - e neste processo devasta a Sérvia e torna Kosovo inabitável - já produziu mais refugiados e mortos do que qualquer alternativa concebível que a mistura de força e diplomacia poderia provocar. Isto merece ser questionado nos campos político e moral.
Os Estados Unidos podem se orgulhar de elevar os direitos humanos a uma parte integral da política externa. Mas quando alguém observa o aumento do pedido por pressão moral dos anos 70
para as sanções econômicas dos anos 80, para as intervenções militares dos anos 90, chegou a hora de pedir uma definição das propostas e um diálogo sobre a relação entre objetivos e métodos. Mas isto fica para o futuro. Agora que a credibilidade da aliança atlântica foi posta em jogo, nós devemos persistir - com tropas terrestres se necessário - até que as forças militares sérvias deixem Kosovo e os refugiados tenham permissão para retornar.
O paradoxo é que um país que pensa sobre si mesmo atuando em nome dos valores universais é visto por muitos outros como atuando arbitrariamente, inexplicavelmente ou arrogantemente.
Uma reavaliação das premissas predominantes de nossa política externa está atrasada. Esta é uma alta ordem para os 18 meses restantes de uma administração antes mais dada a táticas do que a estratégias, mais para Band-Aids do que para a cura. A agenda não será concluída no tempo restante. Mas se o presidente encorajar um debate sobre uma nova agenda antes do fim de seu mandato, ele terá deixado um importante legado.

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