A nova 'corrida espacial' é pela vacina
Do satélite ao imunizante contra a Covid-19, Rússia mostra que a Sputnik V pode aflorar no país a identidade vanguardista da época das primeiras conquistas no espaço
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sábado, 15 de agosto de 2020
Do satélite ao imunizante contra a Covid-19, Rússia mostra que a Sputnik V pode aflorar no país a identidade vanguardista da época das primeiras conquistas no espaço
Laís Taine - Grupo Folha 
“Nesta manhã, registramos a primeira vacina contra o novo coronavírus”. A fala era aguardada por toda a população mundial, mas surpreendeu ao ser proferida pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, na última terça-feira (11). Não havia registros na OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a execução da fase dois e três de testes da vacina, levando à discussão entre a comunidade científica sobre a real eficiência do imunizante. Mesmo assim, a informação deixou o mundo em polvorosa. Os impactos que têm a possibilidade da cura para um mundo em isolamento são fortes por si só e se intensificam pela rivalidade e origem russa, mas com o pronunciamento, o país vive seu ‘momento Sputnik’, que vem para aflorar a identidade vanguardista da nação.
O termo foi cunhado por Kril Dmitriev, do Fundo Soberano da Rússia, como metáfora para esse período de descoberta. O professor, escritor e youtuber Flávio Ricardo Vassoler é um estudioso daquele país. Em seu livro Diários de um Escritor na Rússia, apresenta as nuances culturais, étnicas, políticas a partir do prisma do povo de origem. Ele conta que a vacina do Instituto Gamaleya, cujo nome dado pelo governo é Sputnik V, tem grande representação dentro e fora do país, que possui fortes características pan-nacionalistas.
“A Rússia, historicamente, é um país que chegou, como o Brasil, atrasado na concorrência do sistema mundial produtor de mercadorias do capitalismo, mas é interessante pensar que a Rússia, que teve uma dinastia monárquica secular, tinha, como o Brasil, um complexo de inferioridade econômica, cultural, mas se via como uma civilização própria a partir dos seus próprios marcos de constituição”, analisa o professor. Ele explica que desde o fim da União Soviética e o colapso econômico da Rússia nos anos 1990, essa identidade ficou muito abalada.
A corrida pelo desenvolvimento da vacina contra Covid-19 foi a metáfora utilizada por Dmitriev e remete à corrida aeroespacial da Guerra Fria, quando a URSS colocou o primeiro satélite artificial, o Sputnik, a orbitar a Terra, em 1957. Daí o nome Sputnik V para o nome da primeira vacina conta o novo coronavírus. “O lançamento dessa vacina retoma essas considerações da Rússia como grande potência, como país de ponta, de vanguarda”, comenta Vassoler. No entanto, diferente daquele período inquestionável da conquista, os resultados agora são incertos e é visto com desconfiança pelo mundo.
Ainda que a comunidade científica e a OMS questionem a eficiência da vacina, a possibilidade de o país ter saído à frente fortalece os impactos internos e externos do pronunciamento do presidente. “Putin lança como uma faca de dois gumes e dá continuidade a uma tradição que se pensava vitoriosa em guerras, como na Segunda Guerra Mundial, como na corrida aeroespacial, a Rússia foi a primeira a colocar o satélite ao redor da Terra, a primeira a colocar o animal, a cadela Laika, em órbita, depois foi a primeira em 1962 a colocar o homem na Vostok 1, com Yuri Gagarin, então, a divulgação da vacina pelos russos com nome de Sputnik vem com essa tradição de afirmação interna e externa da identidade russa perante às grandes potências, perante o mundo.”
Apesar da comparação entre os tempos, o professor destaca que a Rússia de hoje não é nem sombra da URSS de 1957. É hoje um país que tem as forças armadas muito competitivas, mas não se compara ao orçamento militar norte-americano, além de o país depender economicamente da China. Porém, o pan-nacionalismo daquela URSS que foi vanguardista em desenvolvimento científico, de vacinas, de modelo educacional, erradicação do analfabetismo, se mantém entre a população. Foi essa imagem que, segundo o professor, o presidente tenta trazer.
“O Putin, que agora pode ser tido como o Czar do século 21, que muito provavelmente com as mudanças na constituição vai ficar no poder por mais dois mandatos, ele provavelmente ganha. Essa divulgação da vacina russa, que vem ser questionada no ocidente, é algo que está na ordem dessa afirmação de identidade nacional de que a Rússia pode ser a vanguarda”.
Para o professor, o Sputnik V teria a dimensão de projetar a Rússia mais uma vez como um país que tem possibilidade de ser a vanguarda em vários campos. “E é certamente vanguarda militar, sem dúvida, tem feito atuações para mediações na política internacional, como no conflito da Síria e agora também nesse campo biotecnológico”, acrescenta. Vassoler criou um canal homônimo no Youtube para discutir literatura, filosofia, sociedade e história e vai comentar questões da vacina russa nos próximos vídeos.


