A necessidade de reinventar a ONU Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 20 (AE) - A ONU, sob a forma "escoteira" de soldados australianos, acaba de desembarcar em Dili, capital de Timor Leste, e tudo corre bem. Por enquanto. E quem não desejaria que a calma, a paz, voltassem bem depressa a este país martirizado e destruído?
Apesar disso, mesmo que a força da ONU (INTERFET) execute a pacificação sem vítimas, a restauração da normalidade em Timor Leste não deixará de ter um gosto amargo. "A honra perdida" da ONU não será salva. Não foram efetivamente as Nações Unidas que organizaram um plebiscito sobre a independência para, logo depois, como diz Le Figaro, "lavar as mãos perante o banho de sangue que daí resultou"? E esse campo de cadáveres e de ruínas
sobre o qual vão avançar os soldados australianos?
Mas esta não é a única preocupação. Os dois últimos grandes conflitos do milênio, Kosovo e Timor Leste, terão visto uma ONU friamente desprezada pela sociedade internacional.
Em Kosovo, os norte-americanos ignoraram Kofi Annan e mandaram os aviões da Otan martelar com bombas os Bálcãs. Em Timor, certamente a ONU acabou por afiançar (a que preço?) uma intervenção, mas delegando sua execução às tropas australianas. Será preciso lembrar que no Iraque, a ONU votou a aplicação de sanções, mas estas sanções são aplicadas pelos bombardeiros norte-americanos e britânicos, que agem estritamente de acordo com seus critérios, sem o menor controle da ONU?
Porque esta impotência? São muitas as razões. Em primeiro lugar, a falta de meios. A ONU está semi-falida, porque os Estados Unidos devem 1,7 bilhão de dólares atrasados. Mas, porque este atraso, quando os Estados Unidos têm um superávit orçamentário de 14 bilhões de dólares?
A resposta é cínica e simples: porque Washington deseja que os "policiais do mundo" não estejam ridiculamente enfeitados com os "capacetes azuis", mas sim com o capacete da Otan, ou mesmo dos Estados Unidos. Esse é um efeito indireto do fim da Guerra Fria: transformada em potência suprema, sem rival, a América quer modelar sozinha a figura do mundo. A nova ordem mundial, profetizada depois da "Guerra do Golfo" por George Bush, é uma ordem americana.
A paralisia da ONU se explica por uma outra falha: a onipotência do Conselho de Segurança, única instância habilitada a decidir o recurso à força militar. O Conselho de Segurança é, porém, muito entravado com muita frequência por um dos cinco membros permanentes - geralmente a China.
É por isso que alguns desejam uma reforma. Esses gostariam de tornar a propor uma resolução elaborada no tempo da Guerra da Coréia e que devia permitir a intervenção da ONU sob os auspícios da Assembléia Geral em caso de bloqueio no Conselho de Segurança. Teoricamente, este processo poderia desatolar a carroça da ONU. Mas a Assembléia Geral conta agora com tantos países, muitos deles tão minúsculos e divididos entre si, que o sistema correria o risco de ficar muito pesado e muito lento.
Por isso, no momento mesmo em que a ONU parece ter restaurado seu controle, com a chegada dos soldados australianos, a maior parte dos países reconhece que esta instituição é pesada, inerte
desprezada pelos Estados Unidos e que seu secretário-geral, Kofi Annan, carece inteiramente de credibilidade e de autoridade. As mesmas vozes insistem sobre o papel determinante que a ONU deveria (e deve) desempenhar. "A ONU continua sendo um freio à tentação sempre presente do unilateralismo dos grandes países, a começar pelo primeiro entre eles... Neste período de globalização, somente a ONU representa o sonho de um governo mundial sobre a base da igualdade dos povos e da partilha das riquezas. Se a ONU não existisse, seria necessário inventá-la. É por isso que se tornou urgente reinventá-la", disse hoje a Radio France Internationale (RFI).





