Paris, 21 (AE) - O rei da França morreu. Certamente, esse rei não era um rei, pois a França é uma República. Mas, enfim, era o pretendente ao trono da França (na verdade, um dos pretendentes, já que, em toda linhagem real, há querelas dinásticas. E os Bourbons da Espanha, que descendem em linha direta de Luís XIV, consideram-se como os verdadeiros "legítimos").
Portanto, a morte de um rei que é apenas conde não mereceria uma grande agitação política. Mas o conde de Paris desempenhou um grande papel na vida da nação. A prova: hoje, um ministro tão ferozmente "republicano" quanto Jean-Pierre Chevnement (ministro do Interior) presta-lhe homenagem.
Primeira virtude do conde de Paris: ele viveu muito tempo, 90 anos, o que lhe permitiu acompanhar toda a modernidade francesa. E não foi inerte.
Duas vezes ele tentou retomar o poder supremo e não conseguiu.
Surpreendente, em um país tão republicano como a França. Surpreendente!
E, no entanto, é verdade (em última análise, quando consideramos algumas inversões surrealistas da história - por exemplo, a implosão do império comunista - dizemos que nada é exclusivo).
Durante muito tempo, o conde de Paris pertenceu à ala mais rigorosa do movimento monarquista. Apreciou, inclusive, o chefe da Ação francesa (movimento político nacionalista e monarquista), o filósofo Charles Maurass, partidário de uma linha quase fascista, a ponto de o Vaticano, antes da guerra, ter excomungado esse Charles Maurrass.
Em 1937, depois de um "golpe" da extrema direita não ter atingido Paris, o conde de Paris e seu pai, o duque de Guise, abandonaram duramente Maurass. Começa, então, uma evolução do conde de Paris para sistemas liberais e abertos. A República deixa de ser maldita para o pretendente ao trono.
Mais tarde, duas vezes, o conde de Paris trama pelo poder. Em primeiro lugar, durante a guerra: muito rapidamente, depois de um flerte com o poder pró-germânico do marechal Pétain, o conde de Paris compreende que deve manter a Resistência. Quando os americanos invadem a áfrica do Norte, em 1942, o conde de Paris quer dar sua cartada.
Foi atribuída a ele, então, uma ação diabólica: o representante de Pétain, na Argélia, o almirante Darlan foi assassinado por um jovem monarquista exaltado. Esse jovem foi logo condenado à morte e fuzilado.
Alguns boatos afirmam, então, sem provas, que o conde de Paris teria planejado esse episódio, pensando que, em seguida, de Gaulle, consolidado na cabeça da França, graças ao desaparecimento do representante de Pétain na Argélia, chamaria o conde de Paris para primeiro-ministro! Nenhuma prova jamais veio confirmar essas fofocas.
O tempo passa. Em 1958, de Gaulle volta ao poder. O conde de Paris que, no entanto, nem sempre gostou do general, se agita. Estava convencido de que de Gaulle ia lhe pedir para ser seu sucessor.
De Gaulle foi, então, surpreendente: recebe com frequência o conde de Paris, presta-lhe homenagens. Diríamos que ele acreditava na idéia de uma volta possível do rei. Mas sabemos que de Gaulle é, politicamente, maquiavélico, para não dizer perverso. É provável que essa possibilidade não passasse de uma das intrigas do jogo complicado e genial que jogava de Gaulle. De fato, jamais o general deu início à menor ação efetiva em favor do conde de Paris.
Uma vez que de Gaulle se foi, o conde de Paris, muito idoso, retira-se pouco a pouco da política. Aperfeiçoa sua imagem de um homem aberto às idéias novas. Em 1988, apoiou Mitterrand para a presidência.
Assim era o homem que acaba de morrer, após uma longa vida associada a todos os dramas de seu país. O fim de sua vida foi entristecido por querelas familiares, particularmente por uma briga com seu primogênito, o conde de Clermont, o herdeiro. Uma conciliação entre o pai e o filho deu-se, em seguida, mas a fratura permaneceu dolorosa.
Hoje, esse filho, Henri, conde de Clermont, torna-se o chefe da Casa de França. Mas o conde de Clermont, ao contrário de seu pai, jamais se misturou à vida política. Por isso, para um grande número de monarquistas, a França não tem mais um pretendente sério ao trono.

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