Washington, 07 (AE) - As agências internacionais de assistência humanitária precisarão de dinheiro adiantado e terão muito pouco tempo para administrar o retorno a Kosovo dos mais de um milhão de refugiados de origem albanesa que estão deslocados dentro da própria província ou buscaram refúgio nos países vizinhos nos últimos dois meses e meio.
"O inverno começa cedo nos Bálcãs e, se começarmos agora, teremos basicamente três meses para fazer o que é provavelmente impossível, ou seja, repatriar e reassentar entre 1,3 milhão e 1 5 milhão de pessoas", informou nesta segunda-feira (07) o sub-secretário geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
Os que ficaram e os que partiram voltaram para casas saqueadas e destruídas e encontaram "apenas as quatro paredes", disse ele.
A preocupação mais imediata é com os cerca de meio milhão de kosovares deixaram suas casas e cidades mas continuaram na província em condições desconhecidas. Há, também, que organizar o retorno de 850 mil outros que buscaram refúgio em países vizinhos.
"Os planos de contingência estão sendo elaborados neste momento..., mas os refugiados tem sua própria vontade", disse Vieira de Mello. "Em outras operações similares, tentamos desencorajá-los a voltar para casa prematuramente, enquanto o trabalho de desativação das minas for realizado - e isso será necessário em Kosovo - e enquanto suas casas estão sendo consertadas, mas eles raramente ouvem."
Outra tarefa será organizar a saída de Kosovo dos membros da minoria sérvia da província. Um número não sabido deles permenece em Kosovo e, se não partirem quando as tropas sérvias se retirarem para a Iugoslávia, se tornarão alvos da vingança dos kosovares retornados.
Depois da "meticulosa, organizada e sinistra operação" que Belgrado levou a cabo contra os kosovares de origem albanesa, "a coexistência será provavelmente difícil, se não impossível"
disse o alto funcionário da ONU.
Evitar que os kosovares partam para um acerto de contas com a minoria sérvia é a preocupação por trás da insistência dos aliados no sentido de que a força internacional de ocupação de Kosovo entre na província tão logo os soldados da Iugoslávia comecem a sair.
Este é um dos pontos de discórdia das negociações sobre os aspectos práticos da retirada das forças sérvias que oficiais dos dois campos começaram sábado na Macedônia.
Segundo o porta-voz do departamento de Estado dos EUA, James Rubin, o presidente da Finlândia, Martti Ahtisaari, disse hoje ao presidente da Iugoslávia, Slodoban Milosevic, que "ninguém quer ver um vácuo de segurança em Kosovo".
Vieira de Mello, que concluiu recentemente uma visita de 11 dias a Kosovo e outras regiões da Sérvia, terá a incumbência de coordenar o trabalho de assistência humanitária de emergência na província.
Ele não tem ilusão sobre a imensidão da tarefa. "Este será um processo muito difícil e as Nações Unidas terão de desempenhar um papel na promoção de uma cultura de tolerância, respeito mútuo e instituições democráticas, que têm faltado e são conducentes ao objetivo final da coexistência pacífica e da prosperidade para todos os povos da antiga Iugoslávia."
Segundo ele, a presença em Kosovo da força internacional de cerca de 50 mil soldados sob comando da OTAN e mandato das Nações Unidas "é essencial porque a proteção, a segurança e o sentimento de confiança dos que fugiram para Albânia e Macedônia é a prioridade número um" para convencê-los a voltar. "O resto é secundário, pois é assistência material, que, embora com dificuldade, pode ser obtida."
O alto funcionário da ONU não quis fazer uma avaliação do custo da fase inicial da assistência humanitária, que não inclui obras de reconstrução. Mas insistiu que os recursos, que terão de ser doados, precisam estar assegurados num prazo relativamente curto. "No caso da Bósnia, levamos meses para levantar US$ 20 milhões", disse ele.
Vieira de Mello disse que o dinheiro deverá vir dos países industrializados, principalmente da União Européia (UE), do Banco Mundial e de governos do mundo islâmico que já se prontificaram a fazer contribuições.
Tão logo as tropas da ONU tomem suas posições em Kosovo, a organização reinstalará sua representação na província, fechada em fevereiro passado, e fará um primeiro trabalho de avaliação sobre as necessidades assistência humanitária mais urgentes.
"A tarefa da administração internacional civil em Kosovo será imensa", disse Vieira de Mello. "Os civis que trabalhaão em Kosovo, em paralelo com as forças militares, terão uma variedade de tarefas quase governamentais, como segurança pública, adminsitração da justiça, reconstrução, educação, saúde, a criação de instituições democráticas, uma imprensa livre e, eventualmente, a organização de eleições - tudo isso além da enorme tarefa humanitária que temos pela frente."
Viera de Mello chamou atenção também para a situação dos cerca de 500 mil sérvios que deixaram a Croácia e a Bósnia nos últimos cinco anos e vivem "em condições esquálidas, subumanas" na Iugoslávia. "Ninguém fala sobre eles, mas eles são seres humanos que merecem a mesma atenção, a mesma compaixão e têm os mesmos direitos dos kosovares albaneses... a menos que se adote uma nova definição de culpa coletiva."
A esse contingente de refugiados esquecido deve-se somar "o estado calamitoso" a que a Sérvia foi reduzida pela guerra, com a maioria da população desempregada e relegada à pobreza, tanto nas cidades como no campo.
O alto funcionário da ONU alertou que "essa situação poderá causar movimentos migratórios irregulares na direção da Europa Ocidental" se não for tratada com a criação de frentes de trabalho de emergência para a reconstrução das usinas de geração de eletricidade e de gás para aquecimento doméstico, antes da chegada do inverno.

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