A MIL POR HORA
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de março de 2005
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
Criança agitada, desatenta e com dificuldade para se concentrar. Na sala de aula, ela sabe tudo o que acontece: quem espirrou, quem deixou a borracha cair no chão e o mosquito que passou voando. Menos a matéria explicada pelo professor. Em casa, não pára quieta, de lá para cá, mexendo pés e mãos quando está sentada, repetindo assuntos e perturbando a família inteira.
Casos como esses podem ser exemplos do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma anormalidade genética, que pode ser confundida com mau comportamento ou mesmo ''falta de educação''. E quando não diagnosticada e tratada, os problemas continuam na vida adulta. Segundo o neurologista e presidente da Associação Médica de Londrina (AML), Aparecido José Andrade, a estimativa é que de 4% a 5% das pessoas tenham déficit de atenção e hiperatividade, mas no Brasil apenas 0,5% estão em tratamento.
Andrade explica que o TDAH é causada por um transtorno genético no DNA que sintetiza a substância dopamina no cérebro. Substância que é reguladora das funções motoras, emocionais e comportamentais. Como a síntese não é feita adequadamente, não há dopamina suficiente para que o organismo esteja em equilíbrio e a pessoa sofre com distúrbios de atenção, concentração e comportamento. ''Normalmente são pessoas muito inteligentes, que sofrem, mas não conseguem se concentrar'', ressalta o médico.
Uma das consequências mais visíveis do déficit de atenção e hiperatividade nas crianças é o prejuízo escolar. Como ela não consegue ficar parada e prestar atenção na aula, vai mal nas provas (apesar de ser visível que os erros acontecem por distração) e muitas vezes reprova. Segundo Andrade, 25% das crianças que reprovam na escola tem TDAH. Outro dano é a marginalização social, pois como as crianças se tornam ''cansativas'' não só para professores, mas para pais e amigos, muitas vezes as pessoas se afastam.
Quem tem o distúrbio normalmente se encaixa em um dos três tipos predominantes de ''personalidade''. Segundo Andrade, o primeiro tipo é o hiperativo-impulsivo, quando predominan os distúrbios de comportamento. O segundo é o tipo desatento, quando não há distúrbio de comportamento tão evidente, mas há muita dificuldade na escola. ''As meninas se encaixam mais nesse tipo'', explica Andrade. O terceiro é o tipo misto, que combina as características dos outros dois, predominando em meninos e causando tanto prejuízo escolar quanto social.
Um dado curioso é que mesmo com a dificuldade de concentração, quando fazem algo de seu interesse conseguem fazer isso com muita habilidade. A explicação para isso é que os centros de prazer no cérebro são ativados e o centro de atenção passa a funcionar em níveis normais. ''Elas se interessam principalmente por informática e videogame e quando há interesse em algum assunto elas o fazem com extrema habilidade''.
O tratamento do TDAH vem sendo feito à base de medicamento - metilfenidato ou ritalina (nome comercial) -, um estimulante que potencializa o efeito da dopamina no cérebro. Segundo Andrade, o medicamento, apesar de ser um estimulante, para quem tem TDAH diminui a agitação e melhora a concentração. ''Não é à toa que é chamada a pílula do sossego''.


