NO GUN RI, Coréia do Sul (AE-AP) - Julho de 1950. Estrondos da Guerra da Coréia estavam se aproximando da sua vila e Chung Eun-young estava profundamente preocupado.
Chung, que tinha 28 anos na época, era um ex-policial. Notícias que se espalhavam rapidamente entre correntes de refugiados do norte afirmavam que as tropas comunistas em avanço estavam selecionando policiais para execução. Sua esposa o encorajou a fugir. "Eu e as crianças ficaremos bem", disse ela.
Enquanto Chung partia da vila montanhosa de Chu Gok Ri, seu filho de 5 anos correu em sua direção. "Pai, por favor, leve-me com você, por favor!". Sua esposa, Park Sun-yong, levou o menino de volta. A cena assombraria Chung pelos 49 anos seguintes.
Dois dias após deixar o local, diz Chung, seu filho e sua filha de 2 anos, além de centenas de refugiados indefesos, foram mortos por soldados americanos enquanto abrigavam-se embaixo de uma ponte ferroviária próxima ao pequeno vilarejo de No Gun Ri. Sua mulher ficou gravemente ferida.
Após meses de pesquisas e entrevistas, a Associated Press informou que doze ex-combatentes americanos, como já sustentavam os sobreviventes coreanos, atiraram naqueles refugiados no fim de julho de 1950. Os veteranos contaram à AP que as tropas norte-americanas temiam que soldados inimigos norte-coreanos estivessem escondidos entre os refugiados à medida em que eles fugiam para o sul com a retirada das forças da Coréia do Sul e dos EUA.
"Eu fui um pai covarde...eu deixei minha família para os assassinos", disse ele. "Trazer a verdade sobre as mortes injustas à tona é a última coisa que eu posso fazer pelos meus filhos e pelas outras vítimas".
A solitária busca de Chung começou em 1960 quando ele enviou um pedido para o escritório de petições militar dos EUA, mas perdeu o prazo final para o apelo. Então, ele investigou detalhadamente o caso, mas manteve-se quieto até os anos 90 porque temia represálias dos sucessivos governos militares com laços muito grandes com os EUA.
Durante este tempo todo, Chung era respeitado pelas autoridades por sua carreira policial e sua associação a um grupo anti-comunista semi-oficial. Ainda assim, sua frustração era devastadora.
"No Gun Ri nunca saiu da minha cabeça por um dia sequer", diz Chung, um homem magro, de 77 anos, com rugas profundas, que administrou uma pequena manufatura de garrafas, mas agora é aposentado.
Na década de 70, a polícia local avisou alguns habitantes da vila que eles deveriam parar de falar sobre No Gun Ri. O sobrevivente Yang Hae-chan disse que foi encaminhado a um distrito policial e lembra-se de ouvir um policial dizer: "Se você continuar a falar sobre No Gun Ri, você e seus filhos serão estigmatizados como comunistas".
Chung, enquanto isso, procurou bibliotecas e historiadores simpatizantes. Ele não encontrou nada sobre No Gun Ri, mas reconstruiu e desenhou mapas dos exercícios de manobra dos militares norte-americanos. E arquivou cuidadosamente toda a sua pesquisa e, anos mais tarde, mostrou a qualquer um que quisesse ouvi-lo.
"Ele estava procurando por alguma coisa, qualquer coisa. Ele estava coletando dados como um louco", diz Yang Young-jo, um pesquisador do Instituto de História Militar de Seul.
Chung procurou a igreja presbiteriana em busca de apoio espiritual e escreveu um livro sobre No Gun Ri. Ele mostrou os manuscritos a doze editores, mas não foi aceito por nenhum deles. Alguns disseram a ele que o conteúdo era muito controverso. Naquela época havia restrições à livre expressão na autoritária Coréia do Sul. Entitulado "Você conhece as nossas mágoas?", o livro foi finalmente impresso por uma obscura editora em 1984 após as reformas democráticas.
Vários sobreviventes de No Gun Ri procuraram Chung com suas próprias histórias e seu apoio. Ele formou um grupo de 30 sobreviventes e parentes de vítimas e enviou uma petição aos governos norte-americano e sul-coreano.
Em princípio, Washington não respondeu. Finalmente, em 1997, eles disseram que não havia evidências para sustentar seu pedido. Após a divulgação da reportagem da AP, ambos os governos prometeram investigar o caso.
Chung também preencheu um pedido de compensação através do estado sul-coreano, que pode enviar os casos para os militares americanos. Foi negado no ano passado sob um regulamento de limitações.
Durante seu longo pesadelo, Chung arriscou-se a se indispor com seus três filhos, que pediam ao pai para esquecer o passado. "Nós estávamos preocupados com sua saúde e não gostávamos de ver nosso pai preso ao que parecia para nós uma tentativa vã", diz seu filho mais velho, Koo-do, de 44 anos. "Mas eu pude entender meu pais quando, à noite, ouvi minha mãe tendo pesadelos e gritando os nomes do meu irmão e irmã mortos".
Chung pensou muitas vezes em desistir de sua busca. Mas quando um repórter da AP entrou em contato com ele em abril do ano passado, ele disse: "Eu sempre acreditei que haveria alguém que iria ouvir a minha história. Quando você quer começar?".

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