‘‘Os jovens de hoje são indivisivelmente frívolos. Não respeitam os mais velhos.’’ Com a frase, proferida há mais de dois mil anos pelo filósofo grego Hisildo, o pediatra e médico de adolescentes Walter Marcondes Filho mostra aos pais que a rebeldia não é privilégio só da atual geração. ‘‘Todo adolescente já respondeu para os pais, todo mundo fazia bagunça.’’
Walter Marcondes Filho é o primeiro pediatra de Londrina a se especializar em hebeatria, nome que a ciência dá à medicina para adolescência (o nome vem de Hebe, filha de Zeus e deusa da juventude e da beleza). Há 16 anos ele criou uma clínica específica para adolescentes em seu consultório particular. Uma das primeiras providências foi separar a sala de espera das crianças e dos adolescentes. ‘‘Alguns jovens não ligam, mas muitos ficam constrangidos de esperar na mesma sala que as crianças.’’
A hebeatria é uma especialidade muito jovem no Brasil - ainda nem saiu da infância. O primeiro curso oficial foi criado há poucos anos pelo Hospital das Clínicas de São Paulo. Trata-se de uma cadeira complementar de 12 meses, que é feita opcionalmente depois dos dois anos de residência médica em pediatria.
No Paraná, o primeiro curso de especialização lato sensu em medicina de adolescência foi criado este ano pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba e vai durar um ano e meio. Marcondes Filho está frequentando as aulas muito mais com o intuito de ter o certificado do que adquirir experiência. Ele lembra que recentemente a Sociedade Brasileira de Pediatria estabeleceu critérios para que a pessoa receba o título de médico de adolescentes.
Na opinião dele, o hebeatra precisa ter bastante experiência clínica e conhecimento de psicanálise, psicoterapia e psicoterapia familiar. Antes de clinicar para adolescentes, Marcondes Filho se especializou em Psicoterapia e Psicoanálise e Psicoanálise para Adolescentes.
Mas outros fatores que os médicos não aprendem na escola são tão importantes quanto os cursos de especialização, comenta Marcondes Filho. O primeiro é gostar de adolescentes e ter empatia com os jovens. ‘‘O médico não pode se sentir juiz ou conselheiro. Nós temos que estabelecer um vínculo de confiança. O adolescente tem que entender que você está ali para ajudar, para ser amigo’’.
Marcondes Filho reconhece que a medicina para adolescentes não é uma especialidade simples de trabalhar: ‘‘A gente tem que abrir mão de muitos conceitos de adulto, ter espírito mais jovem, ser menos realista que o rei, entender e não criticar.’’
A consulta médica do adolescente também difere da pediátrica. As entrevistas com pais e filhos são feitas separadamente. No caso dos meninos, o exame físico é realizado longe dos pais. Com as meninas, o exame é feito na presença da mãe. No primeiro contato, o médico deixa claro que todo o sigilo médico será mantido, dando aos jovens liberdade de expressão. ‘‘O sigilo só é quebrado quando há risco de vida para o paciente’’, explica o médico.
Um exemplo de caso de quebra de sigilo é quando o adolescente avisa que vai se matar - e esses anúncios são mais comuns do que se imagina, comenta Marcondes Filho. ‘‘Nós pedimos para que os pais fiquem perto dos filhos’’, ressalta.
No consultório, Marcondes Filho atende pacientes de classe média e alta, através de consultas particulares ou de convênio médico. No Centro de Referência de Atendimento a Adolescentes de Londrina (Craal), que funciona no Centro de Saúde da Alameda Miguel Blasi, número 1 (centro) o médico presta atendimento gratuito à população.
O Craal foi criado em agosto de 96 por Marcondes, a pediatra Maria Lúcia Guerchmann, a socióloga Cristina Gil, a antropóloga Leila Jeolás, a enfermeira Aparecida Kuriaki e a auxiliar social Maria Tereza Souza. Hoje, outros profissionais já se integraram ao Craal e o centro virou referência estadual no atendimento a adolescentes.
Marcondes Filho afirma que os adolescentes recebem no Craal atendimento médico, picológico e social. O centro trata até os bebês das adolescentes que frequentam o Craal, lembra o médico. Geralmente, os jovens se inscrevem diretamente, mas a entidade também recebe encaminhamentos dos postos de saúde, do Conselho Tutelar, da Vara da Infância e Juventude ou de instituições que trabalham com drogas e alcoolismo.
Além das consultas, o Craal desenvolve gratuitamente reuniões com pais e oficinas abordando assuntos ligados à adolescência. A equipe multidisciplinar do Craal até fez um pacto, conta Marcondes Filho: ‘‘Para fazer parte do Craal é preciso gostar de adolescentes e trabalhar com prazer.’’

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