A mais baixa taxa de natalidade do mundo preocupa a Espanha9/Mar, 12:09 Por Daniel Wolls Madri, Espanha (AE-AP) - Em apenas uma geração, a Espanha transformou-se de uma ditadura direitista em uma próspera e estável democracia. Mas, quando olha-se para o futuro percebe-se que os espanhóis estão ficando sem um tipo de material essencial: bebês. Este país onde grandes famílias já foram sagradas, tanto que recebiam medalhas do governo, diminuiu de tal forma sua taxa de natalidade que a ONU comparou os dados espanhóis com os do resto do mundo e chegou a conclusões alarmantes. "A Espanha está em último lugar", diz Florentian Alvarez, uma demógrafa do Instituto Nacional de Estatística. Em média, as mulheres espanholas têm 1,07 crianças, nada próximo dos 2,1 citados por demógrafos como o mínimo necessário para que uma geração possa repor a si mesma. A população espanhola é de 39,4 milhões e os prognósticos são de que, a menos que os hábitos reprodutivos melhorem ou grandes quantidades de estrangeiros sejam admitidos no país, em uma década a população irá chegar a 39,8 milhões e, então, estagnar. "Basicamente, no ponto em que estamos, se não houver imigrantes, a população irá cair", diz Alvarez. A maioria dos países europeus passa pelo mesmo problema. Na Itália, a taxa de fertilidade é de 1,2; na França ela é de 1 26 e na Alemanha 1,3. Há décadas, os países europeus vêem suas populações envelhecerem, aumentando os temores de que o dinheiro das aposentadorias irá, no final, acabar, na medida em que forças de trabalho cada vez menor sustentam mais e mais aposentados. As taxas de natalidade na Espanha vêm caindo desde 1976, quando era de 2,8 filhos por mulher. Os espanhóis são de natureza sociável, gostam de muita gente. Para alguns, é preocupante ver da tradicional imagem da grande família conversando à mesa do jantar mudar para a de uma mãe e um pai andando por um shopping center na companhia de um só bebê. Os sociólogos dizem que o declínio das taxas de natalidade caíram por motivos que vão de questões econômicas, como taxa de desemprego de 15%, baixos salários e moradia fora das possibilidades de jovens casais, a fatores culturais como homens que não trocam as fraldas dos seus filhos. Como parte das drásticas mudanças, que a Espanha tem passado desde a morte do ditador Francisco Franco em 1975, mais e mais mulheres foram para o mercado de trabalho. A proporção cresceu de 28% em meados dos anos 80 para quase 40% nos dias atuais, informa Alvarez. Mas mulheres que tentam coordenar uma carreira e a família não recebem muita ajuda em casa, e são, dessa forma, desencorajadas a ter mais filhos. "A Espanha é um desses países onde a divisão de tarefas domésticas não deu certo", diz Margarita Delgado, do Conselho Superior para Pesquisa Científica, que é financiado pelo Estado. A Itália é outro desses lugares, afirma ela. Os que defendem a ajuda estatal às famílias dizem que tal apoio tornou-se um assunto delicado na Espanha porque os políticos temem que a assistência lembre o regime franquista e sua ênfase em grandes famílias católicas, que eram premiadas com eletrodomésticos, tais como refrigeradores. Mas o governo agora reconhece que algo precisa ser feito para encorajar os espanhóis a ter mais filhos. Eles afirmam que não podem usar a imigração para aumentar a população porque a Espanha está sob pressão da União Européia para limitar a entrada de norte-africanos em seu território, que vêem o país como uma saída para a pobreza e um acesso ao resto da Europa. Além disso, a Espanha não pode contar com os 30 mil imigrantes que entram legalmente todo ano no país como sendo particularmente procriadores. Os estrangeiros, mesmo os provenientes de países com altas taxas de natalidade como o Marrocos, tendem a adaptar-se rapidamente ao novo ambiente e a ter menos filhos, dizem os especialistas em imigração. O governo afirma que a maioria dos 720 mil estrangeiros legais na Espanha são norte-africanos. Aumentar a cota de imigração legal "irá apenas adiar o crítico dia em que nós não poderemos mais pagar as aposentadorias", diz Jose Ramon Aparicio, vice-diretor da IMSERSO, uma agência do governo espanhol de ajuda aos imigrantes. O Partido Popular, de centro-direita, do primeiro-ministro José Maria Aznar, está prometendo fazer mais pelas famílias como parte de sua campanha para as eleições parlamentares do dia 12 de março. Atualmente, apenas as famílias mais pobres recebem algum tipo de ajuda, que é mínima, menos de um dólar por cada filho menor de 18 anos. As famílias de classe média, afora as deduções dos impostos, não recebem nada. Outros países europeus fazem mais, embora o auxílio não encoraje, necessariamente, a formação de grandes famílias. A Alemanha, por exemplo, paga subsídios de 270 marcos alemães (US$ 140) por criança para os primeiros dois filhos e mais por um terceiro, mas continua a registrar baixas taxas de natalidade. A Federação Espanhola de Grandes Famílias, cujo objetivo é incentivar a criação de três ou quatro filhos a mais, está liderando uma campanha para incentivar a ajuda às famílias. O grupo, que afirma ter 8 milhões de membros, diz que não quer encorajar a produção de bebês, mas quer pôr um fim às regras de impostos que, afirma, ferem as grandes famílias. Tais famílias não deveriam ser punidas, mas, em vez disso, deveriam ser agradecidas por criarem pagadores de impostos, diz o presidente do grupo José Ramon Losana, 48 anos, que tem doze crianças, com idades ente 4 e 24 anos. "As pessoas tendem a rotulá-lo de louco ou ignorante", diz Losana a respeito do seu estilo de vida. "Mas, na verdade, eu estou contribuindo com o mais precioso bem para a sociedade: pessoas".

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