Roma, 28 (AE) - Uma crise profunda da figura paterna está provocando problemas psicológicos graves nos familiares de muitos chefões presos ou assassinados a partir dos anos 80. Depressão, crises existenciais e de identidade, anorexia, problemas sexuais e dependência de tóxicos estão em pauta.
Pela primeira vez, contrariando a rígida norma mafiosa da "omertá", o silêncio, jovens, adolescentes e crianças falam - e com psicólogos. Eles são atendidos nos centros do serviço médico público, para onde são mandados pelas mães desesperadas.
Com base em cerca de 50 casos analisados, um grupo de psicólogos da Universidade de Palermo preparou um livro que está sendo lançado esta semana na Itália pela editora Franco Angeli: Como a máfia muda.
A relação entre o mundo mafioso e a psicoterapia é uma novidade absoluta, que derruba as leis internas da organizaçao criminosa. "O terapeuta representa uma cultura externa e inimiga", declarou à AE Girolamo Lo Verso, professor de psicologia dinâmica na Universidade de Palermo e coordenador do projeto.
"Tradicionalmente visto como onipotente e invencível, com fortes princípios, capaz de violências terríveis mas também fonte de proteção e bem estar, o capo famiglia tornou-se frágil", comenta Lo Verso. Alguns foram assassinados na luta entre clãs, outros estão foragidos. Muitos foram presos graças à ação mais forte do Estado italiano e aos colaboradores.
O que precipitou as coisas foi o fenômeno dos mafiosos arrependidos. Com suas declarações, entregaram parentes e amigos e revelaram segredos da Cosa Nostra. Além disso, há a TV. As moças querem usar minissaia, os rapazes, fumar maconha. Segundo Lo Verso, a nova geração não aceita facilmente as imposições, a vida fechada no clã e a predestinação a ser mafioso.
"Os mafiosos também vão para a análise e, dessa forma, expõem sua intimidade", comenta o juiz Gioacchino Natoli, da procuradoria de Palermo, que colaborou com o livro. Em sua opinião, a máfia está num grande conflito. Natoli lembra que o pensamento mafioso representa um dos últimos exemplos de força condicionadora que os códigos familiares podem exercitar na construção do espaço mental individual.
Analisando a psicologia mafiosa desde 1970, a partir do caso do primeiro arrependido, Leonardo Vitali, Lo Verso explica que a força da organização está na identidade pessoal que dá a seus componentes. "Descobrimos que a máfia tinha uma estrutura de formação da identidade de seus membros mais forte do que a da aristocracia."
Além de uma organização empresarial e militar, a Cosa Nostra tem uma cultura, uma mentalidade: o culto da mãe , a visão do Estado como inimigo e a amizade e a família como as únicas coisas em que se pode confiar.
Citado no livro, Daniel, de 24 anos, conseguiu desvencilhar-se de um futuro criminoso e hoje mora longe da Sicília. Durante os anos de análise, deixou clara a dificuldade de viver numa cidade onde era reverenciado por temor, graças ao sobrenome que ele via como uma vergonha.
Por outro lado, Daniel tinha dificuldade de se aceitar como um jovem qualquer e perder o status e o poder que lhe dava fazer parte de uma família mafiosa. Tinha horror da própria família, mas, fora dela, sentia-se uma nulidade.

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