Um ano após ser devastada por um tornado com ventos que superaram 250 km/h, a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, ainda trava uma árdua batalha diária para se reerguer. O fenômeno atípico provocado por uma supercélula destruiu cerca de 90% das edificações do município, deixou seis mortos, mais de 750 feridos e afetou diretamente cerca de 11 mil moradores, cerca de 80% de toda a população local.
Cada um dos 14,2 mil habitantes do município precisou aprender a lidar com traumas para encontrar forças para retomar a vida. O empresário Adilson Marcos Vosnei, de 52 anos, é um deles. Ele morava na sobreloja do supermercado do qual é dono, no centro da cidade.
Vosnei conta que havia acabado de subir para casa quando o prédio começou a tremer. Ao ouvir o barulho, pegou a filha, correu para o banheiro e fechou a porta. Debruçou-se sobre ela para tentar protegê-la. "Meu único pensamento naquele instante era que eu queria proteger a minha filha".
Na percepção de Vosnei, a passagem do tornado durou cerca de 30 segundos. Quando voltou a abrir a porta do cômodo onde havia se abrigado, encontrou tudo em ruínas. O empresário conta que a paisagem ao redor parecia outra. As construções que antes bloqueavam a visão haviam desaparecido, revelando um horizonte amplo, marcado pelo relevo suavemente ondulado e pelas áreas rurais que cercam Rio Bonito do Iguaçu. No lugar da paisagem urbana, um rastro de destruição.
Assim que deixou o banheiro, ele tentou chegar ao piso onde estavam a mulher, os funcionários e os clientes. Era um horário em que o supermercado costumava receber bastante movimento. Sem conseguir caminhar normalmente entre os destroços, precisou passar de joelhos e se arrastar por trechos do caminho. Na parte de baixo, encontrou a mulher, viva, chorando e suja de barro. Ela o abraçou. Em seguido, constatou que todos os funcionários estavam vivos e bem.


A preocupação continuou com os clientes. “A gente via os carros, mas não achava os donos. Eu tinha medo que eles estivessem sob os escombros”, recordou. Durante as buscas feitas por ele e pelos funcionários, eles encontraram clientes com lesões graves, mas todos sobreviveram. “Deus poupou a vida da minha família, dos funcionários, dos meus clientes”, comemorou.
A emoção foi tão grande que o coração de Vosnei quase não aguentou. Ao voltar ao mercado no dia seguinte para avaliar os estragos, ele passou mal e precisou ser levado ao hospital. Teve um princípio de infarto. "Eu estava morrendo e estava desesperado. Uma profissional de saúde me incentivou a reagir. Disse que minha família precisava de mim e que se eu morresse tornaria a situação ainda mais difícil. Então eu tirei forças dessas palavras. Força para recomeçar".
Vosnei estima um prejuízo de aproximadamente R$ 22 milhões com a perda do negócio, das mercadorias e do apartamento. “Um patrimônio que levamos 23 anos para construir, tijolo por tijolo", lamentou.
Ele chegou a Rio Bonito do Iguaçu adolescente, entre os 15 e os 16 anos. Ele começou com um mercado pequeno, com poucos funcionários e prateleiras de madeira forradas com papel de presente. " Faltavam mercadorias para ocupar todo o espaço", conta. O empreendimento cresceu até ocupar um prédio de três pavimentos, com a casa no último deles.
Recomeço
A reconstrução exigiu uma etapa anterior de desmontagem. Segundo o empresário, o que restou do prédio precisou ser retirado com guindastes para permitir a nova obra.
Vosnei tinha seguro contratado por ocasião de um financiamento bancário. Segundo ele, o valor nominal de R$ 2 milhões estava distribuído entre diferentes coberturas, como incêndio e outros danos. A indenização recebida pelo tornado cobriu apenas parte do prejuízo. O empresário também relata ter obtido crédito com apoio dos governos estadual e federal, com prazo de quatro anos para pagamento.
Na operação federal, afirma que não há cobrança de juros. Para completar os recursos, vendeu bens que possuía. O empresário confessa que a saúde mental foi a maior dificuldade durante esse período de extremos. "A coisa mais difícil para mim foi reconstruir primeiro foi o emocional. Porque você tem uma vida inteira de trabalho, sua família, você está numa linha reta de crescimento. Estou com 52 anos, uma vida inteira trabalhando e de repente, a linha entorta", aponta o abalo emocional. "Eu tinha medo de tudo”, afirma.
Volta por cima
Um ano após o tornado, o Supermercado Econômico foi reinaugurado na última quinta-feira (5), com instalações amplas e modernas, inspiradas em centros urbanos de grande porte. O estabelecimento ampliou seu quadro de colaboradores de 52 para 65 funcionários.
A volta dos clientes foi acompanhada de abraços, choro e comemoração, relata Vosnei. Ele afirma ter percebido um envolvimento dos moradores com a reconstrução do estabelecimento. “Eles fizeram do mercado a casa deles. É um pedacinho da casa deles, é um pedacinho da família deles”, diz.



Entre os reencontros da reinauguração estava a profissional de saúde que o havia atendido depois do tornado. O empresário conta que voltou a conversar com a pessoa que o incentivou a reagir quando estava hospitalizado. Com as portas abertas, diz que quer reorganizar a vida e reservar mais tempo para estar com a família. A rotina anterior era dominada pelo trabalho. “A gente não prestava atenção nas coisas, só queria trabalhar”.
Depois de um ano dedicado a reerguer o supermercado, Vosnei fala em abraçar mais e aproveitar a convivência com quem está ao seu lado. “Eu aprendi muita coisa na minha vida, principalmente amar mais a família. Abraçar mais.”
Como forma de preservar a memória da superação comunitária, a empresa está organizando um memorial físico dentro do mercado reunindo registros fotográficos do antes e do depois da reconstrução.
Comércio está na fase de ‘quase voltar ao normal’
A recuperação dos estabelecimentos comerciais devolveu aos moradores parte dos serviços que precisaram buscar fora de Rio Bonito do Iguaçu. O prefeito Sezar Augusto Bovino (PSD) estima que o comércio tenha retomado cerca de 90% das atividades e associa esse movimento à reabertura dos negócios e ao apoio financeiro aos empresários. “A nossa arrecadação não caiu”, destacou.
Danilo Pereira de Almeida é presidente da Acerbi (Associação Comercial e Empresarial de Rio Bonito do Iguaçu). Um ano depois da tragédia, ele ainda tem dificuldades de lembrar do ocorrido. “Foi tudo tão forte, tão intenso, que tenho dificuldades de falar sobre isso. Mas a parte boa que podemos lembrar é a superação, a solidariedade. Isso foi o que ficou de bom de tudo o que aconteceu”, exaltou.
Ele conta que todas as cerca de 100 empresas com sede no município sofreram algum tipo de prejuízo. “Na época foi muito difícil. Não tínhamos como nem pensar nas empresas. O objetivo principal era sobreviver. Só depois que fomos retomando aos poucos as atividades comerciais”, contou. “Hoje, acredito que quase todos os comerciantes estão em uma fase de ‘quase voltar ao normal’”, avalia.
O prédio da Acerbi também sofreu avarias, mas já foi restaurado. Agora, abriga várias reuniões de outras entidades e órgãos públicos. “Algumas escolas ainda estão em obras. Têm outras entidades também que estão sem sede, aí estamos tendo várias reuniões aqui na sala da Associação”, conta. Segundo ele, a programação de eventos da Associação incluiu vários cursos para ajudar os comerciantes a ter acesso a programas e financiamentos.

Entre as ações governamentais, Almeida ressaltou o Fecap (Fundo Estadual para Calamidades Públicas), destinado a prover uma capacidade adicional de ações de prevenção e resposta a municípios afetados por desastres no Paraná, e também destacou o papel das cooperativas de crédito. “Essa ajuda foi fundamental, porque é um financiamento diferenciado e acessível a todos”, pontuou.
Aos poucos, a vida vai voltando ao normal em Rio Bonito do Iguaçu. As lembranças nunca se apagarão, mas é preciso aprender a viver com elas. “Quando dá uma chuva mais forte, com ventos, muitas pessoas ficam apavoradas. Vai levar um tempo ainda para cicatrizar tudo isso. Nós fazemos nossa parte dizendo que temos que tocar a vida em frente”, conta Almeida.
Recuperação dos prédios públicos segue ritmo mais lento
A retomada das atividades dos estabelecimentos do setor privado ocorre de forma gradual. O presidente da Câmara de Vereadores, Edson Rodrigo Camargo (PL), usa o setor alimentício como exemplo e menciona a reinauguração do Supermercado Baratão (ocorrida cerca de 90 dias após a tragédia) e a reabertura do antigo Supermercado Floriano por uma nova rede comercial.
Camargo lembra que a destruição dos maiores supermercados mudou a rotina de abastecimento das famílias. Ele próprio passou a fazer compras em Laranjeiras do Sul. Os pequenos mercados locais continuaram sendo uma alternativa enquanto os estabelecimentos de maior porte eram reconstruídos.
imagens de novembro de 2025
imagens de junho de 2026
Segundo o vereador, lojas de roupas, materiais de construção, produtos agropecuários e outros pequenos comércios retomaram as atividades antes dos maiores supermercados. “Hoje, graças a Deus, eles já estão funcionando normalmente”, diz sobre os três principais mercados atingidos. “Acompanhar a volta de quem chegou a pensar em desistir ajuda a sustentar a disposição dos moradores para permanecer na cidade. Isso motiva cada dia mais a gente não desistir”, afirma.
Já a reconstrução dos prédios públicos deve se estender por 2027, com um pouco mais de lentidão. O prefeito Sezar Bovino afirma que cerca de 35 estabelecimentos públicos sofreram danos parciais ou totais e que a obra da principal escola municipal ainda deverá se estender pelo ano que vem. Parte dos alunos continua sendo transportada para estudar em Laranjeiras do Sul.

A prefeitura voltou a ocupar sua sede na segunda-feira (2), segundo Bovino, com aproximadamente 90% das secretarias instaladas no prédio. Outras estruturas estão em obras ou ainda dependem de licitação. Na habitação, famílias voltaram a imóveis reparados, enquanto outras aguardam a construção de casas e permanecem em moradias alugadas ou com parentes.
Para Camargo, os equipamentos públicos são o principal desafio desta etapa da recuperação. Ele considera que houve avanço na limpeza, na reconstrução de imóveis particulares e na reabertura do comércio, mas lembra que serviços continuam sendo prestados em espaços provisórios. “A gente está aprendendo a viver novamente”, afirma.
Bovino menciona a recuperação da creche, de estruturas de assistência social e de atendimento à mulher, da capela mortuária e da Câmara Municipal. Segundo ele, algumas intervenções estão entre 30% e 40% de execução.

Outras ainda não começaram. O prefeito cita o Cras (Centro de Referência de Assistência Social), o centro de formação, o centro de convivência e o ginásio de esportes entre os projetos em processo de licitação. Diz esperar autorizar parte dessas obras ainda em novembro, com exceção do ginásio.
Educação
O tornado de 7 de novembro de 2025 atingiu intensidade F4 na área urbana de Rio Bonito do Iguaçu às 17:30 de uma sexta-feira, conforme o laudo final do Simepar. A categoria corresponde a danos associados a ventos estimados entre 332 e 418 quilômetros por hora. A classificação foi estabelecida pela análise dos estragos, com imagens aéreas, registros em solo e dados meteorológicos.

Foi esse o fenômeno que levou o Colégio Municipal Cerbi (Centro Estudantil Rio Bonito do Iguaçu), o principal da cidade, a ser inteiramente destruído.
imagens de novembro de 2025
antes do tornado - março de 2024
imagens de junho de 2026
Sezar Bovino conta que quando foi atingido, o Cerbi tinha entre cinco e seis banheiros, e nem as paredes de alvenaria permaneceram de pé após o tornado. O vendaval destruiu também 23 ônibus escolares pertencentes ao município. Para manter o atendimento, o município recebeu veículos emprestados de outras localidades, entre elas Londrina e Maringá, além de uma casa familiar rural de Francisco Beltrão.
As aulas foram transferidas para uma estrutura cedida pela prefeitura de Laranjeiras do Sul e adaptada para receber as turmas. Camargo estima que entre 500 e 700 alunos estejam sendo atendidos no município vizinho, a cerca de 20 quilômetros. O prefeito confirmou o deslocamento.
A adaptação das crianças ao trajeto exigiu cuidados adicionais. Bovino relata que, depois do desastre, nuvens carregadas, vento ou chuva provocavam medo durante as viagens. Em algumas situações, foi necessário interromper o percurso ou aguardar na escola.
Segundo o prefeito, foram contratados profissionais para acompanhar os alunos nos ônibus e ajudar a acalmá-los. Ele descreve crianças que se levantavam e procuravam o motorista ou outro adulto quando percebiam mudança no tempo.
Na educação infantil, Camargo conta que uma creche passou a funcionar no barracão de uma associação, dividido em salas. A expectativa de recuperar os prédios, afirma, está ligada à possibilidade de devolver às famílias uma rotina de atendimento dentro da cidade.
A reconstrução, segundo Bovino, foi licitada em R$ 11,96 milhões, com recursos federais, e estima que a execução esteja em torno de 30%. A nova estrutura deverá ter capacidade para aproximadamente 700 alunos e segue por todo o ano letivo de 2027.

O prefeito afirma que a frota escolar também já foi recomposta com a compra de 27 ônibus, financiados com recursos do Fecap (Fundo Estadual para Calamidades Públicas), doações e emendas parlamentares. Os veículos emprestados, segundo ele, já foram devolvidos.
Cerca de 10% dos moradores atingidos ainda não retornaram para suas casas
Bovino informa que 1.250 propriedades tiveram danos parciais. Pela estimativa apresentada, entre 90% e 95% desses imóveis já voltaram a ser ocupados, embora parte ainda dependa de pintura, forro, muros e outros acabamentos. Os reparos receberam apoio do Programa Reconstrução, do governo estadual, com benefícios de até R$ 50 mil conforme os danos. O prefeito afirma que aproximadamente 50 cartões ainda estavam pendentes de entrega.

Para as casas que precisaram ser reconstruídas integralmente, o atendimento foi dividido entre programas públicos e iniciativas de entidades. Bovino menciona um convênio estadual de 80 unidades, com obras que estima em cerca de 30%, além de ações do governo federal, da Cáritas e da União BR.
Entre as entregas já realizadas, ele cita 38 moradias vinculadas ao governo federal, por meio da Caixa Econômica Federal, 20 do governo estadual e 25 da Cáritas. A previsão apresentada é de novas entregas no primeiro semestre de 2027.

Na última sexta-feira (6), Bovino assinou o Decreto Municipal nº 344/2026, que declara de utilidade pública, para fins de interesse social, a área destinada ao Conjunto Habitacional Pio. O terreno tem 107.690 metros quadrados. A finalidade descrita no documento é implantar o loteamento, construir as unidades habitacionais e executar a infraestrutura necessária ao reassentamento de famílias atingidas pelos desastres.
O decreto informa que o imóvel já havia sido declarado de utilidade pública para desapropriação em novembro de 2025 e que o município detém sua posse por decisão judicial de imissão provisória. O novo ato estabelece a declaração específica para o empreendimento habitacional.
Limpeza
O presidente da Câmara lembra que, antes de iniciar a recuperação, foi necessário retirar os destroços. Máquinas e caminhões enviados por outras prefeituras ajudaram a remover entulho, ferragens e coberturas arrancadas. “Um vizinho ajudou o outro”, resume. Depois da limpeza, vieram a busca por recursos, os convênios, os projetos e as contratações. Na avaliação de Camargo, esse percurso ajuda a explicar por que os prédios públicos demandam mais tempo. “A gente demorou 30 anos para construir nossa cidade”, afirma, ao comparar o período de formação do município com a rapidez da destruição.
Bovino aponta ainda a falta de mão de obra como uma dificuldade que afeta obras públicas e particulares. "Tem engenheiros, mas não tem pedreiros. Fizemos uma parceria com o Crea e recebemos o apoio de profissionais de engenharia no planejamento e nas avaliações técnicas, mas a disponibilidade de trabalhadores para executar os serviços continua limitada".
Solidariedade em forma de diagnóstico e prevenção de acidentes
Quando o tornado passa, o risco de mortes e acidentes ainda continua. Isso porque a força da destruição deixa muitos imóveis condenados. Nesta hora, é importante identificar as estruturas que oferecem risco de desabamento para evitar uma tragédia ainda maior. Nesta hora, a solidariedade de uma ação do Crea-PR (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), em parceria com outros estados fez a diferença.
Regina de Toni é engenheira civil especialista em Engenharia de Avaliações e Perícias. Ela, que mora em Realeza (Sudoeste), a cerca de 160 quilômetros de Rio Bonito do Iguaçu, coordenou uma equipe de cerca de 150 engenheiros que atuaram em campo na tragédia.
Com experiências em missões em Madagascar, na África, e nas enchentes do Rio Grande do Sul, contou que nunca havia visto algo parecido. “Era um cenário de guerra, terra arrasada mesmo. Tivemos bastante trabalho na vistoria. Era preciso catalogar quais precisavam ser interditados, e quais poderiam ser reparados ou demolidos”, explicou.
O trabalho dos engenheiros possibilitou a confecção dos documentos necessários para a liberação dos recursos. “Com esse trabalho, foi possível constatar, individualmente, a porcentagem dos danos e, assim, comprovar os prejuízos às autoridades”, detalhou.
De Toni contou que voltou a Rio Bonito do Iguaçu duas vezes após o tornado: em fevereiro e em outubro. Ela ficou muito feliz com o cenário encontrado na visita mais recente. “Quando fui em fevereiro, ainda havia muito lixo, mas nesta última viagem, em outubro, o que eu vi foi uma cidade se recuperando, bonita, com novas construções. Isso é muito recompensador”.
Burocracia é o maior problema hoje, avalia prefeito
Para o prefeito Sezar Bovino, a obtenção de recursos não foi o principal obstáculo à recuperação de Rio Bonito do Iguaçu. Ele destaca os aportes dos governos estadual e federal, de cooperativas e de outros doadores, mas afirma que a transformação desse dinheiro em obras esbarrou nos procedimentos de contratação, documentação e licenciamento. “O maior problema das obras públicas hoje é a burocracia”, afirma. “Não podemos esperar um ano para dar uma ordem de serviço de uma obra.”
Bovino defende a revisão dos procedimentos aplicados à reconstrução de municípios atingidos por desastres. Na avaliação dele, a urgência de devolver moradia e serviços públicos à população exige uma preparação anterior à emergência, com responsabilidades definidas entre os órgãos envolvidos.
O presidente da Câmara, Edson Rodrigo Camargo, também aponta a tramitação dos projetos e das licitações como uma das razões para a recuperação dos prédios públicos levar mais tempo. Lembra que o município dependia de apoio externo para financiar estruturas que haviam sido construídas ao longo de décadas.
Ao Legislativo, segundo Camargo, coube acompanhar os recursos e dar suporte às medidas necessárias ao atendimento emergencial. A própria Câmara havia perdido sua estrutura física quando os vereadores começaram a organizar o trabalho. “No domingo a gente já sentou juntamente com o prefeito, com a Defesa Civil”, recorda, referindo-se ao primeiro fim de semana depois do tornado.
Camargo conta que viajou a Curitiba para buscar apoio e que os nove vereadores participaram da fiscalização por meio de comissões. Segundo ele, o acompanhamento incluiu as obras e o barracão onde os materiais recebidos eram distribuídos à população. “Sempre foi feito o trabalho de fiscalização”, afirma.
O presidente da Câmara diz que procurou conciliar a fiscalização com a urgência das necessidades dos moradores. Na avaliação dele, a atuação conjunta com o Executivo permitiu encaminhar providências sem transformar a reconstrução em disputa partidária. “Fazendo o nosso papel, que era fiscalizar, mas também entendendo a realidade do nosso povo”, resume.
Transparência
Um balanço do governo estadual publicado em 14 de agosto informa que R$ 10 milhões do Fecap (Fundo Estadual para Calamidades Públicas) foram distribuídos a 260 empresas.
Outros R$ 455 mil da prefeitura atenderam 14 empreendimentos, levando o total a 274 beneficiários. Os pagamentos estaduais ocorreram entre junho e julho. Os valores foram de R$ 20 mil para microempreendedores individuais, R$ 45 mil para microempresas, R$ 70 mil para empresas de pequeno porte e R$ 100 mil para as demais categorias contempladas.
A subvenção não precisa ser devolvida, mas está sujeita a obrigações e fiscalização. O Decreto Estadual nº 13.977/2026 prevê a manutenção da atividade e dos empregos por pelo menos 12 meses, observadas as exceções legais. Também exige a guarda de documentos sobre a aplicação dos recursos por cinco anos e permite auditorias e pedidos de comprovação.
As lições do desastre
A falta de comunicação é uma das primeiras dificuldades que Bovino menciona ao falar do que precisa mudar na resposta a desastres. Sem energia elétrica e internet, a administração precisava organizar o socorro e conversar com autoridades de outras cidades. “Nós ficamos sem energia, sem internet”, recorda.
Segundo o prefeito, a busca por um equipamento de conexão por satélite levou três dias e terminou com a localização de uma unidade em São Paulo. A experiência, afirma, mostrou a necessidade de manter meios alternativos de comunicação disponíveis para situações em que a estrutura local deixa de funcionar.
A chegada de materiais para os primeiros reparos também sofreu com a demora. Bovino diz que as lonas demoraram cinco dias para chegar, quando as casas danificadas precisavam de proteção já no dia seguinte. Ele defende que o planejamento contemple materiais de emergência, alimentação e locais de acolhimento.
Na saúde, a resposta dependeu da estrutura dos municípios vizinhos. Camargo explica que Rio Bonito do Iguaçu não dispõe de hospital e é atendido pelas unidades São José e São Lucas, em Laranjeiras do Sul. O posto de saúde central teve danos na cobertura, mas a estrutura permaneceu de pé. Sobre os hospitais da cidade vizinha, o vereador afirma que “estiveram prontos para atender a nossa população”.
Bovino também relata a chegada de médicos de outros municípios e defende que essa mobilização faça parte de uma organização previamente estabelecida entre os serviços de saúde. Na avaliação dele, transporte de feridos, reforço das equipes e encaminhamento dos pacientes precisam ter responsáveis definidos.
O mesmo vale para o acolhimento. O prefeito conta que procurou um hotel para abrigar famílias que haviam perdido suas casas. Ele defende que os municípios tenham condições de acionar rapidamente hospedagens e outros espaços, com procedimentos preparados antes da emergência. “Tudo isto tem que ser organizado”, afirma. Para ele, a ajuda entre vizinhos e o apoio recebido de outras cidades foram decisivos na resposta ao tornado. “Sozinho a gente não consegue nada”, afirma.
O Dia D
No primeiro fim de semana depois do tornado de 7 de novembro de 2025, Sezar Augusto Bovino ainda tentava compreender a dimensão do que precisaria enfrentar. A cidade que havia ajudado a construir perdera casas, escolas e estruturas de atendimento à população. “Eu fiquei no ar”, recorda.
Segundo o prefeito, a prioridade naquele sábado e domingo foi acompanhar o socorro às pessoas feridas e atender quem havia ficado sem moradia. Ele relata que 748 pessoas foram atendidas nas primeiras 48 horas e cita seis mortes no município.
Enquanto os hospitais recebiam as vítimas, havia famílias que precisavam de um lugar para dormir e de condições para preparar uma refeição. Bovino lembra dos moradores que ficaram “sem casa e sem uma panelinha para poder cozinhar”.
A organização da alimentação envolveu ajuda de outras cidades. O prefeito relata que chegaram a receber 8 mil marmitas em um dia, enviadas por municípios como Cascavel e Guarapuava, para atender moradores e voluntários que trabalhavam na recuperação.
No domingo, a chegada de representantes dos governos estadual e federal e de outras autoridades abriu uma nova etapa da resposta. Era necessário identificar o que havia sido destruído e definir quem responderia pela recuperação de cada estrutura.
Bovino conta que, a partir dessas reuniões, começou a organizar as responsabilidades sobre escolas municipais e estaduais, moradias e outros prédios atingidos. O município, afirma, não tinha recursos próprios para assumir sozinho a reconstrução.
Os primeiros 30 dias foram dedicados a esse planejamento, ao mesmo tempo em que continuavam as necessidades de socorro, alimentação e abrigo. Segundo o prefeito, houve acompanhamento frequente de autoridades e do Ministério Público nas discussões sobre as providências.
A experiência acumulada em outros mandatos não o havia preparado para aquela situação. “A gente nunca passou e nunca pensou. Eu chorei os 30 dias”, relata.
No quinto mandato, o prefeito associa parte desse sofrimento à própria história com Rio Bonito do Iguaçu. Foi o primeiro a administrar o município e participou da implantação de estruturas que agora precisavam ser refeitas. “Eu ajudei a construir a primeira escola, o primeiro tijolo”, conta.
Cerimônia relembra tragédia e destaca superação do povo da cidade
Rio Bonito do Iguaçu prepara um encontro para reunir moradores e marcar a reconstrução da cidade. Segundo o prefeito Sezar Bovino, a programação de sábado, 7 de novembro, será realizada das 19 horas à meia-noite, com culto ecumênico, apresentação de crianças e depoimentos de famílias.
A proposta, afirma, é dedicar o encontro às histórias de quem permaneceu e aos caminhos percorridos desde a tragédia. A programação deverá privilegiar imagens da reconstrução. “Nós vamos mostrar o lado de construção, o lado de alegria, o lado de carinho, o lado religioso, o lado da fé”, diz.
A preparação também se estende ao Natal. Bovino anunciou uma celebração natalina e ações de limpeza, retirada de entulhos e pintura pela cidade. A expectativa é receber familiares que voltarão a Rio Bonito para visitar os moradores atingidos pelo tornado.
O prefeito quer que essas visitas encontrem os sinais da recuperação, embora parte das obras e das moradias ainda esteja em construção. Ao falar sobre o fim do ano, resume o desejo que acompanha esse trabalho: “eu quero que todo mundo seja feliz novamente”.