A língua crioula haitiana luta por reconhecimento e respeito2/Mar, 11:21 Por Dan Perry Port-au-prince (AE-AP) - A maioria dos haitianos não conseguem entender a língua utilizada nos jornais, livros de direito, documentos oficiais, na maioria das outdoors e a grande parte dos impressos do país. Isso porque o francês, a língua dos antigos tempos coloniais, é mantida com um respeito quase místico pelas elite haitiana que insiste em usá-la, mesmo que nove em cada dez haitianos falem apenas o crioulo. Numa nação onde apenas um quinto dos falantes do crioulo podem ler ou escrever, a classe superior usa o francês para manter seus privilégios e seu poder e, neste processo, silenciosamente suprimir o crioulo, dizem os críticos. Para os partidários da língua, como o ex-ministro da cultura Jean-Claude Bajeux, a supressão do crioulo pelos governos haitianos do passado e intelectuais é um opressão, um deliberado ato de subserviência aos velhos mestres coloniais. "É uma insensatez", diz Bajeux, batendo sua mão na mesa. "A mesma mentalidade escravocrata continua a impor-se. Eu não acredito que a independência tenha mudado isso". Para os francófilos da classe alta, como a dona de livraria Vania Auguste, o crioulo é um mero idioma local, uma espécie de francês errado, que ela considera como "coisa nossa". "O crioulo não é uma língua. É um dialeto", insiste Auguste. "Não há dicionários nem gramática formal". Os apoiadores do crioulo se opõem a essa informação . Eles argumentam que as origens são únicas e determinadas: uma língua que se desenvolveu em navios negreiro e em plantações como uma forma que os africanos de diferentes tribos encontraram de se comunicarem uns com os outros e com seus donos. O fato do crioulo ter se desenvolvido similarmente em lugares tão distantes como St. Lucia, uma pequena ilha que fica a 1.300 quilômetros de distância, sugere não a existência de um francês deturpado, mas um língua lógica, dizem seus defensores. A maioria das palavras do crioulo haitiano é derivada de palavras cujas origens são claramente francesas, filtradas através de um sistema fonético diferente. Este sistema alivia as palavras de suas sílabas finais fracas, tais como os quase imperceptíveis "r's". Além disso, é escrita foneticamente para aproximar as mais difíceis vogais francesas que soam como "eu" ou "u". Assim, a palavra "cultura" francesa torna-se "kilti" e "ciel" (céu), vira "syel". Para Auguste, isto faz do crioulo um derivado do francês. Enquanto sua livraria contém trabalhos de autores haitianos como Gary Victor, a grande maioria dos livros são escritos em francês. "As pessoas que compram livros não os compram na língua crioula", diz ela em francês bem pronunciado. Tais sentimentos são lutas de palavras para Bajeux, que recentemente compilou uma antologia de 800 títulos, entre eles, uma adaptação da antiga peça teatral grega "Antígona", por Morriseau Leroy, um reverenciado poeta local. Bajeux concorda que talvez 80% do vocabulário crioulo haitiano vem do francês. Ainda assim, ele lembra, não falantes da língua crioula não conseguem entendê-lo. Um dos motivos: em crioulo, o artigo segue o sujeito. Outra diferença é que seus verbos não mudam com o contexto, em oposição às complexas e frequentemente irregulares conjugações do francês, espanhol e outras línguas latinas. Bajeux compara o crioulo de hoje às línguas européias durante o Renascimento, tentando libertar-se do controle do latim sobre as letras. O crioulo tem conquistado algumas vitórias. Grupos haitianos nos EUA estão desenvolvendo dicionários e apoiando estudos sobre o crioulo. Uma lei de 1969 deu ao crioulo limitado status legal e em 1979 um decreto permitiu o uso o crioulo em escolas. Mas o Haiti é tão pobre que apenas metade das crianças frequentam escolas e poucas passam do ciclo básico. A constituição de 1983 declarou o crioulo e o francês como línguas nacionais, mas especificou que o francês seria a língua oficial. Outra constituição, de 1987, deu ao crioulo status oficial. Enquanto o crioulo prevalece nas rádios haitianas e os debates parlamentares vem sendo conduzidos na mesma língua, a maior parte dos documentos, entre eles a recente lei eleitoral, são publicados em francês. Bajeux sonha com o estabelecimento de escolas que passaria às crianças haitianas conhecimento em sua própria língua. "Se queremos desenvolver este país, temos que colocar o dedo na raiz do problema: a questão linguística. Nós temos que resolver nossa identidade", diz ele. Por enquanto, o francês aparece em propagandas e em todo lugar em ruas, mas além da compreensão da maioria. Uma enorme faixa, por exemplo, anuncia o "Grande Ouverture" (grande abertura) de um armarinho chamado "Les Ciseaux D'Or" (tesouras de ouro). Os políticos, por outro lado, não perdem uma chance sequer. O único sinal crioulo na principal avenida de Port-au-Prince convida as pessoas a participarem das eleições parlamentares do dia 19 de março. Lê-se "Viktwa pou demokrasi!", ou "Vitória da democracia".