A Jamaica vê o ressurgimento da era Marley do reggae político
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quarta-feira, 29 de setembro de 1999
Por Matthew J. Rosemberg 
Kingston (AE-AP) - Duas décadas após Bob Marley e Peter Tosh terem dominado as ondas do rádio, o reggae político está estourando novamente, graças ao reexame de uma era sangrenta.
As últimas grandes letras de música que documentaram as lutas e a violência política patrocinada pelo estado datam dos anos 70
um período em que os políticos da Jamaica usavam gangues de rua para influenciar eleitores.
Com o tempo, esta violência tornou-se menos política. As gangues de combate criadas pelos partidos políticos jamaicanos voltaram-se para o tráfico de drogas e brigas sobre território. E o reino do reggae finalmente deu lugar à dancehall, um híbrido de reggae e rap.
Isto está mudando. Uma onda pela busca das raízes começou quando o ex-ministro da defesa, Dudley Thompson, desculpou-se em agosto por seus comunicados em 1978, que depreciavam uma emboscada feita pelo exército a membros de gangues aliadas a partidos de oposição. Naquela época, Thompson disse que cinco membros das gangues, mortos na emboscada, "não eram anjos". Ninguém foi condenado pelo episódio, que tornou-se um símbolo da repressão.
Pouco depois, o primeiro-ministro do governo de Michael Manley proibiu uma música sobre o incidente de uma banda chamada Big Youth. "Desta vez nós não vamos perdoá-los", declarava a letra. "Desta vez diga que é assassinato".
A desculpa de Thompson foi seguida por uma torrente de mea culpas de líderes políticos do passado e do presente e levantou pedidos, até agora rejeitados pelo primeiro-ministro P.J. Patterson, para uma comissão de verdade de reconciliação.
"Se nós vamos falar sobre a limpeza da sociedade, nós temos de abri-la", disse Pearnel Charles, um ex-ministro do governo. "Eu estou envolvido na corrupção da política... e não estou orgulhoso disso". Na medida em que as discussões sobre o problema se intensificam, estações de rádio seguem o que acontece.
DJs e uma nova geração de ouvintes voltaram-se para as quase documentais letras de Marley e de outros pioneiros do reggae para ouvir a história da pobre nação que luta para construir uma democracia após séculos de escravidão e colonialismo britânico. "Os artistas cantaram a respeito do que estava acontecendo, mais do que estava documentado nos artigos de jornal", diz Barry Gordon, um popular disc jockey que está liderando o renascimento do reggae.
Como Marley, que cresceu na cidade de Trench, uma guarnição do Partido Nacional do Povo, a maioria dos cantores de reggae cresceram em vizinhanças envoltas em violência política. Sob a pressão do escolher entre o Partido Nacional do Povo de Manley e o partido Trabalhista ex-primeiro-ministro Edward Seaga, a maioria das estrelas do reggae permaneceu neutra. Ele moveram-se entre as comunidades guerreiras e registravam o sofrimento. Após a emboscada de 1978, quase todas as estrelas do reggae jamaicano participaram do concerto de Kingston em apoio à paz.
Seu ponto alto: Marley fez Seaga e Manley apertarem as mãos sobre sua cabeça e prometerem acabar com a violência. Isso não aconteceu e a Jamaica viu anos de mais violência política.
"Cantores como Bob Marley e Perter Tosh descreviam o que era visto nas ruas como a hipocrisia das classes dominantes", disse Roger Stefans, um historiador de reggae. "A Jamaica não é um país versado em livros. Os jornais não captaram o que acontecia nas ruas da mesma forma como o reggae fez", disse ele. Gordon disse que foi atraído para as músicas do período político nas últimas semanas "para mostrar aos jovens o que aconteceu". Richard Burgess, um disc jockei de uma emissora rival, também percebeu um "crescimento de interesse", que fez com que ele aumentasse o número de músicas deste tipo em mais da metade.
Na Nuff Music, em Kingston, que especializou-se em "reggae de boa qualidade", o proprietário Neville Lewis diz que as vendas subiram mais de 40%. Os jovens estão comprando reggae, disse ele.
"Na maioria das vezes, são pessoas como eu, que cresceram em meio a toda essa inquietação", disse Lewis, de 45 anos. "É bom ver a nova geração tendo algum interesse. Esta música é a origem da dancehall, e eles devem aprender um pouco sobre isso". Enquanto a dancehall tem suas próprias músicas políticas, os críticos dizem que letras misóginas e a celebração da violência empobreceram sua mensagem.
"Quando você pensa em dancehall, pensa em mulheres semi-nuas. Não é uma voz para as frustrações dos pobres e oprimidos", diz Stefans. Owen Campbell, 17 anos, encontrou esta voz em Tosh, que foi morto a tiros em sua casa em Kingston em 1987. Marley morreu de câncer em 1981.
"Ele tem esta música Tratado de Paz, sobre a trégua de uma gangue que aconteceu em 1978, mas não acabou", disse Campbell a medida em que procura velhos discos no mercado provisório de Kingston.


