A íntegra do discurso de FHC na comemoração dos 500 anos
Rio, 31 (AE)- Segue a íntegra do discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso durante as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, realizada na Escola Naval, no Rio de Janeiro. Fernando Henrique participou da cerimônia "Chama do Conhecimento", que é a fusão de três fogos simbólicos conduzidos por representantes das três principais etnias que contribuem para a formação do povo brasileiro: a índia, a negra e a branca. Eis o discurso: Recebo nesse instante, vinda de Portugal, a terceira "chama do conhecimento". A primeira recebi em São Raimundo Nonato, no Piauí, das mãos de chefes indígenas. Logo depois, Ruth Cardoso recebeu, nos sertões de Goiás, das mãos dos Calungas, descendentes de escravos africanos, a outra das chamas simbólicas, do encontro entre raças e culturas que formou o Brasil. No romper do ano 2000, quando nosso país completará seus 500 anos, rendemos homenagens aos formadores de nossa civilização: brancos europeus, de fala portuguesa e fé em Cristo, índios autóctones com dezenas de falas e crenças e negros africanos, também diversificados na língua e na cultura. A essa base, juntaram-se vários outros povos, que trouxeram suas crenças, seus valores, suas técnicas e, sobretudo, sua fé nessa nova América. Somos talvez a maior nação multirracial e multicultural do mundo Ocidental, senão em número de habitantes, na capacidade integradora da civilização que fundamos. Essa diversidade e sua mestiçagem constituem a marca do nosso povo, o orgulho de nosso País, o emblema que sustentamos no pórtico do novo século. E essa identidade dá-nos a base para a entrada no novo milênio, o da "civilização global"; nos distingue pelos valores da tolerância, permite que reflitamos, a partir dela, o quanto conseguimos caminhar nesses 500 anos. Basta olhar para o século que finda para ver o quanto fizemos. Em 1900, éramos 17 milhões de pessoas. Hoje, somos mais de 160 milhões. Nossa economia está entre as 5 que mais cresceram no século e nenhum país dos que andaram depressa se aproxima do número de habitantes que temos. Hoje, 80% do nosso povo vive em cidades. Plantamos não centenas, mas milhares de cidades em 100 anos, e não por acaso Brasília é outro de nossos símbolos. Se no começo do século XX éramos um país basicamente rural, hoje
contando com uma das maiores produções agrícolas do mundo, menos de 20% dos nossos compatriotas vivem no campo. Industrializamo-nos, lançamo-nos à aventura da Ciência e da Tecnologia. Fabricamos e exportamos aviões, desenvolvemos tecnologias para exploração de petróleo em águas profundas e desenvolvemos novas técnicas para a exploração agrícola; mantemos um sistema de apoio à Ciência e à Tecnologia que é um dos mais sólidos dos países em desenvolvimento, dispomos de uma Medicina de alta complexidade de padrão universal. Se contávamos apenas com 16% de pessoas que sabiam ler e escrever no início do século XX, hoje, são menos de 15% os que, infelizmente, ainda são analfabetos. Quase todas as nossas crianças - 96% - estão nas escolas. E estamos lutando para que os 4% restantes não amarguem a falta de instrução. Avançamos na luta contra o analfabetismo, assim como continuamos lutando contra a mortalidade infantil e, no novo século, vamos ganhar estas batalhas. Se olharmos para frente, sentiremos que há muito o que fazer. Queremos o progresso, mas de braços dados com a qualidade de vida de todos os brasileiros e com respeito ao meio ambiente. É certo que consolidamos a democracia. Hoje, nosso povo não apenas sabe que a Constituição é a regra máxima e deve ser respeitada, como impõe no dia-a-dia o respeito à cidadania. E sabe reivindicar, quando necessário, para obter seus direitos. Os valores republicanos do início desse século deixaram de ser aspiração, tornaram-se prática. Só o poder legitimamente constituído pelo voto é respeitado. As leis feitas por homens e mulheres livres governam as pessoas, não a vontade discricionária de quem quer que seja. Falta ainda transformar a igualdade jurídica em igualdade social. Pátria de imigração, de braços abertos aos que aportam, como Cristo que nos guarda do alto do Corcovado, queremos ser berço de uma sociedade na qual cada um há de fazer-se a partir de oportunidades iguais, o que só se conseguirá com políticas públicas de redução da pobreza e com maior extensão e qualidade no ensino. Terra da Solidariedade. É isso que pedimos como bênção nesta entrada do Milênio. Sei, como todos sabem, da violência que ainda campeia. Sei das mazelas e das ameaças. Sei da escassez que a muitos aflige, das carências de tanta coisa, não só de recursos, mas às vezes, até mesmo da capacidade coletiva de governar-nos. Mas sei também que o Brasil entra no novo século desejando manter o vigor de sua cultura. Queremos manter nossa identidade, com espírito aberto e cordial, mas também com a vontade férrea de sustentar o império da lei que assegura a igualdade e com a disposição de aceitar os desafios da razão e das tecnologias, às vezes destruidoras de velhos caminhos e de antigas esperanças. Queremos preservar essa cordialidade, não para obscurecer o que ainda existe de desigualdade, de injustiça. Mas sim para amenizar a frieza do chamado "mundo moderno". O que falta fazer não deve desmerecer o que já fizemos. O longo caminho a ser percorrido não será vencido se o desânimo, a inércia e o pessimismo negarem sempre os passos já dados, as conquistas alcançadas. O que construímos e aprendemos no passado constituem a base para nossa confiança no futuro. A fé em nós próprios e no que alcançamos hão de guiar-nos na busca do amanhã de esperança. Paz e amor são também nossos lemas. Soubemos manter a paz secular com os nossos vizinhos; estamos lutando para que ela exista entre nossos irmãos brasileiros, no catecismo da solidariedade. Paz nas famílias, na vida das pessoas, baseada não só na estabilidade econômica que estamos alcançado, mas na coesão social de um povo que constrói um destino comum. Meus amigos, quando os portugueses aventuraram-se pelos oceanos na ânsia de descobrir novas terras e novas gentes, deram a marca da modernidade: a descoberta do outro, o reconhecimento da variedade e da diferença. Hoje, no século da Tecnologia, os herdeiros desse espírito aventuram-se no espaço e buscam não só "outras terras e outras gentes" mas outros mundos no espaço planetário. Vivemos, no século que finda, a era do Sputinik, dos homens pisando na Lua, fazendo a circunvolução de outros planetas. Vivemos a era de novos conceitos de tempo e de espaço, a era de Einstein, da informática, da biologia molecular, da engenharia genética, do homem que imagina poder recriar artificialmente os seres. Tudo isso anima e atemoriza. E nós, brasileiros, não queremos ser herdeiros do medo. Por isso, diante do novo mundo que se avizinha, da Internet, da produção globalizada e dos tormentos financeiros sem fronteiras, não cobriremos nossas cabeças com a poeira do passado. Estamos nos preparando para participar da Nova Era. Herdeiros de uma natureza exuberante e variada, queremos respeitar o meio ambiente, para legá-lo como fonte de vida às gerações futuras. Queremos progresso, crescimento econômico e mais empregos. Mas não queremos perder a cultura da solidariedade. Não aceitamos discriminações de raça, de religião ou de gênero. Queremos o amor ao próximo com dimensão prática: que a impunidade não encubra a Justiça. São estes os desejos para o milênio que se inicia. É este o legado dos nossos quinhentos anos. Saberemos respeitar as realizações dos nossos antepassados e ser herdeiros de seus sonhos e esperanças. Enfrentaremos o futuro com a confiança dos que constroem uma grande Nação. Erro! A origem da referência não foi encontrada.





