São Paulo, 19 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu nesta manhã, da embaixada do Brasil em Roma, uma entrevista exclusiva no programa "De Olho no Mundo", uma produção conjunta da "Rádio Eldorado" e "BBC de Londres". Esta é a íntegra: O Sr. esteve ontem na Organização da ONU para Agricultura e Alimentação, aqui em Roma, e o senhor criticou os subsídios concedidos aos agricultores europeus pela União Européia. O Sr. também tem criticado o protecionismo dos países ricos. Vem a aí a Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comério (OMC). Como é que o Brasil vai lutar contra o protecionismo dos países ricos? Fernando Henrique - Eu não critiquei apenas a União Européia. Eu falei - como você disse - em termos mais amplos sobre o protecionismo. Porque não tem sentido que países como os nossos da América Latina, que fizeram um grande esforço de abertura comercial e hoje têm realmente uma liberalização muito maior do que tinham no passado e que encontrem resistências tão grandes nos países desenvolvidos. No caso da Europa, basicamente, a questão é agrícola, em função do acesso ao mercado europeu. Porque há um subsídio muito forte na agricultura européia. No caso de outros países, comos os Estados Unidos, além disso há também a questão do aço, do suco de laranja e outros produtos mais. Então, não achamos que seja justo. Nós, no Brasil seguimos as regras da OMC, abaixamos as tarifas, as tarifas são iguais para todos. Ora, se pediram que liberalizássemos, se tem que ter a contrapartida moral, com a liberalização por parte dos países ricos. Nós vamos colocar e esclarecer tudo isso na Rodada do Milênio, em Seattle, como já temos colocados em outros foros. Haverá uma unidade muito grande entre o Brasil, a Argentina e o Mercosul e os demais países. E nós temos também que nos defender: se continuar assim, ora, nós temos um mercado grande e nós podemos voltar a fechar. Não é bom, é ruim para todos. É ruim para o povo, porque sobem os preços, o subsídio sai do bolso de alguém. É ruim para todos. O Sr. falou da unidade do Mercosul em Seattle, mas o Brasil e a Argentina, os principais parceiros do Mercosul, estão tendo uma série de desentendimentos na área comercial. O embaixador Sebastião Rêgo de Barros disse que se não mudar alguma coisa em seis meses o Mercosul pode ter morte triste e inglória. O Mercosul não está indo enfraquecido para essa rodada do milênio? Eu conversei com o presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa, recentemente, e nesse sentido acho que nós temos coincidência de pontos. O que aconteceu com o Mercosul - basicamente entre o Brasil e a Argentina, já que os outros problemas são menores, a questão do leite como o Uruguai nós vamos resolver sem dificuldades - foi que os dois países tiveram momentos de recessão. Se imaginava no começo do ano que a recessão no Brasil seria muito forte. Não foi. Mas na Argentina foi. Ora, havendo recessão os mercados ficam mais restritos e os empresários locais ficam também mais exigentes. Mas eu acho que nós não podemos deixar posições específicas, por exemplo calçados, levem a um prejuízo geral. Eu não acho que isso seja lógico. Então eu acho que nós temos que nos esforçar, no futuro até com mais esforço. A recessão passará - no caso do Brasil já está passando e, espero que na Argentina também - e haverá mais espaço a todos. Nós temos que pensar muito mais numa convergência das nossas políticas macroeconômicas. Temos metas fiscais comuns, como a Europa fez em Maastrich - e eu tenho dito que nós temos que criar um pequeno Maastrich -, vamos nos impor coletivamente uma disciplina fiscal. O economista Jeffrey Sachs disse ontem que a Argentina e o Brasil deveriam pensar em câmbio flutuante e moeda única. Eu acho que sim, mas acho que tinha que ser pensado no decorrer do processo que começa por estabelecer certas metas de equilíbrio fiscal para que nós possamos realmente ter uma moeda mais forte. Mas esse é o caminho. O nosso caminho não pode ser o caminho do recrudescimento da guerra comercial. Nesta semana que o Sr. esteve fora do Brasil, nós tivemos um assunto correndo solto, que foi a questão da inflação, após a divulgação daquela pesquisa, dando a entender que muita gente no Brasil acha que a inflação está efetivamente de volta. Depois da sua resposta em Cuba, de mais comentários feitos aqui de pessoas achando que o governo tem que entender também a sua parte nessa história. O Sr. parou para refletir um pouco mais sobre esta questão, presidente? O que o Sr. pensa dessa discussão toda? Qual a sua visão sobre a questão da inflação neste momento? Onde cai esse problema e o que se pode fazer para evitar que ele se concretize como problema? Nós vivemos num mundo em que muitas informações são fragmentárias: o que se diz num dia no outro dia já é completamente diferente, uma pesquisa hoje diz uma coisa, amanhã outra diz outra. Por coincidência, eu li a súmula dos jornais do Brasil de hoje, que tem uma notícia que diz que as nossas contas externas nunca estiveram tão boas - embora ainda nós precisemos fazer mais - e com relação ao PIB o déficit da conta corrente é de 4,3% nos últimos 12 meses. É uma notícia alentadora. Ontem se dizia que o grande problema é que, como nós não tínhamos excedentes na balança comercial isso afetaria as contas externas e por isso haveria uma tendência para subir os juros, não sei o quê e que iria pressionar com isso a inflação. Hoje a notícia já é outra. Eu acho que nós temos que olhar esses problemas com calma e ver que é um processo. A inflação foi controlada duas vezes. A primeira em 94, com a introdução do real, o que nós fizemos com muito empenho. A segunda, neste ano, quando houve a desvalorização entre 40 e 50%. E a taxa de inflação que nós estamos discutindo é saber se vai ser de sete, oito, ou oito e um pouquinho no ano inteiro. Isso já nos preocupa e é positivo que nós nos preocupemos. Mas nós temos que colocar em perspectiva, quer dizer, não é uma ameaça global mas uma preocupação tópica. Hoje mesmo o secretário de Política Econômica, Edward Amadeo, já explicou que isso não afeta a política de baixa da taxa de juros
que essa subida momentânea num ou noutro preço não foi consequência de um excesso de demanda, mas foi consequência de outros problemas, como por exemplo a alta do preço do petróleo, que também é momentâneo, ou a questão de uma tarifa administrada. Então eu não vejo que nós tenhamos que estar criando um clima como se tivesse perigo de volta da inflação. Qualquer governo sério, quando há uma subida de preços olha com atenção e trata de dizer o que ele pode fazer para que isso não se generalize. Alerta a população. Não distribui culpas. Eu fui, talvez, pouco feliz quando me expressei, ou mal interpretado, como se estivesse dizendo que os empresários são os culpados. Aí já veio a reação: "não, culpado é o governo". Nós não temos que discutir quem é o culpado, nós temos que decidir juntos o que nós fazemos para que o povo não sofra os efeitos da inflação. Há uma certa preocupação, o governo tem como mexer no câmbio, embora nós não estejamos numa situação em que tenhamos que defender o câmbio. Mas, de qualquer maneira, hoje o nosso panorama é um pouco diferente. Nós não podemos nos deixar arrastar pelo primeiro boato, pelo primeiro sinal que apareça. Nós temos que considerá-lo, olhá-lo e atuar para que não ocorra uma inflação que perca o controle. E não vai perder o controle. A inflação neste ano foi, dentro das circunstâncias, moderada. O fato de se ter uma subida no preço do atacado não quer dizer que a inflação do consumidor vá subir. E o governo estará atento a tudo isso. E também, espero, não só o governo mas o conjunto da população. O Sr., que está aqui para participar da reunião da terceira via, vai se encontrar com o presidente Clinton, o primeiro-ministro britânico Tony Blair e o chanceler Gerhard Schr”der. Enfim, a terceira via é um modelo novo de social-democracia e o que esses líderes políticos têm em comum é uma certa preocupação com o lado social. Entretanto, Tony Blair e Gerhard Schr”der já estão querendo promover cortes na área social e seus governos têm sido criticados. Está saindo um relatório da ONU que diz que dos 35 programas de socorro aos carentes houve cortes em 25 e o governo brasileiro teria cortado US$ 2 bilhões nos últimos dois anos na área social. Essa é a tendência da chamada terceira via, de cortes na área social? Certamente que não. Eu não vi esse relatório da ONU, mas certamente ele terá alguma explicação. Devo dizer que, em dois anos, US$ 2 bilhões para quem tem um orçamento de US$ 160 bilhões não chega a ser assustador. Mas precisa ver onde foi cortado. Muitas vezes o que ele considera que foi cortado é uma despesa que era desnecessária, ou que era inútil, ou que poderia ter um resultado melhor se fosse usada em outro setor. Eu posso lhe assegurar que no conjunto, nem educação, nem saúde, nem reforma agrária tiveram cortes. Pelo contrário, no caso da saúde nós passamos de um orçamento da casa de R$ 14 bilhões para um orçamento de R$ 20 bilhões. E ainda mandei aumentar neste ano. No caso da educação, da mesma maneira, houve um aumento consistente. No caso da reforma agrária, não havia nada no orçamento quando eu assumi o governo. Nós já gastamos bastante, nos últimos anos eu creio que cerca de R$ 9 bilhões. Por outro lado, se olharmos os programas específicos, por exemplo os programas de atendimento às pessoas idosas, não existia, e agora nós temos mais de um milhão de pessoas que recebem uma renda mínima. Foi feito no meu governo. Não havia nenhum programa para tirar crianças do trabalho penoso: no governo federal nós já tiramos 130 mil crianças e tem no orçamento dos próximos três anos R$ 1 bilhão para tirar todas as crianças do trabalho penoso. De modo que no caso do governo do Brasil não houve redução, nem na saúde, nem na educação. Expressamente, por determinação minha, não houve cortes. E sempre houve gritaria. Por quê? Porque quando você vê o orçamento, que é uma peça complicada, as pessoas dizem que houve corte, mas não vêem que às vezes está reposto acolá. Por outro lado, o que se tem que olhar não é o orçamento, mas o que se executa. De modo que eu não li o relatório, mas posso garantir que deve estar composto de má compreensão de problemas. Eu não posso negar que pode ter havido realmente, num ou noutro caso um corte e que possa estar errado esse corte. Mas é preciso examinar. Mas eu posso lhe assegurar que nos números globais não são assim: todos os dados sociais só tem um dado social que não foi bom, que é o desemprego. Ainda assim, com toda a crise, neste ano a taxa de desemprego é menor do que a do ano passado. E nós estamos empenhados para que ela continue baixando. No resto: mortalidade infantil, merenda escolar, saúde em geral, educação, acesso à escola, tudo foi feito. Dentro da circunstância de um país pobre que sofreu crise
que não tem recursos abundantes, nesse contexto eu posso lhe dizer com a consciência tranquila que nós estamos fazendo o máximo que é possível. Eu vou ver o relatório da ONU e promete a você que vou mandar respondê-lo se tiver alguma coisa errada. Como o Sr. tem visto aí as sinopses do noticiário brasileiro, deve ter visto que durante esta semana tivemos mais uma série de denúncias e revelações, e até alguns indiciamentos e prisões como fruto da CPI do Narcotráfico. Uma das perguntas que muita gente anda fazendo é como que uma CPI pode investigar e descobrir tanta coisa e a polícia não. O Sr. não acha que esse é um bom "gancho" para se fazer alguma coisa profundo de reforma da área de segurança pública no País para que ela tome a iniciativa e não fique mais esperando outras estruturas levantarem as questões para depois agir ? E, às vezes, nem isso. Eu acho que não se deve perder nenhum momento para melhorar a estrutura de segurança pública, porque o que o brasileiro e a brasileira mais querem hoje é a segurança, sentir uma certa proteção por parte do Estado. Isso é fundamental. Agora, muito do que a CPI divulga são processos em curso, que já existiam mas não tinham a publicidade que a CPI permite. Por outro lado, a CPI tem uma grande vantagem: é que ela tem um instrumento que só ela tem, que é o de quebrar o sigilo telefônico e o sigilo bancário com rapidez. Eu já pedi ao Congresso inúmeras vezes, como vou pedir de novo agora, que pelo menos o sigilo bancário pudesse ser transferido. Ou seja, a informção que está de posse do Banco Central possa ser passada para a Receita ou para a Polícia Federal, ainda que mantendo o sigilo. Ou seja, ainda que não vá para a opinião pública antes de se constituir uma peça sólida de acusação. Até agora o Congresso não votou. Vi que nesta semana o Congresso resolveu não votar com urgência essa matéria. Eu acho isso indispensável. Por que a CPI pode ir rápido? Porque ela tem esse instrumento que permite, com muita rapidez, se quebrar certas barreiras que dão acesso à informação necessária para perseguir a bandidagem. Mas isso não escusa de que os aparelhos de segurança dos governos em geral têm que ser melhorados. A responsabilidade pela segurança pública direta é dos governos locais, mas o governo federal tem responsabilidade também no que diz respeito ao contrabando, no que diz respeito ao narcotráfico. Nós estamos tentando - e já com muito empenho - e criei a Secretaria Nacional Antidrogas para coordenar políticas. Pode ver que a Polícia Federal atuou muito duramente no Maranhão. E, aliás, no Maranhão a polícia estadual foi muito ativa também: quando a CPI chegou esses elementos já estavam todos sendo perseguidos, estavam todos sendo vigiados. Eu já disse de público a importância da CPI, mas não se pode subestimar que ela só pôde funcionar porque teve o apoio das instituições. E o Banco Central tem instruções minhas e do seu presidente para, mais rapidamente possível, fazer com que os bancos nos dêem as informações pertinentes para pegarmos o verdadeiro bandido. O verdadeiro bandido não é só o "pé-de-chinelo", não é aquele infeliz que está servindo de "avião", como se diz na gíria policial, levando cocaína para fazer um mal às famílias e às pessoas. O verdadeiro bandido é o que não aparece, é o que financia tudo isso, é o que está gozando milionariamente desses recursos em Miami, no Paraguai, ou onde eles mais queiram. Essa gente é que financia tudo. E esse é que tem a proteção. E nós precisamos chegar até lá. Eu acho que isso é fundamental, a população não aguenta mais essa sensação de impunidade. E há impunidade mesmo, e nesse sentido eu acho que a sua pergunta tem razão de ser e o ministro da Justiça está também ativo no sentido de tornar as discussões no governo mais ágeis. E sobretudo também que não haja corrupção, que não permita que haja penetração da bandidagem na própria máquina do governo. Retomando a questão da inflação, ontem saiu o IGP-M da Fundação Getúlio Vargas para os primeiros 20 dias do mês de novembro de 1 87% e os economistas estão prevendo que a inflação do mês vai ultrapassar a marca dos 2%. Com o aumento da inflação pode-se esperar que o Banco Central passe a intervir com mais frequência no mercado para evitar a alta do dólar? Veja que o número é uma coisa perigosa: isso é o IGP-M, não tem nada a ver com o preço do consumidor. A política de controle da inflação do BC está baseada em outro indicador, o IPC. O IGP-M é um preço por atacado, que não passa necessariamento para o consumidor. O Banco Central olha para o preço do consumidor. Então esse tipo de notícia assusta o povo, porque não se explica o que é. E tem um pressuposto que não é verdadeiro de que, automaticamente, porque subiu o IGP-M vai subir o IPC. Não vai. No começo do ano subiu mais do que isso. Isso é uma subida específica do mês de outubro e que tem uma razão específica. Agora, por exemplo, nós estamos na entressafra e o preço do gado sobe. Às vezes é uma entressafra do feijão, que por vezes varia 50% num mês e no mês seguinte cai. Isso é recolhido pelo IGPM, mas não necessariamente pelo IPC. E isso me parece uma coisa muito importante de ser esclarecida para a população. Deixa esses números para os economistas, que, aliás, fazem uma embrulhada danada com eles e quase sempre erram nas previsões. O Sr. também deve estar acompanhando essa situação desagradável que está acontendendo na frente da sua propriedade em Minas Gerais. O MST hoje parece ser um movimento que de reforma agrária tem a intenção no nome, talvez, mas a ação do movimento é muito mais política. Será que isso não é facilitado porque o governo não tem transmitido bem para a sociedade o que fez de fato na área da reforma agrária? É possível. Porque isso na verdade é uma mera provocação, não tem nada a ver com uma reinvindicação. Até porque os que lá estão, pelo que me disseram, são todos "com-terra". Eles têm uma reinvindicação com o Banco do Brasil: querem recursos do Banco do Brasil, o que é normal que queiram. Lá no Banco do Brasil. O resto é provocação. Agora, é verdade que o governo não tem explicado à população o esforço enorme que nós estamos fazendo. Ontem eu estive na FAO e dei alguns números na FAO. O ministro Raul Jungmann, estava comigo, e disse: "Os seus números são modestos porque nós já desapropriamos mais do que isso. Eu disse que o governo federal tinha desapropriado, creio que nove milhões de hectares de terra e que isso equivale a duas Bélgicas". Ele disse que não eram nove, foram 12, portanto quase três Bélgicas. É enorme a quantidade de terra desapropriada. E não é só isso: nós colocamos as pessoas na terra - já fizemos em quatro anos 280 mil famílias, um milhão e meio de pessoas. Isso se compara com o que foi feito nos últimos 30 anos, antes do meu governo. Nós fizemos em quatro o que o Brasil levou 30 para fazer, desde o início desse processo. E mais, nós estamos dando financiamentos. Há um programa chamado Pronafe, que é um programa de apoio à agricultura familiar, só neste ano esse programa tem R$ 3,4 bilhões. As pessoas têm dois anos de carência, às vezes não pagam durante dois anos para ter tempo de plantar. Elas têm dinheiro para fazer a sua casinha, para comprar sementes. E isso está sendo feito no Brasil todo. Era zero a assistência à agricultura familiar. Então neste ano nós pegamos os assentados, que entraram no Pronafe também. E esses que estão à porta da fazenda querem um pedacinho do Pronafe. Agora, eles querem que o Banco do Brasil dê o dinheiro sem eles terem um projeto para dizer o que vão fazer. Esta é a reinvindicação. Tem cabimento? Tem cabimento você pedir para o governo dar dinheiro e você não vai dizer o que vai fazer com esse dinheiro? É o que eles querem. E isso aparece como se fosse luta pela terra e não é, é provocação. Agora, é necessário apoiar a agricultura familiar, fazer a reforma agrária, tratar os movimentos sociais com dignidade, com respeito, mas exigir deles o mesmo respeito. Ao presidente, não, ao cidadão, a quem tem um pedaço de terra e que pagou os seus impostos. Ele tem que ser respeitado. Ao Tesouro, aos outros contribuintes. É preciso exigir respeito também, porque quem não trata com respeito acaba sendo desrespeitado. E a democracia exige respeito recíproco. Então é esse o nosso problema no Brasil. Por falar em reforma agrária, o Sr. esteve com o papa há pouco e o papa, nos últimos encontros que manteve com o governo brasileiro tem insistindo na questão do combate à violência no campo e a reforma agrária. Ele tocou nesses assuntos com o Sr.? Eu conversei com ele, mas ele tem informações precisas. Isso que eu acabei de dizer o papa sabe, os esforços que nós estamos fazendo. A minha conversa com o papa foi uma conversa, eu diria, até de amigos, tantas vezes já ouvi e tão carinhoso ele foi no tratamento a mim - e mais tarde ele recebeu a Ruth e os outros membros da delegação de uma maneira muito carinhosa -, todos muito bem tratados pelo papa. E o papa estava com um bom espírito. Eu disse o seguinte: "Eu tenho a sua promessa de que vai rezar, no ano 2001, a missa no Brasil". Ele não pode no ano que vem porque é o ano do jubileu em Roma. Ele disse: "Eu vou. E quem viver verá". Lembrou de muitos bispos do Brasil, cidades do Brasil, com muita precisão. E falando em português o tempo todo. Realmente foi uma conversa agradável com o papa. Conversei com ele sobre Cuba, porque da última vez que ele tinha estado comigo ele tinha falado sobre Cuba; e eu tinha estado lá na reunião com Fidel Castro, o rei da Espanha, o primeiro-ministro de Portugal e vários presidentes latino-americanos; relatei a ele a minha conversa com o cardeal Ortega, lá em Cuba, que foi uma conversa que eu gostei muito. O cardeal Ortega é um homem que conhece Cuba, é um homem moderado, não está querendo resolver as questões no grito. Pelo contrário. Mas é firme nas posições dele. Conversei com o papa sobre isso também. Enfim, conversamos sobre vários assuntos de natureza social. Expliquei a ele as dificuldades que nós temos, a questão do desemprego - e eu mesmo levantei a questão -, o que nós estamos tentando fazer para melhorar a educação do povo brasileiro; as dificuldades que temos; as crises financeiras. Foi uma conversa - se fosse possível dizer isso, carinhosamente - de pessoas que se estimam.

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