O polo moveleiro de Arapongas é um dos principais exemplos desse movimento de fomento à industrialização
O polo moveleiro de Arapongas é um dos principais exemplos desse movimento de fomento à industrialização | Foto: Sérgio Ranalli

“Não sobrou um único pé de café”. Essa foi a manchete da Folha de Londrina no dia seguinte à geada que atingiu o Paraná em julho de 1975. Apelidado de “Geada Negra”, o evento climático teve um impacto devastador e transformador na economia paranaense, considerado por muitos um divisor de águas na história do estado.

O Paraná, até então, era o maior produtor de café do Brasil. De acordo com Emerson Esteves, economista e conselheiro do Corecon/PR (Conselho Regional de Economia do Paraná), a geada foi tão intensa que dizimou quase todas as plantações de café no Paraná. A temperatura chegou a -9°C no campo.

A estimativa é de que mais de 300 mil hectares de café foram erradicados em decorrência desse evento climático. Em 1975, o Paraná colheu mais de 10 milhões de sacas de café, respondendo por cerca de 48% da produção nacional. No ano seguinte, a participação paranaense caiu para 0,1%.

As consequências desse evento climático ocorrido no Paraná também impactaram na dinâmica entre o campo e a cidade. De acordo com Esteves, após julho de 1975, o estado enfrentou um êxodo rural massivo decorrente da perda das lavouras.

A estimativa é de que mais de 2,6 milhões de pessoas deixaram o campo em busca de oportunidades em outros estados ou até mesmo migrando para as periferias das cidades paranaenses.

A catástrofe forçou a diversificação da agricultura paranaense, em que terras antes dedicadas ao café foram substituídas por outras culturas, como a soja e o trigo. Essa mudança, de acordo com o economista, consolidou o Paraná como protagonista na produção desses grãos, utilizando tecnologias e técnicas agrícolas mais eficientes, como a mecanização e defensivos agrícolas.

Apesar dos diversos impactos negativos causados pela geada de 1975, Emerson Esteves afirma que, após o evento, o Paraná buscou uma industrialização mais acelerada, com o objetivo de reduzir a dependência do setor primário.

Diversos complexos industriais de grande porte começaram a operar ou foram implantados no estado após 1975, como o do vestuário em Cianorte. “A população precisou buscar novas fontes de renda e foi nesse cenário que muitas pessoas começaram a abrir pequenas fábricas de roupas em suas próprias garagens e quintais”, conta.

A primeira confecção foi inaugurada em 1978 e, ao longo da década de 1980, essas pequenas empresas foram crescendo e transformando a mão de obra que antes trabalhava nas lavouras em operários da indústria.

A industrialização do polo moveleiro começou a se estruturar de forma mais significativa a partir da década de 1960, mas com um grande impulso entre os anos 70 e 80
A industrialização do polo moveleiro começou a se estruturar de forma mais significativa a partir da década de 1960, mas com um grande impulso entre os anos 70 e 80 | Foto: Sérgio Ranalli

O polo moveleiro de Arapongas é um dos principais exemplos desse movimento de fomento à industrialização, já que começou a se estruturar de forma mais significativa a partir da década de 1960, mas com um grande impulso entre os anos 70 e 80.

Esteves explica que a economia de Arapongas era fortemente baseada na cultura do café, no entanto, com a crise do café e a busca por diversificação econômica, o município começou a incentivar a instalação de indústrias.

Em 1966, por exemplo, uma lei municipal (nº 654) já fomentava a implantação de novas indústrias e a ampliação das existentes, através da doação de terrenos e isenção de impostos.

No mesmo ano, o prefeito da época, José Colombino Grassano, em seu segundo mandato, instalou o Parque Industrial Moveleiro de Arapongas, o primeiro em todo o Paraná, às margens da BR-369.

Imagem ilustrativa da imagem A industrialização paranaense no pós-geada
| Foto: Sérgio Ranalli

Nas palavras do prefeito, é possível sentir na pele o medo pela chegada do inverno, como destacado no livro Plantando Chaminés, que traz um histórico sobre o Parque Moveleiro de Arapongas: “de maio a setembro e às vezes até outubro, a região ficava na expectativa da geada, que ocorrendo, atingia a nossa maior fonte de riqueza”.

Grassano também deixa claro em sua fala a pujança do momento: “daí para frente o processo de industrialização se tornou irreversível , surpreendendo o Paraná e sendo notícia no Brasil”.

O economista explica que a presença de serrarias e a disponibilidade de matéria-prima na região, aliadas à mão de obra abundante e à necessidade de novas fontes de renda, criaram um ambiente propício para o crescimento da indústria moveleira.

Embora seja vista como um evento trágico para a cafeicultura, na visão de Esteves, a geada também agiu como um catalisador para a reestruturação econômica de Arapongas. “Ela ‘forçou’ a região a buscar novas alternativas e o polo moveleiro emergiu como a principal força econômica”, afirma.

“Um divisor de águas na região”. É assim que José Lopes Aquino, presidente do Sima (Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas), começa a contar sobre o evento climático que reconfigurou a economia de todo o Paraná.
“Um divisor de águas na região”. É assim que José Lopes Aquino, presidente do Sima (Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas), começa a contar sobre o evento climático que reconfigurou a economia de todo o Paraná. | Foto: Sérgio Ranalli

“Um divisor de águas na região”. É assim que José Lopes Aquino, presidente do Sima (Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas), começa a contar sobre o evento climático que reconfigurou a economia de todo o Paraná. Além do ‘ouro verde’, ele afirma que era possível contar nos dedos o número de indústrias que existiam em Arapongas.

“Sempre tinha alguma geada, mas nada como a que aconteceu em 1975”, afirma, dizendo que a grande maioria dos produtores da época foi forçado a erradicar os pés de café, que já tinham sido consumidos de dentro para fora pelo frio: “a economia foi totalmente alterada pela geada”.

Após o evento, dois segmentos deram início ao movimento de migração para o setor moveleiro: a de artefatos de cimento e a de colchões, que passaram a enxergar a movelaria como uma indústria. “Quem fazia colchão, por exemplo, passou a fazer o estofado”, descreve o movimento de transição.

Para o presidente do sindicato, dois aspectos ajudaram a sedimentar o setor moveleiro em Arapongas: o primeiro, segundo ele, era relacionado à localidade, já que os empresários já eram de Arapongas. O segundo foi o fomento do poder público através dos investimentos em infraestrutura para que a industrialização pudesse crescer e gerar frutos.

Hoje, o setor moveleiro representa 64% do PIB (Produto Interno Bruto) de Arapongas. O município abriga 370 indústrias moveleiras, de pequeno, médio e grande porte, que impulsionam a economia local, faturando mais de R$ 5 bilhões por mês, e gerando quase 12 mil empregos diretos. No corredor entre Londrina e Arapongas, são mais de mil indústrias de móveis.

“Somos um polo que atua no mercado nacional todo e um polo exportador”, afirma, citando que 10% dos móveis produzidos em todo o Brasil são fabricados em Arapongas. Em relação às exportações de móveis, o polo é responsável por uma fatia de 12%.

Referência, Arapongas é reconhecida como a Capital Moveleira Nacional por lei federal (Lei 14.728/2023, publicada em 2023), consolidando a importância do setor para a economia da cidade e do país.

Isso vem através de tecnologia, segundo ele, que aumenta a produtividade e permite que a cidade alimente o mercado interno e de mais 60 países. Desde 2004 a cidade é sede do Cetmam (Centro Nacional de Tecnologia da Madeira e do Mobiliário).

TERRENO FÉRTIL

Vice-presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Paraná), Irineu Munhoz considera a geada de 1975 como um “momento de ruptura na economia do Paraná”. “Com a destruição dos cafezais, que até então sustentavam grande parte da atividade econômica do estado, tornou-se urgente a busca por novos caminhos”, complementa.

E foi nesse cenário, considerado desafiador, que o empresário afirma que a indústria paranaense encontrou um terreno fértil para crescer, se diversificar e se consolidar como um dos pilares do desenvolvimento de todo o estado.

Munhoz, que também é presidente da Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), destaca que a disponibilidade de matéria-prima, aliada ao espírito empreendedor e a força de trabalho vinda do campo, permitiu que o setor moveleiro se estruturasse de maneira sólida em Arapongas.

“O que começou como uma alternativa emergencial rapidamente evoluiu para um polo industrial estratégico, que hoje é referência nacional e internacional na produção de móveis”, afirma.

De acordo com os dados mais recentes do Ministério do Trabalho e Emprego, relativos ao ano de 2023, a indústria paranaense emprega mais de 750 mil pessoas. Além disso, o setor é responsável por 20,6% do PIB do Paraná, o que representa, em valores, quase R$ 111 bilhões.

Cinquenta anos depois, ele garante que o Paraná segue colhendo os frutos dessa que foi uma virada histórica. Em 1974, um ano antes da geada, existiam 4.999 estabelecimentos industriais no estado; em 1976, o número saltou para 6.379, de acordo com dados do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social). Hoje, são mais de 19 mil.

“Esse momento foi decisivo para a indústria do Paraná como um todo. A adversidade se transformou em oportunidade. A capacidade de adaptação, a inovação e o trabalho coletivo moldaram não apenas a indústria moveleira, mas fortaleceram a base industrial paranaense em diversas frentes”, afirma Irineu Munhoz.

BONÉS

O polo de confecção de bonés em Apucarana também começou a se desenvolver em meados da década de 1970
O polo de confecção de bonés em Apucarana também começou a se desenvolver em meados da década de 1970 | Foto: Divulgação

O polo de confecção de bonés em Apucarana também começou a se desenvolver em meados da década de 1970. Desde 2010, a cidade é reconhecida como a "Capital Nacional do Boné" (Lei Federal nº 2.793/08), sendo responsável por mais de 60% da produção de bonés no Brasil. Por mês, são fabricados mais de quatro milhões de bonés.

O economista Emerson Esteves explica que o pioneirismo na produção de bonés veio através do espírito empreendedor de alguns moradores que, na época, já tinham alguma experiência com a costura pelo fato de muitos serem sapateiros.

A princípio, a confecção na região com foco nas tiaras e nos gorros, sendo que os bonés surgiram como uma evolução do acessório. Presidente do APL (Arranjo Produtivo Local) de Bonés e diretor do Sivale (Sindicato das Indústrias do Vestuário de Apucarana e do Vale do Ivaí), Jayme Leonel explica que os primeiros bonés eram do tipo ‘sorveteiro’, em que existia uma amarração na parte de trás da cabeça.

A partir daí, com o processo de industrialização, o acessório passou a ser mais trabalhado, com a presença das abas, por exemplo, se transformando em um meio de sobrevivência de muitas famílias da cidade. O custo para produzir o boné era relativamente baixo se comparado a outros segmentos, o que ajudou a atrair cada vez mais interessados em investir no negócio, facilitando a reprodução da atividade.

Na época da geada de 1975, Apucarana sediava diversas beneficiadoras de café, o que de maneira indireta foram afetadas por conta do evento climático, já que concentrava grande parte dos grãos produzidos em toda a região em três armazéns do IBC (Instituto Brasileiro do Café).

Hoje, são cerca de 600 empresas voltadas para todas as etapas da produção dos bonés e que geram mais de 20 mil postos de trabalho direta e indiretamente. Segundo Leonel, uma das grandes vantagens do setor é a necessidade de muita mão de obra, com empresas atingindo mais de 400 funcionários, além do poder de absorver jovens em busca do primeiro emprego.

mockup