A industrialização paranaense no pós-geada
O evento climático de 1975 catapultou a formação de polos industriais no Paraná, como o moveleiro em Arapongas e o do boné em Apucarana
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segunda-feira, 21 de julho de 2025
O evento climático de 1975 catapultou a formação de polos industriais no Paraná, como o moveleiro em Arapongas e o do boné em Apucarana

“Não sobrou um único pé de café”. Essa foi a manchete da Folha de Londrina no dia seguinte à geada que atingiu o Paraná em julho de 1975. Apelidado de “Geada Negra”, o evento climático teve um impacto devastador e transformador na economia paranaense, considerado por muitos um divisor de águas na história do estado.
O Paraná, até então, era o maior produtor de café do Brasil. De acordo com Emerson Esteves, economista e conselheiro do Corecon/PR (Conselho Regional de Economia do Paraná), a geada foi tão intensa que dizimou quase todas as plantações de café no Paraná. A temperatura chegou a -9°C no campo.
A estimativa é de que mais de 300 mil hectares de café foram erradicados em decorrência desse evento climático. Em 1975, o Paraná colheu mais de 10 milhões de sacas de café, respondendo por cerca de 48% da produção nacional. No ano seguinte, a participação paranaense caiu para 0,1%.
As consequências desse evento climático ocorrido no Paraná também impactaram na dinâmica entre o campo e a cidade. De acordo com Esteves, após julho de 1975, o estado enfrentou um êxodo rural massivo decorrente da perda das lavouras.
A estimativa é de que mais de 2,6 milhões de pessoas deixaram o campo em busca de oportunidades em outros estados ou até mesmo migrando para as periferias das cidades paranaenses.
A catástrofe forçou a diversificação da agricultura paranaense, em que terras antes dedicadas ao café foram substituídas por outras culturas, como a soja e o trigo. Essa mudança, de acordo com o economista, consolidou o Paraná como protagonista na produção desses grãos, utilizando tecnologias e técnicas agrícolas mais eficientes, como a mecanização e defensivos agrícolas.
Apesar dos diversos impactos negativos causados pela geada de 1975, Emerson Esteves afirma que, após o evento, o Paraná buscou uma industrialização mais acelerada, com o objetivo de reduzir a dependência do setor primário.
Diversos complexos industriais de grande porte começaram a operar ou foram implantados no estado após 1975, como o do vestuário em Cianorte. “A população precisou buscar novas fontes de renda e foi nesse cenário que muitas pessoas começaram a abrir pequenas fábricas de roupas em suas próprias garagens e quintais”, conta.
A primeira confecção foi inaugurada em 1978 e, ao longo da década de 1980, essas pequenas empresas foram crescendo e transformando a mão de obra que antes trabalhava nas lavouras em operários da indústria.

O polo moveleiro de Arapongas é um dos principais exemplos desse movimento de fomento à industrialização, já que começou a se estruturar de forma mais significativa a partir da década de 1960, mas com um grande impulso entre os anos 70 e 80.
Esteves explica que a economia de Arapongas era fortemente baseada na cultura do café, no entanto, com a crise do café e a busca por diversificação econômica, o município começou a incentivar a instalação de indústrias.
Em 1966, por exemplo, uma lei municipal (nº 654) já fomentava a implantação de novas indústrias e a ampliação das existentes, através da doação de terrenos e isenção de impostos.
No mesmo ano, o prefeito da época, José Colombino Grassano, em seu segundo mandato, instalou o Parque Industrial Moveleiro de Arapongas, o primeiro em todo o Paraná, às margens da BR-369.

Nas palavras do prefeito, é possível sentir na pele o medo pela chegada do inverno, como destacado no livro Plantando Chaminés, que traz um histórico sobre o Parque Moveleiro de Arapongas: “de maio a setembro e às vezes até outubro, a região ficava na expectativa da geada, que ocorrendo, atingia a nossa maior fonte de riqueza”.
Grassano também deixa claro em sua fala a pujança do momento: “daí para frente o processo de industrialização se tornou irreversível , surpreendendo o Paraná e sendo notícia no Brasil”.
O economista explica que a presença de serrarias e a disponibilidade de matéria-prima na região, aliadas à mão de obra abundante e à necessidade de novas fontes de renda, criaram um ambiente propício para o crescimento da indústria moveleira.
Embora seja vista como um evento trágico para a cafeicultura, na visão de Esteves, a geada também agiu como um catalisador para a reestruturação econômica de Arapongas. “Ela ‘forçou’ a região a buscar novas alternativas e o polo moveleiro emergiu como a principal força econômica”, afirma.

“Um divisor de águas na região”. É assim que José Lopes Aquino, presidente do Sima (Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas), começa a contar sobre o evento climático que reconfigurou a economia de todo o Paraná. Além do ‘ouro verde’, ele afirma que era possível contar nos dedos o número de indústrias que existiam em Arapongas.
“Sempre tinha alguma geada, mas nada como a que aconteceu em 1975”, afirma, dizendo que a grande maioria dos produtores da época foi forçado a erradicar os pés de café, que já tinham sido consumidos de dentro para fora pelo frio: “a economia foi totalmente alterada pela geada”.
Após o evento, dois segmentos deram início ao movimento de migração para o setor moveleiro: a de artefatos de cimento e a de colchões, que passaram a enxergar a movelaria como uma indústria. “Quem fazia colchão, por exemplo, passou a fazer o estofado”, descreve o movimento de transição.
Para o presidente do sindicato, dois aspectos ajudaram a sedimentar o setor moveleiro em Arapongas: o primeiro, segundo ele, era relacionado à localidade, já que os empresários já eram de Arapongas. O segundo foi o fomento do poder público através dos investimentos em infraestrutura para que a industrialização pudesse crescer e gerar frutos.
Hoje, o setor moveleiro representa 64% do PIB (Produto Interno Bruto) de Arapongas. O município abriga 370 indústrias moveleiras, de pequeno, médio e grande porte, que impulsionam a economia local, faturando mais de R$ 5 bilhões por mês, e gerando quase 12 mil empregos diretos. No corredor entre Londrina e Arapongas, são mais de mil indústrias de móveis.
“Somos um polo que atua no mercado nacional todo e um polo exportador”, afirma, citando que 10% dos móveis produzidos em todo o Brasil são fabricados em Arapongas. Em relação às exportações de móveis, o polo é responsável por uma fatia de 12%.
Referência, Arapongas é reconhecida como a Capital Moveleira Nacional por lei federal (Lei 14.728/2023, publicada em 2023), consolidando a importância do setor para a economia da cidade e do país.
Isso vem através de tecnologia, segundo ele, que aumenta a produtividade e permite que a cidade alimente o mercado interno e de mais 60 países. Desde 2004 a cidade é sede do Cetmam (Centro Nacional de Tecnologia da Madeira e do Mobiliário).
TERRENO FÉRTIL
Vice-presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Paraná), Irineu Munhoz considera a geada de 1975 como um “momento de ruptura na economia do Paraná”. “Com a destruição dos cafezais, que até então sustentavam grande parte da atividade econômica do estado, tornou-se urgente a busca por novos caminhos”, complementa.
E foi nesse cenário, considerado desafiador, que o empresário afirma que a indústria paranaense encontrou um terreno fértil para crescer, se diversificar e se consolidar como um dos pilares do desenvolvimento de todo o estado.
Munhoz, que também é presidente da Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), destaca que a disponibilidade de matéria-prima, aliada ao espírito empreendedor e a força de trabalho vinda do campo, permitiu que o setor moveleiro se estruturasse de maneira sólida em Arapongas.
“O que começou como uma alternativa emergencial rapidamente evoluiu para um polo industrial estratégico, que hoje é referência nacional e internacional na produção de móveis”, afirma.
De acordo com os dados mais recentes do Ministério do Trabalho e Emprego, relativos ao ano de 2023, a indústria paranaense emprega mais de 750 mil pessoas. Além disso, o setor é responsável por 20,6% do PIB do Paraná, o que representa, em valores, quase R$ 111 bilhões.
Cinquenta anos depois, ele garante que o Paraná segue colhendo os frutos dessa que foi uma virada histórica. Em 1974, um ano antes da geada, existiam 4.999 estabelecimentos industriais no estado; em 1976, o número saltou para 6.379, de acordo com dados do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social). Hoje, são mais de 19 mil.
“Esse momento foi decisivo para a indústria do Paraná como um todo. A adversidade se transformou em oportunidade. A capacidade de adaptação, a inovação e o trabalho coletivo moldaram não apenas a indústria moveleira, mas fortaleceram a base industrial paranaense em diversas frentes”, afirma Irineu Munhoz.
BONÉS

O polo de confecção de bonés em Apucarana também começou a se desenvolver em meados da década de 1970. Desde 2010, a cidade é reconhecida como a "Capital Nacional do Boné" (Lei Federal nº 2.793/08), sendo responsável por mais de 60% da produção de bonés no Brasil. Por mês, são fabricados mais de quatro milhões de bonés.
O economista Emerson Esteves explica que o pioneirismo na produção de bonés veio através do espírito empreendedor de alguns moradores que, na época, já tinham alguma experiência com a costura pelo fato de muitos serem sapateiros.
A princípio, a confecção na região com foco nas tiaras e nos gorros, sendo que os bonés surgiram como uma evolução do acessório. Presidente do APL (Arranjo Produtivo Local) de Bonés e diretor do Sivale (Sindicato das Indústrias do Vestuário de Apucarana e do Vale do Ivaí), Jayme Leonel explica que os primeiros bonés eram do tipo ‘sorveteiro’, em que existia uma amarração na parte de trás da cabeça.
A partir daí, com o processo de industrialização, o acessório passou a ser mais trabalhado, com a presença das abas, por exemplo, se transformando em um meio de sobrevivência de muitas famílias da cidade. O custo para produzir o boné era relativamente baixo se comparado a outros segmentos, o que ajudou a atrair cada vez mais interessados em investir no negócio, facilitando a reprodução da atividade.
Na época da geada de 1975, Apucarana sediava diversas beneficiadoras de café, o que de maneira indireta foram afetadas por conta do evento climático, já que concentrava grande parte dos grãos produzidos em toda a região em três armazéns do IBC (Instituto Brasileiro do Café).
Hoje, são cerca de 600 empresas voltadas para todas as etapas da produção dos bonés e que geram mais de 20 mil postos de trabalho direta e indiretamente. Segundo Leonel, uma das grandes vantagens do setor é a necessidade de muita mão de obra, com empresas atingindo mais de 400 funcionários, além do poder de absorver jovens em busca do primeiro emprego.


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.


