Poucos pensam no assunto, mas pode acontecer: um dia, a relação de dependência com os pais sofre uma inversão de papéis. Com o aumento da expectativa de vida, aumenta também a preocupação em como cuidar de idosos com dependência. Além do impacto que a responsabilidade gera na família, cuidar desse idoso já é apontado como um desafio para a saúde pública.
A enfermeira e professora da Universidade Norte do Paraná (Unopar) Edlivia Dias de Mattos, lembra que hoje são 14 milhões de brasileiros com idade acima de 60 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E a projeção é que o Brasil seja, até o ano de 2025, o sexto país do mundo com maior contingente de idosos.
Mas, como essas pessoas, que poderão ter limitações funcionais e diferentes graus de dependência, serão cuidadas? ''Nos países desenvolvidos, em que houve envelhecimento populacional, foram resolvidas mazelas anteriores, como desnutrição e acesso à saúde pública. Mas, nós, não. Será que a saúde vai estar organizada do ponto de vista qualitativo e quantitativo para atender essa demanda?'', questiona.
A enfermeira explica que, hoje, a grande ''porta de entrada'' do idoso no Sistema Único de Saúde (SUS) é a terciária, através dos hospitais, para os quais os idosos já vão doentes. ''É preciso reverter isso'', alerta, lembrando que a política nacional de saúde do idoso propõe que a ''porta de entrada'' seja o Programa Saúde da Família (PSF). O ideal, segundo ela, é que a promoção à saúde seja pensada de maneira que, ao envelhecer, o indivíduo tenha mantida sua capacidade funcional - a capacidade de se manter física e cognitivamente bem para fazer suas atividades diárias.
Mesmo assim, sempre haverá uma parcela de idosos que terá dependência e precisará ser cuidados. ''Aí vamos precisar capacitar cuidadores e capacitar profissionais de saúde'', avalia a enfermeira. As famílias também terão que se organizar para isso, já que o ''ideal é que o idoso seja cuidado em casa, junto com as pessoas que gosta''. A institucionalização deve ser pensada como última alternativa, mas pode ser necessária nos casos de maus tratos.
Alguns filhos assumem o papel de cuidadores de idosos, função que também pode ser exercida por gente de fora da família, e para a qual há treinamento. Segundo estimativas, o Brasil tem cerca de 1 milhão de cuidadores.
No estudo ''Idosos no Brasil - Vivências, Desafios e Expectativas na 3 Idade'', do Sesc em parceria com a Fundação Perseu Abramo, constatou-se que, entre os homens acima dos 70 anos de idade, são as esposas as principais cuidadoras - 59% dos entrevistados disseram contar com a ajuda das mulheres. Já elas recebem mais auxílio dos filhos (30%) e, em segundo lugar (20%), de cuidadores que não moram na casa.
Mas, para cuidar de idosos não bastam habilidades com transporte e alimentação. De um dia para outro, essas pessoas têm de aprender a lidar com emoções díspares como amor e ódio, paciência e desequilíbrio. ''A pessoa que toma conta do idoso deve aceitar que pode ter sentimentos ruins, como raiva e impaciência'', diz a jornalista Marleth Silva, autora do livro ''Quem Vai Cuidar dos Nossos Pais'' (Ed. Record). E lembra: ''Cuidadores também precisam se cuidar, manter uma vida ativa''.

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