A ExpoLondrina está completando 50 anos, mas a história é bem mais antiga. Na linha do tempo que costura a odisseia humana e dá cara e corpo e vida à humanidade, a exposição agropecuária de Londrina pode ser situada num tempo velhíssimo que se repete transformado em outros tempos: o do passado, o do presente e do futuro, como versa o slogan deste ano da feira.
A musculatura humana começou a ser forjada há pelo menos 70 mil anos mas só a dez milênios atrás que começamos, de fato, a domar a natureza e animais como os bovinos, hoje estrelas principais na feira londrinense que celebra, por que não, a genialidade do homem. Foi preciso coragem, muita coragem. Deixamos de temer os bichos quando aprendemos que, se fossem domesticados, poderiam servir tanto como fonte de alimento como para garantir proteção contra outras feras.
E chegamos muito longe. O adestrador Sebastião Ribeiro, 55 anos, ou simplesmente ''Tião'', é prova inconteste de que aprendemos muito, mas ainda da mesmo forma que os nossos iguais que eternizaram figuras de animais nas paredes das cavernas. Tetracampeão de provas de adestramento com cavalos, Tião já treinou mais de seis mil animais. Desde o último dezembro, porém, o centro de suas atenções no Haras Dijannani, em Cambé (Norte), é potrinha da raça árabe. Fofinha foi rejeitada pela mãe logo que nasceu. A simbiose entre um e outro confirma que o homem de hoje é outro e o mesmo do passado: se ele sabe domar também não perdeu o encantamento. Olho no olho, trocam confidências como dois amigos. E ela brinca, corre, pula. E ele brilha, se diverte, sonha. ''Quando estou com os cavalos, estou em paz'', confidencia.
A árdua tarefa de lavar, preparar e exibir os animais nas pistas, o peão moderno também ensina e aprende. ''É preciso deixa o pelo bonito, limpo'', revela o cuidador Renato Nascimento, que já correu o Brasil como assessor particular de alguns dos melhores exemplares de nelores do país. Da convivência com bichos que superam fácil os 700 quilos ele brinca que conseguiu algumas lições para a própria vida. Exemplo? ''O animal dá mais trabalho que a namorada, mas é mais fácil porque não reclama de nada.''
Mas o tempo do ''agora'' traz preocupações bem maiores. O presente impõe questionamentos tanto para quem se dedica a criar animais como àqueles que produzem alimentos, avisa o criador e ex-presidente da Sociedade Rural de Londrina, Alexandre Lopes Kireff. Ele lembra que na fundação da Associação Rural de Londrina, em 1946, ou mesmo quando a feira se tornou um evento anual - há exato meio século -, a vida ainda era pautada pelo relógio da roça para a maior parte dos brasileiros. Agora não mais. Os ponteiros que datam a história aceleraram as conquistas. O pecuarista exemplifica que a ExpoLondrina apresenta todos os anos o que existe de melhor em genética animal. Mas se a ciência avança também propõe novas demandas, como a preocupação ambiental que se faz urgente nestes novos tempos: ''Atualmente temos o desafio gigantesco de produzir alimentos com muito menos impacto do que antes.''
Desafio que a família de Sebastião Ribeiro, de Conselheiro Mairinck (Norte Pioneiro), lapida há pelo menos três gerações. Os Ribeiro produzem cachaça artesanal e derivados de cana - como o exclusivo caldo de cana em pó - agredindo o menos possível a natureza. Os produtos estão em exposição no pavilhão da Feira de Sabores. A matéria-prima é produzida de forma orgânica. ''Conseguimos conservar a tradição, ter a melhor qualidade e obter melhores preços'', comenta.
De Morretes (Litoral), a microempresária Emille Bueno aproveita a fartura de banana e aipim para produzir salgadinhos fritos. Além de gostosos, são um sucesso. ''Procurei sempre trabalhar com produtos da minha região e estas feiras são importantes como forma de divulgação'', fala. Repete assim também uma ação nascida na Idade Média, quando as cidades eram poucas e longínquas e as feiras eram os únicos espaços possíveis para trocar produtos.
E não se pode falar em respeito à natureza sem citar as populações indígenas. E elas também estão representadas na exposição com o espaço do artesanato caingangue da Feira de Sabores. ''Essa participação é importante para a valorização na nossa cultura'', ensina a índia Albertina Gavog Pereira, que aprendeu a tingir tiras de taquara e trançá-las em cestos com seus antepassados.
Mas nem só de passado vive a ExpoLondrina. No lado oposto do passado, o futuro desponta em grandes máquinas, em sementes que enganam o tempo natural frutificando mais rápido e com mais força. Ele também se faz ver em grandes máquinas que avançam sobre nosssos campos de trigo, milho e principalmente soja, nosso principal produto de exportação presente nas mesas de todo o planeta.

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