Foram anos vestindo recém-nascidos de mulheres sem dinheiro e sem esperança. A fé e o amor de Maria da Glória de Castro Costa, 89 anos, a dona Glorinha (como gosta de ser chamada), fez com que ela presidisse por três décadas o Roupeiro Santa Rita de Cássia, em Londrina. Hoje, por conta do cansaço físico, passou a diretoria para uma outra pessoa, mas faz questão de lembrar histórias da época do voluntariado.
As atividades começaram num momento difícil de sua vida. Em 1974, Glorinha perdeu um dos filhos e o marido em menos de um mês. Católica e devota de Santa Rita de Cássia, a dona-de-casa que hoje mora no Jardim Shangri-Lá (Zona Oeste), aceitou o convite da administração da Paróquia Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, para assumir a presidência do Roupeiro, que na época só existia na Catedral de Londrina.
''No começo a gente se reunia aqui em casa. Cheguei a promover bingos e sorteios para conseguir arrecadar dinheiro. Com o tempo fomos conseguindo apoio de muitas pessoas e associações da cidade, daí a costura passou a ser feita na paróquia. Hoje existem dez máquinas e cerca de 20 senhoras trabalhando'', explicou.
Glorinha lembra que foram 30 anos ''maravilhosos'' e construídos com muito amor. Entre uma costura e outra, um café era servido. ''Elas sempre pediam para que eu contasse alguma história. Tínhamos o hábito também de ler o Evangelho em quase todas as reuniões, que aconteciam nas tardes de segunda-feira, e assim funciona até hoje'', disse.
A fé na santa das causas impossíveis foi também um grande motivador para a mulher que exibe um sorriso alegre enquanto lembra do trabalho voluntário realizado com muita dedicação. Ao longo dos anos de atividades, cerca de 6 mil famílias foram beneficiadas com os enxovais, que contam com um cobertor, três cueiros, seis fraldas, três casacos, seis conjuntos com blusa e calça e um sapatinho.
A ex-presidente do roupeiro salientou que todo o material para a produção do enxoval era escolhido e confeccionado com muito carinho. ''Escolhemos o rosa para as meninas e o azul para os meninos. Já entregamos enxoval para muitas mães de gêmeos também. A maioria das mulheres é pobre e não tem condições de comprar as roupas, a gente ajudava e eu ficava muito feliz com isso'', comentou.
Depois de tanto tempo de trabalho voluntário, a família poderá desfrutar de sua companhia, pois até então a dedicação de Glorinha não permitia os passeios. ''Agora quero ocupar meu tempo com a família. Eles sempre me convidavam para viajar e eu nunca ia porque tinha muita responsabilidade com o Roupeiro. Não podia abandonar as senhoras que estavam sempre contando comigo'', comentou Glorinha, que se orgulha em dizer que é descendente do poeta romântico Castro Alves.
''Hoje fico tranquila porque sei que deixo uma herança bonita para minha família, que é o amor a Deus. Quero que eles olhem para tudo isso e saibam que o mais importante na vida é amar Deus, o próximo e fazer tudo com dignidade''.

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