Paris (AE-AP) - Enquanto o gigante relógio da Torre Eiffel registra os últimos dias do século 20, alguns lobistas franceses estão se mexendo para que o ciberespaço não jogue sua língua na lixeira da história.
Por anos, fortes defensores da língua francesa têm lutado para impedir o que eles vêem como uma invasão norte-americana em sua cultura, promulgando com sucesso uma série de leis que limitam a presença de canções e shows americanos na mídia francesa. Agora, eles estão buscando limitar o uso do inglês no que eles encaram como a mais nova ameaça: a Internet.
"A Internet deve ter leis que a governem. Ela não pode ser um mundo selvagem onde todos podem fazer o que querem", diz Marceau Dechamps, um aposentado da indústria de tecnologia que é agora vice-presidente do grupo Defesa da Língua Francesa.
Dechamps, cujo grupo tem processado, com sucesso, companhias pelo uso do inglês em anúncios publicitários na França, acredita que as leis que têm por objetivo preservar a língua francesa deveriam ser também aplicadas aos sites da Internet. Embora o grupo tenha se envolvido em apenas um caso relacionado ao espaço virtual, ele prevê novas ações legais.
O grupo de Dechamps, em cooperação com outras associações de defesa, estimularam o debate quando moveram uma ação contra do campus do Instituto de Tecnologia Georgia em Metz, França, por terem criado um web site em inglês. O grupo de Dechamps argumentou que se o web site foi criado na França, faz anúncios na França, deveria estar sujeito às leis francesas. A corte decidiu em favor do Instituto, mas devido a uma falha nos procedimentos legais da parte dos acusadores, deixou em aberto a questão das obrigações linguísticas na web. Porém, com a possibilidade de sofrer multas de até US$ 4.300 cada vez que o site fosse acessado, a universidade acabou fazendo a tradução do seu conteúdo para o francês e o alemão.
O grupo toca num sentimento comum na França. Em 1995, o presidente Jacques Chirac disse: "Eu não quero ver a cultura européia esterilizada e destruída pela cultura norte-americana".
Mas algumas pessoas acreditam que o grupo está indo longe demais. "A Internet é acessada por pessoas ao redor de todo o mundo. Impor uma língua a ela seria estúpido e ridículo", acredita Herve Ballan, criador de web sites para a Accriens Produções, em Paris.
Muitas pessoas também lembram a necessidade de praticidade, apontando o fato de que o inglês é a língua dominante na Internet e que atitudes como a de Deschamps representam um risco de fechar a França para o mundo. O grupo de Dechamps já conquistou um vitória no campo da legislação de sofware, ganhando um processo no ano passado contra uma loja de computadores que vendia programas gráficos em inglês.
A última década foi preenchida por várias normas com a intenção de proteger a língua francesa e a indústria do entreterimento. Em 1994, um lei foi criada para obrigar a uso do francês em propaganda, rótulos e manuais de instrução de todos os produtos e serviços vendidos no país. Comerciais de rádio e televisão não podem ir ao ar numa língua estrangeira. Mas outras línguas podem ser usadas em outros meios de comunicação, quando a tradução em francês for "legível, audível e inteligível". A lei leva a esforços criativos para lidar com as restrições. Por exemplo, alguns outdoors são escritos em inglês com traduções microscópicas em francês.
Comissões do governo também mantém uma lista, que cresce constantemente e no momento já conta com quase 120 mil palavras inglesas ou derivadas desta língua, que não devem ser usadas em documentos oficiais franceses. No lugar de "fax", por exemplo, a palavras "telecopie" deve ser usada.
Pelo menos 40% da programação mostrada na televisão tem de ser de origem francesa e outros 20% devem vir de outros países europeus. O mínimo de 40% das canções tocadas no rádio devem ser em francês, 20% das quais devem ser de cantores em início de carreira, para ajudar as estrelas francesas do futuro.
Tanto na televisão quanto no rádio, a proporção deve ser mantida no horário nobre, o que significa que os canais de televisão não podem mostrar apenas séries de Hollywood durante o horário de maior audiência e deixar os programas franceses para os horários cujo número de telespectadores é menor. Não há ainda leis sobre os cinemas, pois o número de filmes franceses exibidos na França continua a ser maior do que os norte-americanos. Porém, num país cuja população não atinge 60 milhões, o número de ingressos para o filme "Titanic" superou os 20 milhões no ano passado.
Apenas na província canadense de Quebec, onde se fala predominantemente o francês e possui leis ainda mais rígidas, empenharam-se tanto quanto estes franceses.
Apesar de todas estas medidas, Dechamps diz que a "colonização cultural" norte-americana continua a ameaçar a língua francesa. "O mundo vem sendo invadido sistematicamente por palavras anglo-americanas", afirma. "É um problema de dosagem. Você pode salpicar um prato com condimentos e acrescentar algo ao seu sabor, mas se você jogar um pote de especiarias, a comida torna-se intragável".

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