A guerra e a eleição presidencial nos Estados Unidos Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 12 (AE) - Três semanas atrás, quando os Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) preparavam-se para iniciar o bombardeio da Iugoslávia, o principal assessor de política externa do vice-presidente Albert Gore, Leon Furth, sofreu um ataque do coração e foi para o hospital.
A baixa no "staff" de Gore não poderia ter ocorrido em pior momento - no início de uma crise externa que, segundo um dos biógrafos do vice-presidente, o professor da Universidade de Boston, Robert Zelnick, "traz riscos tão graves para Bill Clinton e Gore como o Vietnã teve para o ex-presidente Lyndon Johnson e seu vice, Hubert Humphrey".
Por causa da guerra do Vietnã, o popular Humphrey perdeu a presidência para o republicano Richard Nixon, em 1968.
Declarações recentes de Gore - que já arrecadou perto de US$ 50 milhões para a campanha e tem apenas um desafiante democrata, o ex-senador Bill Bradley - mostram que ele está atento e preocupado com o paralelo potencial que existe entre a sua situação e a de Humphrey.
No sábado passado, Gore afirmou que o conflito com a Iugoslávia não levará o governo a reinstituir o serviço militar obrigatório como o que existiu durante a guerra do Vietnã. O vice-presidente, que participa com Clinton de todas as reuniões sobre a guerra e é um dos principais membros do conselho de guerra do presidente, tem sido o porta-voz mais veemente da administração quando se tratar de desmentir que haja planos de mobilizar tropas terrestres - um desdobramento que obviamente só prejudicaria sua campanha.
"Gore sabe que um desfecho positivo da guerra não ajudará necessariamente sua campanha, da mesma forma que a vitória na guerra do Golfo não ajudou o presidente George Bush a se reeleger em 1992", disse no domingo o ex-assessor de Clinton, George Stephanapoulos. "Mas ele sabe, também, que a ampliação do conflito e um engajamento prolongado de forças americanas numa guerra contra os sérvios operará contra seus planos, dando munição a seus adversários."
Até agora, Gore foi protegido dos efeitos eleitorais mais negativos da barbeiragem diplomática que levou ao conflito pela completa desunião que a guerra provoca entre os 11 republicanos que concorrem à Casa Branca.
Na realidade, os presidenciáveis da oposição exibem toda a gama de posições sobre a questão do Kosovo. O jornalista Patrick Buchanan, que concorre pela terceira vez como arauto da ex-direita do partido, representa a vertente isolacionista. Ele acha que não há nenhum interesse nacional americano em jogo nos Balcãs e que os EUA não deveriam queimar uma única espoleta contra Milosevic ou a favor do kosovares.
No outro extremo está o senador John McCain, de Arizona. Um dos primeiros políticos a criticar a falta de uma estratégia, de objetivos e de um plano claro na Casa Branca para a ação armada contra a Iugoslávia, McCain tornou-se um defensor de uma escalada dos ataques, sob o argumento de que a derrota da OTAN não é uma alternativa aceitável.
"O preço da derrota é maior do que o preço da vitória", diz ele. Para o senador, a OTAN precisa ir agora até o fim, mesmo que isso signifique a mobilização de tropas terrestres para expulsar os sérvios de Kosovo.
A postura de McCain, um ex-piloto da marinha que passou anos como prisioneiro de guerra no Vietnã, ajudou a projetar seu nome entre os presidenciáveis republicanos. Em contraste, o governador do Texas, George W. Bush, e a ex-ministra do Trabalho e dos Transportes, Elizabeth Dole, os dois republicanos mais bem colocados nas pesquisas de opinião, já começaram a ter suas qualidades de liderança questionadas por alguns analistas por causa das declarações ambivalentes que fizeram até agora sobre o conflito, evitando assumir claramente uma posição. "As divisões entre os republicanos nessa questão estão começando a ficar feias", disse na semana passada John Zobgy, que dirige uma empresa especializada em sondagens de opinião. "Se a operação foi vista como um sucesso, as credenciais de liderança de Gore podem ganhar um impulso".
Diante da catástrofe humanitária que o bombardeio da OTAN ajudou a precipitar em Kosovo, o problema para a administração Clinton e para Gore é imaginar um desfecho que possa ser visto como um sucesso e produzi-lo a tempo, ou seja, antes do início da campanha das eleições primárias, em menos de dez meses.
"Tenho sérias dúvidas sobre a nossa política", disse na semana passada o ex-senador Bill Bradley, o solitário desafiante de Gore entre os democratas. "Estamos escalando nosso compromisso sem estabelecer uma clara estratégia e corremos o risco de ficarmos atolados numa situação cuja saída não podemos prever nem controlar."





