A globalização da catástrofe Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 16 (AE) - O pato com asas cheias de visco de óleo combustível voltou à primeira página dos jornais franceses. É um frequentador constante: ele nos é mostrado, de tempos em tempos, de cinco em cinco anos, talvez, cada vez que um petroleiro encalha ou se parte em dois ao longo do litoral francês da Bretanha. É o que acaba de acontecer mais uma vez: dez mil toneladas de óleo combustível espesso, viscoso, quase sólido (como goma de mascar) escoam ao longo das belas praias atlânticas. E uma catástrofe ecológica a mais, uma!
Os responsáveis? São inúmeros. Os poderes públicos que deixaram a frota francesa se afundar inexoravelmente sem renová-la. E, além disso, são culpados todos os elos da corrente que lançou ao mar essa "lata de lixo flutuante" que era o navio Erika.
Esse Erika foi construído no Japão há vinte e cinco anos, sem o "duplo casco" que os regulamentos exigem atualmente. Seu proprietário é um italiano (Tevere Shipping), sua bandeira é maltesa (Malta, especializada nas complacências, como o Panamá, a Libéria...). Seus marinheiros são indianos (de quem os salários são cinco vezes menores do que o de um marinheiro francês, e privados de qualquer cobertura social). Seu fretador é francês (Totalfina). O navio já teve seis nomes. E antes de ter como armador um italiano, já teve um norueguês e um grego.
Essa lista heteróclita já é um veredito: o Erika e suas 10 mil toneladas de pestilências são os sinais e, ao mesmo tempo, os efeitos da "mundialização". Seu naufrágio leva aos mesmos comentários que são feitos a cada catástrofe: a agroalimentar (a "vaca louca" deve-se a farinhas animais baratas e envenenadas)
a construção (esses imóveis que explodem como castelos de cartas diante da menor inundação, do menor tremor de terra ou até mesmo sem motivo), tudo isso é idêntico ao infortúnio do Erika: são consequências lógicas, inevitáveis, da concorrência desenfreada que o motor da mundialização e do liberalismo absoluto produz: uma compressão dos custos, de maneira que as grandes empresas possam conservar suas enormes margens de lucro.
Essa compressão dos custos realiza-se, inicialmente, por meio da "redução da gordura" dos efetivos (cada megafusão é comemorada na Bolsa e coloca milhares de operários no desemprego). Mas, como a concorrência é cada vez mais cruel, economiza-se também em todos os lugares: para o petróleo, procura-se um velho barco apodrecido, embarca-se nele marinheiros ignorantes e, se possível, bem magros, e um capitão incompetente. Coloca-se tudo isso na água e ganha-se alguns milhões de francos. Se há um desastre, não tem importância! O fretador não teve de pagar os prejuízos.
O surpreendente é que o fretador não é uma sociedade imaginária do Terceiro Mundo, mas um dos florões da economia francesa, Totalfina, que acaba de devorar o outro gigante francês do petróleo, Elf, e que, além disso, acaba de obter duas permissões de pesquisa no Brasil, uma na bacia de Campos, a outra, imensa, na foz do Amazonas (por ironia multinacional, é exatamente hoje que se dá, na França, a obtenção dessas duas permissões). Portanto, é esse grupo notável, eficaz e toda a auréola de sua vitória recente sobre o Elf que por algumas centenas de milhares de francos menos, deu esse "blefe" e traz para o oceano mais uma ferida. Mas não sobrecarreguemos o Totalfina: um grupo petroleiro raramente é um filantropo ou um ecologista. Ele acaba de fazer negócios, é natural. E ele se beneficia da indolência e da inércia dos poderes públicos ou reguladores, tanto internacionais quanto nacionais. Eis o que parecia murmurar, hoje pela manhã, o pato que agonizava nas telas da televisão francesa.
Dirão que o sistema oposto, o estatismo burocrático furioso dos regimes comunistas era pior (Chernobyl, o mar de Altai, a Sibéria oriental...). É claro que era pior. Dez vezes pior! E daí?





