A família que vem de longe
Branca, recém-nascida, sem irmãos.
Esse é o perfil que a maioria dos brasileiros
exige para adotar uma criança. Como
resultado, forma-se uma legião de excluídos:
nela estão menores negros, com idade acima
de 3 anos ou que têm irmãos. A saída para
esse tipo de preconceito às vezes está fora do
País: casais estrangeiros, sem fazer
exigências, adotam crianças brasileiras
através de acordos internacionais
A FAMÍLIA QUEVEM DE LONGE
Célia Baroni
Londrina
AVara da Infância e da Juventude de Londrina está preparando toda a documentação necessária para encaminhar o nome de 20 crianças e adolescentes para adoção internacional. Vivendo atualmente em instituições da Cidade, os menores têm idades que variam entre 8 e 14 anos e o seu perfil não corresponde ao exigido pelos casais brasileiros. Entre os brasileiros, explica a promotora Solange Vicentin, a maioria dos pedidos é por crianças brancas, recém-nascidas ou de, no máximo, um ano de idade.
Crianças que fogem desse padrão têm poucas chances de encontrar uma família brasileira. Após os 3 anos de idade, as perspectivas são praticamente nulas, principalmente se ela não for branca, afirma Solange Vicentin. Nos últimos cinco anos, em Londrina, apenas duas crianças maiores de 3 anos conseguiram ser adotadas por casais brasileiros. No Fórum, estão inscritos 20 casais da Cidade aguardando a chance de fazer adoções. Mas a fila é maior: 200 casais de outras cidades, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, também estão inscritos em Londrina.
Os casais da Cidade têm prioridade sobre os de fora. Mas, mesmo assim, muitas vezes a espera é grande, porque nem sempre as crianças em condições de adoção atendem às exigências estabelecidas na ficha de inscrição. A promotora Solange Vicentin conta a história de uma menina recém-nascida que foi rejeitada por todos os casais inscritos no Fórum. Procuramos nas várias comarcas da região, e não encontramos nenhum interessado.
Na casa-larAs irmãs Daiane e Daniele, abandonadas pela família biológica: quatro anos de espera pela adoção
Descrição da menina: branca, de feições particularmente bonitas, todos os exames neurológicos e de reações físicas normais. Motivo da rejeição: o bebê não tinha os dedos polegares nas mãos - fato que, segundo a promotora, uma cirurgia poderia solucionar. A menina só encontrou uma família porque, por acaso, uma advogada que estava interessada em adotar soube da história e veio até Londrina e fez a inscrição, apresentando situação emocional e financeira compatível para a adoção.
Outro caso de difícil encaminhamento: um menino de 2 anos. Com a documentação em ordem, ele aguarda, em uma instituição da Cidade, a chance de ser adotado. Há vários meses a promotoria vem trabalhando na busca de um casal que queira uma criança com o seu perfil; mas não encontra porque ele é negro. Encontrar um casal disposto a adotar irmãos também é uma tarefa difícil para as assistentes sociais.
Solange Vicentin esclarece que, ao contrário dos brasileiros, a maioria dos casais estrangeiros não costuma apresentar restrições quanto a cor ou idade. E, entre eles, são comuns pedidos de irmãos. Os documentos das crianças que estão em Londrina serão encaminhados à Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), em Curitiba. A Comissão recebe e analisa os pedidos de casais estrangeiros que querem adotar no Paraná, além de centralizar também os pedidos dos casais brasileiros.
Criado em 1989, o Ceja mantém o cadastro de todas as crianças em condições de adoção nas 148 comarcas do Estado. Uma vez aprovada a documentação e comprovada a idoneidade do casal (estrangeiro ou brasileiro) a adoção pode ser realizada em qualquer cidade do Estado. A criança só passa para a lista de adoção internacional quando são descartadas todas as possibilidades dela encontrar uma família aqui, reforça a coordenadora técnico-administrativa da Ceja, Jane Pereira Prestes.
Atualmente, segundo ela, o Ceja tem 200 crianças nessas condições, em todo o Paraná. O perfil delas: idade entre 8 e 15 anos, a maioria de cor parda ou negra, muitos casos de grupos de irmãos. Na lista de inscritos do Ceja, 350 casais com documentação aprovada aguardam que seu pedido seja atendido. Não vai ser difícil colocar as crianças de Londrina, garante a coordenadora.
Depois de receber os documentos das crianças, observa Jane, o processo é ágil. A Comissão levanta os casais com pedidos compatíveis com o perfil das crianças e envia a sua documentação para a comarca de origem do menor. Ao juiz cabe escolher o casal mais adequado. O casal escolhido precisa permanecer, no mínimo, um mês no País com a criança, antes de obter, ou não, a adoção brasileira definitiva.
O acompanhamento do Ceja, no entanto, não cessa com a adoção concluída. O convênio assinado com oito países garante o acompanhamento das crianças, no exterior, durante dois anos. No final desse prazo, o órgão responsável no país onde estão as crianças envia relatório completo sobre estado de saúde e adequação à nova vida. Só então o Ceja arquiva o processo de adoção, dando como finalizado o atendimento da criança.





