Nova York, 14 (AE-NEWSWEEK) - Novas pesquisas sobre como os chimpanzés e crianças surdas se comunicam por gestos podem prover uma resposta a um dos mistérios-chave da evolução humana: quando e como se originou a linguagem?
Um chimpanzé fêmea senta no chão, satisfeita, comendo frutas na sua floresta africana natal. Nisso, um segundo chimpanzé fêmea, mais jovem, se aproxima, não muito perto, e estende a mão em concha. Ela está pedindo ao primeiro chimpanzé para compartilhar a comida. Um outro chimpanzé, desta vez de um do centro de pesquisa nos arredores de Atlanta, focaliza uma banana que está fora do seu alcance, fora da gaiola, a sua esquerda. Quando um cientista se aproxima, o chimpanzé faz um gesto com a mão direita, estendendo-a toda, os olhos indo e voltando do cientista para a banana: se importaria de me passar o comida, grandão?
OK, em se tratando de linguagem, nem apresentar a mão em concha nem estendê-la é exatamente o solilóquio de Hamlet. A natureza primitiva do sistema de comunicação do chimpanzé convenceu muitos cientistas de que nossos parentes mais próximos não conseguem dominar a verdadeira linguagem, com todos os seus meandros gramaticais e sintáticos. Mas mesmo esses críticos admitem que o que o chimpanzé faz, tanto na selva como no laboratório, pode ser classificado ao menos como uma comunicação intencional.
E agora eles estão prestando mais atenção ao veículo dessas mensagens; pois embora os gritos dos chimpanzés indiquem emoções como medo e raiva, são seus gestos que transmitem significado.
Combinado com estudos com crianças surda-mudas que, espontaneamente, criam sua própria e complexa linguagem dos sinais gramaticais e com a descoberta de que as pessoas cegas gesticulam no mesmo ritmo das pessoas que enxergam estão crescendo as provas de que o cérebro humano está equipado para comunicação gesturial. Agora alguns cientistas estão indo ainda mais longe. Um dos enigmas mais profundos da antropologia é quando e como a linguagem, considerada a façanha máxima da evolução humana e também o dom que separa nossa espécie de todas as outras, teve origem. Uma resposta pode estar surgindo: "A linguagem pode ter evoluído não da vocalização de nossos ancestrais mas dos gestos manuais", diz Michael Corballis, um neurocientista cognitivo da Universidade de Auckland na Nova Zelândia que descreve a nova pesquisa na atual edição da revista American Scientist.
A idéia de que a linguagem surgiu dos gestos foi proposta há muito tempo , desde o século 17, e foi reavivada na década de 70. Mas soçobrou por falta de provas. Agora, porém, os cientistas têm 20 anos de descobertas sobre como os chimpanzés são capazes de usar a linguagem dos sinais.
Na vida selvagem, um chimpanzé pigmeu (ou bonobo) usa gestos de mão para indicar à fêmea como ele gostaria que ela se posicionasse para o sexo, explica o pesquisador da linguagem dos chimpanzés William Hopkins do Berry College na Geórgia e do Yerkes Regional Primate Research Center.
Os bonobos também usam sinais de mão para avisar uns aos outros que há um observador humano observando-os furtivamente. E um jovem bonobo foi visto fazendo um gesto convidando seu irmão menor para brincar em vez de mostrar através da representação o que tinha em mente. Pode não ser linguagem, mas é comunicação simbólica.
Os chimpanzés conseguem realmente reforçar sua capacidade verbal quando aprendem a Linguagem Americana dos Sinais (American Sign Language ASL), os símbolos manuais para os surdos. Embora os macacos pareçam não conseguir ir além do domínio da linguagem próprio de uma criança de dois anos, há indícios de que sua facilidade com os gestos "é decorrente de um sistema neurológico atávico de comunicação baseado no gesto"
diz Hopkins. Os chimpanzés aprendem facilmente centenas de sinais da Linguagem Americana dos Sinais e os combinam em sentenças que nunca viram antes, entre elas "me faça cócegas" ou "dê-me uma banana".
Em uma outra descoberta interessante, a chimpanzé Washoe, que aprendeu a ASL, ensinou-a espontaneamente a seu filho adotivo Loulis, que nunca tinha visto sinais humanos, moldando delicadamente a mão dele para fazer cada sinal corretamente. Loulis consegue agora usar cerca de 80 sinais - para objetos como banana e ações como dar e vir. Embora na maioria das atividades os chimpanzés não mostrem preferência pelo uso de uma das mãos, na linguagem parece ser diferente.
Em um estudo conduzido em 1998 com 115 chimpanzés em Yerkes, Hopkins e David Leaves da Universidade da Geórgia descobriram que os chimpanzés tinham mais tendência a usar a mão direita para fazer gestos significativos do tipo por-favor-me-passe-uma-banana, mesmo quando a banana está do lado esquerdo do chimpanzé. "O chimpanzé costuma usar a mão esquerda para alcançar a banana", diz Hopkins. "O fato de estarem usando a mão direita para fazer o gesto indica que esta é uma tentativa de se comunicar, não de alcançar algo."
O lado esquerdo do cérebro envia sinais para o lado direito do corpo e também aloja os centros de linguagem. Portanto, o uso da mão direita para gesticular é mais um reforço à idéia do que os movimentos são linguísticos. "É possível que estas áreas de cérebro para a linguagem (que somente no ano passado foram descobertas nos chimpanzés) estejam associadas à comunicação gestual", diz Hopkins.
A outra grande mudança no estudo dos gestos é que a sinalização é agora reconhecida como uma "linguagem apropriada, gramatical", como diz Mike Corballis. Ela faz distinção entre "Eu mostrei um cachorro para o gato" e "Eu mostrei um gato para o cachorro"; tem tempo de verbo e caso.
Mais ainda, as pessoas surdas em todo o mundo e no decorrer dos séculos têm inventado linguagens dos sinais. Os sistemas são completamente gramaticais também. O surgimento espontâneo, diz Corballis, "confirma que a comunicação gestual é tão natural à condição humana quanto o é a linguagem falada". As crianças surdas até "balbuciam" em sinais, fazendo o mesmo gesto repetidamente exatamente da mesma maneira que seus amiguinhos que escutam fazem o mesmo "ma-ma-ma" repetidamente.
As crianças surdas podem até inventar uma gramática mais sofisticada que a da língua falada. Veja o exemplo dos bebês surdos de pais que ouvem na China e nos Estados Unidos que inventaram linguagens de sinais. As invenções deles têm mais semelhança entre si do que têm com a sinalização simples que viram seus pais fazer, segundo um estudo de 1988 liderado pela psicóloga Susan Goldin-Meadow da Universidade de Chicago. Além disso, a linguagem das crianças mostrou uma gramática mais sofisticada que aparece em inglês ou mandarim: as crianças usaram um sinal ligeiramente diferente para "rato" na sentença "o rato entra no buraco" em relação a "rato" na frase "o rato comeu o queijo". A única diferença entre as sentenças, se você esqueceu a gramática do primeiro grau, é que o primeiro rato é o sujeito de uma sentença com um verbo intransitivo (entrar) enquanto que o segundo rato é o sujeito de uma sentença com um verbo transitivo (comer).
Pode o gesto, então, recorrer às mesmas estruturas cerebrais para gramática do que a fala faz? Estudos de imagens do cérebro indicam que sim. Os agrupamentos dos neurônios chamados áreas de Broca e Wernicke, responsáveis pela produção e compreensão da linguagem, se tornam ativos quando um emissor de sinais surdo observa sentenças na Linguagem Americana dos Sinais, diz Helen Neville da Universidade de Oregon.
A idéia de que o cérebro abriga sistemas antigos para a linguagem gramatical, gestual não foi surpresa para os cientistas que estudam o desenvolvimento da linguagem nas crianças. Os bebês fazem gestos complexos antes de falar e crianças que fazem gestos referenciais mais cedo começam a falar mais cedo, enquanto aqueles que fazem gestos mais tarde, falam mais tarde", explica a psicóloga de desenvolvimento Elizabeth Bates da Universidade da Califórnia, San Diego. "Os gestos e a linguagem compartilham um substrato neural comum. Isto é coerente com a idéia de que a linguagem oral surgiu da linguagem gestual embora também seja consistente com o desenvolvimento paralelo de ambas".
Faz sentido que nossos ancestrais, em um mundo de predadores, tenham evoluído da comunicação silenciosa para a oral. Mas nem todos concordam que a linguagem tenha se originado do gesto. O neuropsicólogo Merlin Donald da Queens University de Ontário argumenta que, se ela tivesse se originado, então uma linguagem gestual totalmente desenvolvida ainda estaria por aí e não está a não ser entre os surdos. Mas uma origem gestual poderia resolver um dos enigmas mais desafiadores da evolução humana. A fala, segundo fósseis do aparelho fonador de ancestrais de seres humanos, só surgia há cerca de 150 mil anos. Dali até a as primeiras civilizações da antiguidade, há mais ou menos 5 mil, argumenta Mike Corballis, "é um espaço de tempo muito curto para o surgimento de coisas complexas como a gramática (que requer mudanças revolucionárias no cérebro) . Mas, se nossos ancestrais já tivessem inventado a gramática e usado-a para linguagem gestual, então a transferência dessa gramática para a fala não teria sido tão mais difícil do que aplicar as lições da gramática espanhola para o português. A troca de meios foi fácil. Como resultado, assim que a laringe surgiu, os seres humanos puderam começar a conversar. E nunca mais pararam.
Ilustrações: 1 "Venha Comer" A criança faz gestos de enfiar os dedos na boca, sinalizando que quer que alguém se junte a ela para comer um lanche.
2 Transferência: Os cientistas acreditam que os seres humanos podem ter desenvolvido a linguagem dos sinais antes da fala.
3 "Você come" Este gesto indica a pessoa específica com a qual a criança deseja compartilhar o lanche. Na realidade, ela está fazendo o gesto de "Coma você" o que se traduz por "Você come" em inglês.
4 "Sim, você! A criança reforça a sua escolha da pessoa escolhida para partilhar o lanche. Embora agora esteja apontando com o dedo indicador e não com a mão toda, a mensagem é a mesma.

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