A estrada que nunca chega
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quinta-feira, 08 de dezembro de 2016
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 

Todo início de manhã, cinco ônibus escolares cortam a vastidão dos 7,3 mil hectares das terras pertencentes ao Assentamento Eli Vive, no Distrito de Lerroville, na zona sul de Londrina. São cerca de 450 alunos que precisam do transporte para frequentar as aulas em três escolas instaladas dentro do assentamento; duas no núcleo Guairacá e uma na Pininga. Os nomes são oriundos das antigas fazendas desapropriadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 2010.
Depois de três anos na dura realidade do acampamento, os lotes foram distribuídos no final de 2013. A empolgação inicial com a delimitação dos terrenos deu lugar a incertezas. Se antes eles moravam agrupados nas sedes, após a regularização das propriedades, passaram a viver isolados em barracos distantes até 15 quilômetros da administração, sem energia elétrica nem estradas. Os acessos existentes foram abertos pelos próprios moradores, de forma improvisada.

Depois de muita espera, a esperança era de que as estradas fossem entregues em 2016. Faltando pouco mais de 20 dias para terminar o ano, o sonho, mais uma vez, será adiado. Enquanto isso, 30 crianças seguem fora da escola por falta de transporte e as famílias acumulam prejuízos por conta das dificuldades de escoar a produção. Milton de Jesus, diretor estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), espera mais agilidade no ano que vem. "Estamos acompanhando o processo de perto para que os prazos sejam cumpridos. A estrada é prioridade para as famílias assentadas", conta.
A assessoria de imprensa do Incra justifica que a situação econômica do País causou atraso no cronograma. Em agosto de 2015, o órgão assinou convênio com a Prefeitura de Londrina para a abertura de 100 quilômetros de estradas dentro do assentamento, no valor de R$ 3,3 milhões. O projeto segue em fase de estudos de engenharia. "A empresa vencedora da licitação tem até meados de janeiro para entregar o projeto com levantamentos topográficos e outras análises do terreno", comentou o engenheiro agrônomo da prefeitura Osvaldo de Souza Campos Junior.

Após o término dos estudos técnicos, o município deverá abrir licitação para o início das obras. O Incra garante que, apesar de não ser asfaltada, a estrada rural será de alta qualidade, com trabalho de cascalhamento e elevação de leito em nível, com padrão para permitir boas condições de tráfego mesmo em épocas de chuvas, facilitando o transporte escolar e da safra de milho e hortaliças, entre outras culturas. O assentado Valdir Rocha não vê a hora de ter melhores condições de escoar a produção de leite. "Hoje está muito difícil. A cada remessa, tenho que pagar R$ 40 de frete só pra 'puxar' o leite até a estrada principal. O lucro já é pouco e assim fica difícil", reclama.
Márcio José Barbosa, pedagogo da Escola Estadual do Campo Maria Aparecida Rosignol Franciosi, conta que, além dos 30 alunos que estão fora da escola, outros 50 são afetados parcialmente e precisam percorrer grandes distâncias a pé para estudar. "As famílias chegaram a recorrer até ao Ministério Público para que as crianças tenham acesso ao direito básico à educação. Estamos esperançosos que no ano que vem este problema seja resolvido", comenta. A reportagem fez contato com a Secretaria Municipal de Educação para saber da situação das crianças que estão impedidas de frequentar a escola, mas ninguém retornou as ligações.
Apesar do problema com as estradas, Barbosa comemora outros avanços. "Aos poucos, a infraestrutura está caminhando. No início do ano que vem, a energia elétrica chega a todas as casas. As escolas apresentam bons resultados e, apesar da distância até Londrina [60 km], muitos professores de lá querem vir dar aula aqui. As vagas estão cada vez mais concorridas", relata.
A área do Assentamento Eli Vive - 73 quilômetros quadrados - é maior que a dos municípios de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, e de Nova Santa Bárbara, no Norte Pioneiro. A população, estimada em cerca de 3 mil pessoas, também é maior que a de 26 municípios paranaenses.


