Carli Filho chega para o julgamento no Tribunal do Júri, em Curitiba
Carli Filho chega para o julgamento no Tribunal do Júri, em Curitiba | Foto: Theo Marques/Framephoto/Estadão Conteúdo



Será conhecido nesta quarta-feira (28) o veredito do caso do ex-deputado Luiz Fernando Ribas Carli Filho, que responde por duas mortes no trânsito ocorridas em maio de 2009, em Curitiba. O julgamento no Tribunal do Júri começou na tarde de terça-feira (27) e foi suspenso logo após o depoimento do réu, pouco depois das 21 horas, e será retomado nesta quarta, às 9 horas. A previsão é que o resultado saia até a noite. Carli Filho era deputado estadual quando se envolveu no acidente que resultou na morte de Gilmar Rafael Yared, 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20, no bairro Mossunguê, em Curitiba.

O julgamento começou às 13 horas, com o sorteio dos jurados. Dos sete escolhidos no primeiro sorteio, entre 25 pré-selecionados, três foram recusados pela defesa de Carli Filho e um pela acusação. Em seguida, o advogado do ex-deputado, Roberto Brzezinski, solicitou que o exame que apontava que Carli Filho estava embriagado fosse excluído do processo, como já havia sido determinado pelo Tribunal de Justiça do Paraná. O juiz Daniel Ribeiro Surdi de Avelar determinou que o laudo fosse excluído.

A primeira testemunha ouvida foi Eduardo Missel Silva, médico e amigo de Carli Filho que jantou com o ex-deputado horas antes do acidente. Silva contou que estava com sua namorada na época jantando em um restaurante perto da Praça Espanha, no bairro Batel, quando avistou o ex-deputado em outra mesa, com o tio e um sobrinho. Ele disse que convidou o ex-deputado para se sentar à sua mesa.

Silva disse que foram pedidas quatro garrafas de vinho na mesa e que, após o jantar, por volta de meia-noite, ofereceu carona a Carli. Segundo o médico, sua namorada dirigiu o carro, pois ele também tinha bebido. "Na saída do restaurante conversamos para ele (Carli Filho) deixar o carro em um estacionamento, Inicialmente ele entrou no carro, mas depois mudou de ideia e pegou o carro dele", afirmou em seu depoimento.

O médico disse que conheceu o ex-deputado em 2008, durante uma consulta. No outro dia, ao saber do acidente pela manhã, ele visitou Carli Filho no Hospital Evangélico, para onde o ex-parlamentar fora levado em estado grave durante a madrugada. Segundo Silva, o estado de Carli era "muito grave. Ele estava entubado, com ventilação mecânica". Ele também conversou com o ex-deputado depois quando ele deixou o hospital Albert Einstein, em São Paulo, para onde foi levado pela família para fazer cirurgias de reconstrução facial. "Ele disse que não lembava do que aconteceu", afirmou.

A segunda testemunha ouvida foi indicada pela defesa, a pedido, por questões de saúde (as testemunhas da defesa seriam ouvidas depois das da acusação). José Antônio Maingue, também médico, fazia plantão no Hospital Evangélico quando Carli Filho foi internado. Ele disse o ex-deputado chegou em coma ao hospital, mas que a tomografia não indicou graves danos no cérebro. Havia danos sérios, no entanto, na face de Carli. Perguntado pela promotoria se havia necessidade de transferência para o hospital Albert Einstein, em São Paulo, o médico disse que não. "Ele recomeçou a reconstrução no dia e depois a família optou por levá-lo para São Paulo", afirmou.

Imagem ilustrativa da imagem À espera do veredito
| Foto: Theo Marques/Framephoto/Estadão Conteúdo



"PERNAS MEIO TRANÇADAS"
Altevir Gonçalves dos Santos, porteiro do restaurante em que Carli Filho jantou, foi o terceiro a testemunhar e confirmou a informação de Eduardo Missel da Silva, de que o ex-deputado chegou a entrar no carro do casal de amigos, mas que optou por dirigir seu próprio veículo. Santos confirmou que Carli Filho deixou o restaurante com uma taça de vinho na mão e que a devolveu quando um garçom chamou sua atenção. "Ele não saiu normal", disse. "Saiu em estado alterado, não estava andando direito, estava com as pernas meio trançadas."
Santos teria acompanhado os três até o estacionamento em que estava o carro de Silva e revelou que chegou a segurar o então deputado para que ele não batesse a cabeça em uma árvore. "Quando viu o carro dele, (Carli) saltou do carro do casal", afirmou. "Eu me posicionei perto dele (Carli) e segurei ele para ele não bater a cabeça em uma árvore", disse. "Falei para ele ir com o casal, disse para ele: ´não faça isso´. Ele não deu ouvidos. Fiz de tudo, porque senti que não era uma coisa boa". Souza disse ainda que Carli Filho entrou no Passat e saiu em alta velocidade.

Também foram ouvidas no primeiro dia do júri duas testemunhas que estavam no local do acidente, que divergiram em seus depoimentos (leia nesta página).
O depoimento mais demorado do primeiro dia de julgamento foi do perito Ventura Raphael Martello Filho, de São Paulo, que foi contratado pela família de Carli Filho para produzir um laudo alternativo ao feito pelo Instituto de Criminalística do Paraná (leia nesta página).

A mãe de Gilmar Yared, Christiane Yared, será ouvida hoje. "Nossas vidas vão continuar depois do júri. Mas conheço mães que perderam três filhos em acidentes de trânsito. Vou continuar lutando", afirmou Christiane, que é deputada federal.

O advogado Elias Mattar Assad, assistente da defesa, espera que o veredito saia até o início da noite de hoje. "Está correndo tudo dentro da normalidade e esperamos que o resultado saia até amanhá (hoje)", afirmou.
Carli Filho confessou, em 2016, que havia bebido antes de dirigir. O laudo do Instituto Médico Legal de Curitiba que atestava que ele bebeu foi excluído do processo, pois o sangue teria sido colhido quando o então deputado estava desacordado. Laudo do Instituto de Criminalística do Paraná atestou o carro estava em uma velocidade entre 161 e 173 quilômetros por hora no momento da batida. O acidente foi na rua Ivo Zanlorenzi, uma via de alta velocidade no bairro Mossunguê, onde Carli Filho morava — atualmente ele mora em Guarapuava.

Perito contratado tenta desqualificar laudo
O perito Ventura Raphael Martello Filho, contratado pela família de Luiz Fernando Ribas Carli Filho, tentou desqualificar o laudo do Instituto de Criminalística do Paraná que indicava que o ex-deputado estava em uma velocidade entre 161 e 173 quilômetros por hora no momento da batida que resultou na morte de Gilmar Yared e Carlos Murilo de Almeida. Ele negou ainda que o carro de Carli Filho tenha "decolado", como afirma a acusação.

Martello Filho disse que, no caso de Carli, não há como saber precisamente qual a velocidade. "Nesse caso, nenhum dos métodos que conhecemos seria possível de ser aplicado", disse. "O levantamento do local foi muito precário nesse caso, sem isolamento. Tinha muita gente no local."

O perito, que disse ter recebido R$ 50 mil para elaborar o laudo, afirmou que o estrago no Honda Fit, onde estavam as duas vítimas, foi grande porque o veículo foi atingido "na parte mais frágil". "O Passat bateu na parte mais resistente. E o Honda Fit foi atingido na parte mais frágil", disse. Ele negou que o carro de Carli Filho tenha ficado com os quatro pneus no chão. "Voando estavam outras coisas, o veículo não." De acordo com Martello Filho, seria necessária uma velocidade de 250 quilômetros por hora para o carro "decolar".
Ele citou ainda notícias da época, que davam conta de que o velocímetro do carro do ex-deputado indicava uma velocidade alta. "No momento do impacto, a energia pode atingir até 80 gramas", comentou. "Com a colisão, há uma aceleração muito forte em curto período de tempo, que pode projetar o ponteiro para qualquer lugar".

Em sua fala, Martello Filho "supôs" o trajeto de Carli Filho pelo fato de o ex-deputado não aparecer em nenhum radar. Em um dos trajetos, disse o perito, a velocidade máxima que Carli conseguiria atingir seria de 136 quilômetros por hora. Ele questionou ainda a imagem de vídeo usada pelo Instituto de Criminalística para chegar à velocidade de Carli e disse que, no cruzamento das ruas Paulo Gorski e Ivo Zanzolenri, é possível ver um carro se aproximando a 115 metros de distância durante a noite.

Imagem ilustrativa da imagem À espera do veredito
| Foto: Rodrigo Félix Leal



Testemunhas oculares divergem
Duas testemunhas que estava na Rua Paulo Gorski no momento do acidente em que morreram Gilmar Yared e Carlos Murilo de Almeida, em maio de 2009, apresentaram versões diferentes par ao fato. Indicado pela acusação, Leandro Lopes Ribeiro disse que seguia atrás do Honda Fit dirigido por Gilmar Yared, na Rua Paulo Gorski. Segundo Ribeiro, o Honda Fit parou no cruzamento — que naquele horário tinha o semáforo desligado, por ser de madrugada.

"Perto da rápida eles praticamente pararam, entraram na rápida e veio outro carro, em altíssima velocidade, com os quatro pneus fora da pista", afirmou. "Foi tão rápido que eu nem vi o farol (do carro de Carli)". Ele definiu a velocidade do Passat do ex-deputado como "altíssima, incalculável".

Ribeiro disse que foi o primeiro a chegar à cena do acidente, depois de chamar o Siate. "Percebi parte do crânio de uma das vítimas", disse. A testemunha disse ainda que não viu nenhum outro carro parado no local.

A testemunha indicada pela acusação, Yuri Yacishin da Cunha, apresentou uma versão diferente. Segundo ele, o Honda Fit conduzido por Gilmar Yared não parou no cruzamento. Ele seguida pela Rua Paulo Gorski em sentido contrário ao de Yared (do outro lado da Rua Ivo Zanlorenzi) e afirmou que não viu o carro do ex-deputado, portanto não saberia dizer se ele "decolou". Cunha afirmou que não ouvi nenhum barulho de veículo freando, nem percebeu o farol do Passat. Ele também parou o carro no local. "Não era possível fazer mais nada, só chamar o Siate", afirmou. "Só ouvi um barulho, como se fosse o estouro de um transformador".

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