Londrina - As crianças, Cristiele, de 4 anos, e Paulo Henrique, 7, brincam sob o olhar cuidadoso da mãe Cristiane Santana. A cena seria corriqueira, se não acontecesse num acostamento de rodovia tomado por caminhões. A fila é de motoristas profissionais esperando para descarregar em uma empresa de armazenagem de grãos às margens da PR-445, em Cambé (Norte). Uma rotina triste para quem precisa rodar para viver.
Nas filas espalhadas pelo Brasil, os caminhoneiros sofrem por não contar com infraestrutura adequada para passar tanto tempo parados em acostamentos. Pior ainda para quem viaja acompanhado pela família. É o caso dos filhos de Ademir José Santana. Sempre que ganham folga na escola, viajam com o pai Brasil afora. ''A gente passa muito tempo separado, então, assim que surge oportunidade, vamos com ele'', explicou Cristiane, que mora em Apucarana (Norte).
O carnaval, então, foi uma oportunidade para que a família toda passasse um tempo reunida. O problema é que a folia foi numa fila para descarregar soja em Cambé. ''Chegamos na terça-feira (8) no final da tarde e estamos aqui esperando nessa fila. Acho que já deve ter uns 5 quilômetros'', declarou Santana, já na tarde de quarta.
Há 27 anos na estrada, o caminhoneiro afirma que os piores momentos na profissão são justamente as filas para descarregar. ''Perdemos tempo e dinheiro, além de termos que ficar aqui sem banheiro, sem água, sem nada'', disse.
Não bastasse o desconforto, o tempo de fila representa também prejuízo no bolso dos profissionais do volante. Essa é uma das principais queixas de Carlos Alberto Caparrossi. Depois de uma viagem de 36 horas entre Nova Mutum (MT) e Cambé, ele precisou passar uma noite inteira no acostamento esperando sua vez para descarregar e seguir viagem.
''Cada dia que eu fico parado perco uns R$ 500,00. Por mês dá para fazer umas seis vezes esse trajeto lá do Mato Grosso até aqui, mas se perder tempo assim não dá'', lamentou.
Outra preocupação de quem passa os dias e as noites na beira da estrada é a falta de segurança. Acidentes e assaltos são uma ameaça constante para quem vive nas rodovias. E é por isso que, ao contrário de Santana, Caparrossi nunca leva os familiares nas viagens. ''Tenho medo de acontecer acidente'', confessou.
Já Santana tem na memória um episódio que poderia ter se transformado em tragédia no interior paulista. ''Um cara quebrou o vidro e apontou uma arma para minha cabeça. Entreguei o caminhão e consegui sair ileso'', relembrou.
A rotina dos caminhoneiros não é feita, porém, apenas de riscos e insatisfação. No final do ano passado a família Santana aproveitou uma das viagens a trabalho do patriarca para conhecer o Rio Grande do Norte. ''Passamos até um tempinho na praia, em Mossoró'', comenta Cristiane, sem se importar com as dificuldades para cumprir tarefas comuns do dia a dia, como cozinhar.
Dormir também implica em dificuldades, uma vez que pai, mãe e as duas crianças têm que dormir, conforme definição da própria Cristiane, amontoados na cabine. E os postos de combustíveis suprem as outras necessidades básicas: banheiro e água potável.

mockup