Em maio de 97 o fotógrafo Carllos Bozelli sofreu um acidente de motocicleta. Ele machucou a boca e perdeu vários dentes. Até hoje ele tem problemas com os implantes porque perdeu parte da gengiva e do osso do maxilar. Agora, graças a uma pesquisa que está sendo desenvolvida em Londrina, casos como o dele poderão ser resolvidos de uma forma mais eficiente, rápida e barata. Uma nova técnica, chamada engenharia tecidual, promete revolucionar o tratamento dentário, desde a recuperação de dentes perdidos até a restauração de dentes cariados. O responsável pela pesquisa, inédita no Paraná, é o dentista Alberto João Zortéa Junior.
A engenharia de tecidos trabalha com a cultura de células do próprio organismo. No caso da pesquisa de Zortéa, são células ósseas e gengivais. Depois de três anos de trabalho nos laboratórios da Universidade de Santa Catarina, onde desenvolve tese de mestrado, o dentista, que também é professor da Unopar, está trazendo a pesquisa e partilhando os resultados com profissionais de Londrina.
O que eles já conseguem fazer, em caráter experimental, é reproduzir, em laboratório, tecido da gengiva e do osso de qualquer organismo a partir de células retiradas da própria pessoa. ‘‘Com isso, podemos recuperar tecidos perdidos por acidentes ou patologias’’, explica Zortéa. Até agora, isso só é feito através de transplantes ou enxertos. A vantagem da nova técnica é que não oferece risco de rejeição, nem de limitação de doadores. ‘‘Já pensou como é difícil reconstituir um fêmur, por exemplo, que é um osso grande?’’, questiona o dentista. ‘‘Além disso, o enxerto é um processo invasivo e a engenharia tecidual é muito menos agressiva’’, pondera.
Zortéa acredita que a técnica estará disponível nos consultórios dentro de um ou dois anos. ‘‘A tendência é que o implante com material sintético também seja progressivamente substituído por cultura de célular’’, afirma ele. ‘‘Dentro dos próximos 10 anos, as pessoas que perderem dentes vão poder reconstruí-los a partir de material retirada da própria boca, em laboratórios’’. No caso da reconstrução de dentes perdidos, no entanto, Zortéa ressalta que é preciso usar células-tronco. ‘‘O órgão dentário é constituído de um material misto que tem uma origem mais complexa’’, explica. Países como Inglaterra e Alemanha já estão testando esse procedimento em seres humanos.
Por causa dos avanços da engenharia tecidual, as multinacionais não estão mais investindo em pesquisas de materiais sintéticos para substituir e restaurar dentes. ‘‘Até a reconstrução de parte do dente, como o caso de dentes quebrados ou cariados, vai ser feita através de células multiplicadas do próprio dente e isso é para um futuro imediato. O que a gente está vendo é a regeneração substituindo a reconstrução, ou o reparo. O resultado é muito melhor’’, comemora Zortéa. Ele se refere ao fim das obturações de amálgama, porcelana, sorrisos com falhas e dentes com cores diferentes. No Brasil, pesquisas como as de Zortéa estão sendo feitas também pela Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto e do Rio de Janeiro.

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