O barulho da água saindo de uma torneira e pingando na pia. Pode parecer bobagem para quem está acostumado a ouvir desde que nasceu, mas esse era o som que Anderson Bruno Bigeti, 14 anos, mais queria escutar. Surdo desde que veio ao mundo, ele também queria conhecer a voz da mãe e conseguiu, quando teve o aparelho coclear implantado e ligado recentemente. ‘‘Senti muita emoção e fiquei muito feliz. É tudo muito diferente’’, comenta o garoto, ainda se expressando por meio de sinais.
  Anderson e outras duas pessoas, um homem de 61 anos e um bebê de apenas 1 ano e seis meses, foram submetidos à cirurgia de implante coclear (para a colocação de prótese). As cirurgias de Anderson e do pequeno Pedro Augusto Bustolin Padro foram realizadas há um mês, sendo o procedimento do bebê algo inédito em Londrina, por se tratar de um implante bilateral (nos dois ouvidos).
  Segundo o otorrinolaringologista Orley Ferraz, responsável pela equipe médica composta também por profissionais de Curitiba, o aparelho é implantado na cabeça do paciente (na cóclea) possibilitando que a energia sonora seja transformada em sinais elétricos, que são enviados ao cérebro. ‘‘É uma tecnologia que está aí e que muda totalmente a vida da pessoa para melhor. O som fica um pouco metalizado e o paciente precisa passar por acompanhamento fonoaudiólogo e psicológico’’, disse.
  Segundo o médico, qualquer pessoa pode passar pelo procedimento desde que atenda os requisitos exigidos pela equipe médica. Por enquanto, segundo Ferraz, o procedimento ainda não é coberto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o aparelho custa cerca de R$ 65 mil reais. Os pacientes atendidos por Ferraz são usuários de planos de saúde.
  A mãe de Anderson, a secretária Alexandra do Amaral, sente a alegria e força de vontade do filho. ‘‘Ele se alegra com tudo o que ouve. Adorou ouvir a chuva pela primeira vez’’, comentou. A mãe de Pedro, a professora Valquiria Bustolin, se emociona ao falar que o filho desenvolverá a audição e a fala junto com o crescimento. ‘‘No primeiro dia que o aparelho foi ligado ele chorou. Agora já está se acostumando’’, contou.
  De acordo com a fonoaudióloga Michele Furlaneto, o bebê desenvolverá uma boa audição e fala pelo fato de ser ainda muito jovem. ‘‘Vai ser tudo novo pra ele, mas natural. No caso dele é muito bom porque tem tudo pra crescer e viver uma vida normal na escola, com a família e em sociedade’’, disse.
  Já o aposentado Oscivaldo Leôncio, 61, que perdeu a audição há cerca de dez anos em decorrência do diabetes, passou pelo procedimento cirúrgico há uma semana e nos próximos dias voltará a ouvir com mais qualidade. A cirurgia foi feita no ouvido direito e no esquerdo ele usa um aparelho convencional.
‘‘É muito ruim quando você começa a deixar de ouvir as pessoas te chamarem e não consegue levar uma vida normal. Se Deus quiser, com o aparelho vou conseguir voltar a ouvir tudo o que eu tenho direito’’, comentou.

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