O foco na inovação foi promovido no evento como um dos caminhos para transformar a educação
O foco na inovação foi promovido no evento como um dos caminhos para transformar a educação | Foto: Fotos: Saulo Ohara



Como transformar a educação para superar os baixos índices de avaliação dos estudantes brasileiros e garantir que crianças e jovens sejam formados para que tenham acesso a melhores oportunidades no futuro, contribuindo para o desenvolvimento do Brasil?

Responder a essa pergunta foi o desafio imposto aos participantes da 11ª edição dos EncontrosFolha, realizado no dia 5 de março no auditório do Aurora Shopping em Londrina, sobre o tema "A educação como elemento transformador da sociedade". A conclusão dos especialistas convidados a debater o assunto passa pela necessidade de investir na formação de professores e pela valorização da relação dos mestres com alunos. Além disso, defenderam que é preciso democratizar o acesso à tecnologia e favorecer a participação ativa dos estudantes no processo de aprendizagem. Em todos os níveis educacionais, do ensino fundamental às universidades, o foco na inovação foi promovido como um dos caminhos para transformar a educação em uma ferramenta efetiva para garantir o desenvolvimento do País.

O evento, com patrocínio do Grupo Positivo e da Construtora Quadra, co-promoção da Frente Parlamentar da Educação e Apoio da CNC e ISAE/FGV, foi dividido em dois painéis. Do primeiro, reservado ao ensino fundamental e médio, participaram a professora da FGV-RJ e diretora do Ceipe (Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais), Claudia Costin, e o diretor do Google for Education na América Latina, Rodrigo Pimentel. Do segundo painel, que tratou da graduação e pós-graduação, fizeram parte a reitora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Berenice Quinzani Jordão, o engenheiro civil especialista em gestão escolar e professor convidado no ISAE/FGV, José Motta Filho, e o diretor do Núcleo de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Positivo, Roberto Di Benedetto. O mediador do debate foi o jornalista Diego Prazeres, editor de Política da FOLHA.

Claudia Costin: "As crianças estão na escola, mas nem todas aprendem"
Claudia Costin: "As crianças estão na escola, mas nem todas aprendem"



ESCOLA MAIS INCLUSIVA
A palestrante Cláudia Costin iniciou sua fala lembrando que o Brasil alcançou a meta de incluir todas as crianças na escola, mas ainda tem um longo caminho a percorrer para garantir que todas elas tenham acesso à educação de qualidade. "As crianças estão na escola, mas nem todas aprendem", lamenta. Segundo ela, até o final da década de 1960, apenas 40% dos meninos e meninas brasileiros estavam na escola pública. "Era uma escola de qualidade para quem tinha uma família de qualidade, formada por pessoas letradas ou com intensa preocupação com a educação", relata.

A universalização do acesso à escola hoje é realidade, mas a educação continua pouco inclusiva. "Os mais pobres deveriam estar na mesma escola que os ricos. O Brasil vive uma realidade de aumento das desigualdades sociais, que são a principal causa da violência. A educação tem potencial para combater isso", defende, lembrando que a escola inclusiva também exige estudantes de diversas etnias na mesma sala de aula. "Além disso, as altas expectativas em relação à aprendizagem deveriam ser para todos e não só para os mais brilhantes", pede.

A automação e a robotização dos processos produtivos deve, cada vez mais, extinguir postos de trabalho. "Vamos ter ônibus sem motoristas", exemplifica, destacando que em um cenário de desemprego, a educação está despreparada para capacitar os jovens. A juventude precisa se preparar para desempenhar novas funções em um futuro próximo, até porque terão a responsabilidade de trabalhar em uma realidade de menos gente trabalhando e mais idosos e crianças convivendo ao mesmo tempo. "O bônus demográfico se extingue em 13 anos", sentencia.

A palestrante citou os resultados da ANA (Avaliação Nacional de Alfabetização) para demonstrar que apenas incluir crianças e adolescentes na escola não foi suficiente para o sonhado salto de desenvolvimento em educação. Entre estudantes brasileiros acima de 8 anos, 54,73% estão em níveis insuficientes de leitura e 33,95% em escrita. Em matemática, 54,4% ´também não alcançaram os níveis adequados. No 9º ano, 73% dos alunos não aprenderam o adequado em Português e 83% em Matemática. Já no Ensino Médio, somente 64% dos jovens entre 25 a 29 anos completaram essa etapa da educação básica, enquanto na média da OCDE (Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico), esta proporção chega a 85%. "Pelo menos 1,7 milhão de jovens entre 15 a 17 anos – correspondente à faixa etária regular do Ensino Médio – estão fora da escola", afirma.

METAS
Vencer esses desafios é o caminho para cumprir a meta 4 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável propostos pela ONU (Organização das Nações Unidas), da qual o Brasil é signatário. O documento que trata de educação propõe assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

Nas submetas, o documento também impõe, até 2030, assegurar que todas as meninas e meninos completem Educação Primária e Secundária de qualidade, livre e equitativa, que conduza a resultados de aprendizagem relevantes e efetivos. Isso pressupõe, por exemplo, que cem por cento dos adolescentes completem até 19 anos cursando ou tendo concluído o Ensino Médio. "É extremamente desafiador para o Brasil, pois os jovens não têm acesso à escola e, quando têm, abandonam", lamenta a educadora Claudia Costin.

Outra submeta pede que, até 2030, todas as meninas e meninos tenham acesso a Programas de Primeira Infância de qualidade, incluindo Educação pré-escolar, para que estejam prontos para o Ensino Primário. "A educação nessa fase é o melhor investimento para reduzir desigualdades sócio-econômicas no futuro. Temos que ter objetivos claros inclusive para os pequenos, que devem ser colocados em ambientes letrados para que todos se desenvolvam com as mesmas condições", pede.

Debate destaca conectividade
Pesquisa do Todos Pela Educação aponta que 55% dos professores utilizam regularmente as tecnologias na rede pública e 54% usariam mais se não implicasse em maior carga de trabalho. Por outro lado, 65% não usam tecnologias por falta de estrutura e velocidade da internet. Essa temática iniciou o debate entre os painelistas, que participaram da 11º edição do Encontros Folha. "Tecnologia tem que estar pronta para a realidade do país e não ao contrário. Se for o caso, deve estar preparada inclusive para ser usada off-line", afirmou Pimentel, sem descartar a importância de levar conectividade às escolas, o que é tarefa dos governos.

Costin lembrou que estrutura não é garantia de qualidade, mas concordou que o governo deveria priorizar a conectividade em todas as escolas públicas, que atendem 80% dos estudantes brasileiros. "A escola pública tem que ser melhorada de forma importante, não tem a função de apenas tirar crianças da rua. Temos que ser exigentes com todos os alunos, apoiando a todos", afirmou. Sobre o uso das tecnologias, ela citou a experiência carioca Educopedia, uma plataforma virtual desenvolvida por professores da rede municipal que disponibilizam aulas e material de retaguarda na ferramenta. "É um exemplo que ajudou a melhorar o Ideb do Rio", pontuou.

Da plateia, uma das participantes perguntou sobre a necessidade de mudanças nas provas do vestibular e do Enem, que seriam "conteudistas" ao invés de avaliar competências. Pimentel opinou que as provas são "disfuncionais" e geram muitas despesas. Propôs, então, que o sistema fosse adaptado para avaliações online que inclusive facilitariam a coleta de resultados. Costin argumentou que o Enem trouxe progressos na avaliação de estudantes de Ensino Médio ao focar em competências. "Para entrar na universidade o estudante precisa saber ler e interpretar, ter raciocínio matemático e um repertório cultural que o habilite a navegar pelos textos universitário, além de uma mente investigativa desenvolvida. São essas competências que as provas devem avaliar", diz. Ela lembrou que a Base Nacional Curricular já traz uma lista de competências desejadas para o século 21. "Acredito que o Enem deva ficar mais diversificado", afirma.

Respondendo a outra pergunta da plateia, Pimentel opinou que o Ministério da Educação tem boas propostas para incentivar o uso de tecnologias na sala de aula, mas que a forma de levar os modelos para esses ambientes precisa ser repensada. Ao final do debate, respondendo sobre os desafios para superar as dificuldades de alfabetização, Costin reforçou que o segredo está no investimento em uma boa educação infantil, com crianças expostas a livros e outras ferramentas que favoreçam o desenvolvimento cognitivo e predisponham à alfabetização. "Também é preciso investir em bons professores e enxergar que cada criança aprende de um jeito diferente." (C.A.)

Rodrigo Pimentel: ''Muitos alunos que estão nas escolas hoje vão trabalhar em empregos que ainda não existem. Eles precisam ser preparados para empreender, o que exige que a escola seja inovadora''
Rodrigo Pimentel: ''Muitos alunos que estão nas escolas hoje vão trabalhar em empregos que ainda não existem. Eles precisam ser preparados para empreender, o que exige que a escola seja inovadora'' | Foto: Saulo Ohara



Investimento em tecnologia demanda projetos concretos
O investimento em tecnologias não faz sentido se a escola não estiver focada nos alunos e professores, defendeu Rodrigo Pimentel, diretor do Google for Education na América Latina, um dos painelistas do EncontrosFolha. Ele destacou em sua fala que a tecnologia tem que servir à escola e não o contrário. "A inovação tem que estar dentro da sala de aula", defendeu ele, que é taxativo em relação a especulações sobre o fim das escolas diante da quantidade de conteúdos disponíveis na internet. "De forma alguma a escola vai acabar. Foi quando começamos a dissociar tecnologia e educação que passamos a ter um problema", disse.

A proposta do gigante da internet, nesse sentido, é oferecer ferramentas para a que escola consiga falar a mesma língua que os estudantes. "Crianças querem celulares e videogames. O desafio é resgatar o papel da escola através da tecnologia", propõe. Qualquer investimento em novas tecnologias para fomentar a cultura da inovação, entretanto, precisa ser pautada por projetos sólidos. "O Google é contra ‘empurrar’ tecnologias sem ter um projeto. A cultura da inovação não pode ser forçada, ela tem que crescer de forma natural, mas precisa de condições para florescer", afirma.

Pesquisa sobre a expectativa das empresas em relação a novos profissionais que estão chegando ao mercado de trabalho dão pistas sobre a ineficiência do modelo brasileiro atual de educação. Conforme Pimentel, 51% das empresas buscam profissionais aptos a resolverem problemas, 33% apontam a necessidade de pessoas que possam trabalhar em equipe, 26% demandam capacidade de educação e 21% buscam pensamento crítico. Essas habilidades, segundo ele, são também as que os estudantes gostariam de desenvolver, mas nem sempre encontram eco nas instituições de ensino. "Muitos alunos que estão nas escolas hoje vão trabalhar em empregos que ainda não existem. Eles precisam ser preparados para empreender, o que exige que a escola seja inovadora", pede.

O segredo para conseguir transformar a educação, segundo ele, está também na filosofia adotada pela Google em todas as suas instâncias. "Se existe um problema, ele também é meu", afirma.

Ele lembrou que a tecnologia Google for Education tem ferramentas gratuitas que podem ser usadas por todas as escolas. "É possível coordenar a sala de aula, mandar e receber tarefas e criar grupos para conversar. A maioria dos estudantes possui smartphones, em todas as classes sociais, não há impedimento financeiro. O importante é querer começar", diz. (C.A.)

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