A economia da Coréia do Sul recupera-se, mas as vítimas da crise continuam a sofrer
A economia da Coréia do Sul recupera-se, mas as vítimas da crise continuam a sofrer16/Mar, 12:14 Por Kyong-Hwa Seok Seul, Coréia do Sul (AE-AP) - Dois anos atrás, os negócios estavam tão ruins no maior shopping center de Seul que o número de entediados funcionários geralmente era maior do que o de clientes. Hoje, com a economia florescendo novamente, eles estão ocupados esvaziando caixas com os novos produtos que serão adquiridos por ávidos compradores. "É como se nós nunca tivéssemos tido uma crise econômica", diz Lee Hyun-ja, vendedora da loja de departamentos Lotte. As estatísticas mostram bons resultados. As taxas de desemprego e de juros estão baixas, o mercado e ações e a economia crescem a todo vapor. Mas algumas pessoas não têm o que celebrar enquanto a economia orientada para a exportação da Coréia do Sul recupera seu lugar no mercado mundial. Milhares não recuperaram os empregos e as economias que foram levados quando a crise cambial asiática colocou a maior parte desta região numa recessão e dilacerou as economias da Rússia, do Brasil e de outras nações. No pico da crise, muitos sul-coreanos entregaram ouro e valiosas relíquias de família ao governo para ajudar na recuperação do país. Mas as vítimas da reviravolta financeira não obtiveram tal solidariedade. Nas subúrbios de Seul, um abrigo estatal chamado Casa da Liberdade fornece acomodação para mil pessoas, mais de um terço das quais perderam seus empregos e casas durante a crise. Lee Bok-nam, 48 anos, mudou-se para o abrigo há um ano, logo depois que seu irmão, que era também seu parceiro nos negócios, cometeu suicídio engolindo calmantes quando os negócios faliram. Seu maior cliente, uma empresa de construção, não pôde pagá-los pelos materiais que eles haviam fornecido e Lee acabou seguido por irritados credores. Atualmente trabalhando da construção civil, ele ganha 400 mil wons (US$ 330) por mês, um décimo dos seus rendimentos prévios. "Talvez as grandes corporações estejam mais saudáveis e mais ricas agora. Mas e as pequenas companhias que entraram em falência e os empregados que foram dispensados?", pergunta Lee. Sua esposa e suas duas filhas estão morando com parentes desde que ele vendeu a casa da família para pagar as dívidas. Ele conta que também tentou suicídio, cortando os pulsos e tomando calmantes dentro de um hotel. Mas ele foi encontrado por seus empregados e levado a um hospital, onde recuperou-se. Depois disso, ele mudou-se para o abrigo porque tinha vergonha de ficar com a família. Os valores do confucionismo, predominantes na Coréia do Sul, dizem que é uma desgraça para um homem, o chefe tradicional da família, ser incapaz de alimentar seus entes queridos. Cerca de 46 mil pequenas e médias empresas fecharam durante a crise econômica. Com a recuperação da economia sul-coreana, cerca de 30 mil novas companhias foram fundadas no ano passado. Outro sinal da forte recuperação são os 10% de crescimento da economia no último ano, contra os 5,8% de contração registrados em 1998. O desemprego continua a ser um problema, cuja taxa era de apenas 2% antes que a crise atingisse a região em 1997; então chegou a 8,6% quando as empresas sul-coreanas faliram ou dispensaram seus empregados. Com a recuperação, a taxa caiu um pouco para cerca de 5%, mas os dados não mostram os diversos empregados que passaram a trabalhar apenas meio-período. O governo paga salários-desemprego aos que estão fora do mercado de trabalho, mas críticos dizem que os procedimentos burocráticos tornam muito difícil o acesso ao benefício. A dificuldade em arranjar emprego atinge até mesmo aqueles que acabaram de deixar as universidades. Kim Soo-bum terminou seu curso de engenharia numa universidade de Seul há um ano, mas continua sem emprego. Pouco menos da metade dos 60 estudantes da sua classe estão trabalhando. Antes da crise, recém-formados de engenharia ostentavam taxas de emprego de quase 100%. "Mesmo os que encontraram emprego recebem pouco em relação aos salários pré-crise. No meu caso, não tenho a menor idéia do que fazer porque as ofertas de emprego continuam escassas", conta Kim, 28 anos, que como muitos coreanos solteiros, vive com os pais. A Recruit Co., a maior empresa de recolocação profissional da Coréia do Sul, informou que os 30 maiores conglomerados do país costumavam empregar de 16 mil a 17 mil universitários recém formados todos anos antes da crise. As contratações foram suspensas em 1997, atingiram 7 mil no ano seguinte e 10 mil em 1999. O número de mendigos subiu durante a crise, embora o governo não tenha coletado dados desde que a questão tornou-se um problema sério no início de 1998. Atualmente, há cerca de 4 mil sem-teto, número menor do que os cerca de 11% registrados no ano passado. A população sul-coreana é de 47 milhões de pessoas. A maioria permanece em pequenos abrigos dirigidos por grupos religiosos ou cívicos que não têm recursos para atender muitas pessoas.





