A dura rotina dos transplantados
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terça-feira, 14 de dezembro de 2004
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Na última semana, o motorista de ônibus Eleno José dos Santos e sua filha Maria Aparecida dos Santos, de 15 anos, viajaram mais de 2.700 quilômetros, desde a cidade de Siriri, em Sergipe, até Curitiba, para cumprir uma rotina que se repete a cada dois anos. A garota, que há dez anos fez um transplante de medula óssea no Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), hoje tem boa saúde, mas ainda tem que se se submeter a uma série de exames periódicos para controle da doença.
O pai, no entanto, não reclama. De sete filhos, dois tiveram displasia de medula, uma doença genética. O primeiro, nascido em 1883, morreu aos nove anos de idade. Já a menina, que apresentou sintomas da doença no primeiro mês de vida, teve a doença diagnosticada e o tratamento garantido. ''Teve um tempo que ela passava mais tempo no hospital do que em casa'', conta o pai, lembrando que a família teve que mudar de vida em função da doença, a começar por uma mudança temporária para Curitiba, local onde a garota fez o tratamento.
Esmilda Cipriano de Souza, de 23 anos, também comemora sua cura. Aos seis anos, ela teve sintomas de Anemia de Fanconi, também hereditária, e no mesmo ano conseguiu fazer o transplante. ''Eu só tinha vontade de dormir, tinha fraqueza direto'', conta ela, que hoje está casada e conseguiu vencer outro problema comum entre os transplantados: conseguiu engravidar e tem um menino, Joabe, de quatro anos.
Ontem, aproximadamente 500 pacientes, ex-pacientes, familiares e equipe médica do HC contavam histórias semelhantes, em um evento que comemorou os 25 anos do Serviço de Transplante de Medula Óssea (TMO) do HC. Relatos que misturam sentimentos de tristeza e alegria também fazem parte do livro ''Momentos de Vida'', lançado ontem, e que reúne depoimentos de 205 pacientes e de seus familiares.
Nesses 25 anos, o serviço de TMO fez 1.560 transplantes, o correspondente a 40% dos transplantes de medula feitos em todo País. Por ano, de acordo com o chefe do serviço Ricardo Pasquini, o HC realiza um média de 100 transplantes. Ele reclama da falta de leitos e de pessoal, necessários para aumentar o atendimento. O setor tem 14 leitos, 140 profissionais e realiza oito transplantes por mês. Com o dobro de leitos e mais 100 profissionais, poderia fazer 14 transplantes por mês.
O diretor do HC Giovanni Loddo, ressaltou ontem, também, a parceria entre HC/UFPR e as universidades estaduais de Londrina (UEL) e de Maringá (UEM), que visa implantar a Rede Paranaense de Terapia Celular. A intenção, segundo ele, é integrar as universidades, de modo otimizar recursos, pessoal e conhecimentos desenvolvidos em cada uma. Ele não descarta, inclusive, a possibilidade de que os hospitais universitários venham realizar os transplantes, hoje feitos apenas no HC.
A implantação da Rede faz parte de 50 projetos estratégicos que receberão R$ 19 milhões para pesquisa e desenvolvimento. A contratação dos projetos foi autorizada no último dia 6 pelo Governo do Estado.
Acima, Esmilda Souza, 23 anos, ao lado do filho Joabe, que nasceu após a cura da doença; ao lado, Maria Aparecida com seu pai Eleno José dos Santos: Teve uma época que ela passava mais tempo no hospital do que em casa


