A data passou praticamente incógnita, os ânimos para comemorações ficaram mais do que restritos, e 31 de março, data que eclodiu o movimento militar de 1964, não mereceu comemorações. As referências predominantes, hoje, marcam a data como início do arbítrio, da ditadura, dos anos de chumbo, do longo período de exceção.
O novo imortal da Academia de Letras, Carlos Heitor Cony, conseguiu sintetizar: ‘Tivemos o totalitarismo militar. Temos agora o totalitarismo da mediocridade. Há vítimas de um e outro regime.’’
Impressionante o paralelo. Porque nos anos de chumbo havia a prisão sem satisfações, a tortura desumana, a lógica perversa dos fins justificando os meios. Nos anos de mediocridade, assuntos políticos e policiais se entrelaçam em todas as espécies de falcatruas, desmandos, apropriação da coisa pública, tudo a percorrer de ponta a ponta as páginas do Código Penal.
De fato, hoje estamos, como sociedade, sendo vítimas da mediocridade. É ela quem manda as cartas na educação, na saúde, na construção (que deveria ser sadia) do País. Mediocridade na política. Mediocridade na mídia. Mediocridade na Polícia. Mediocridade na Justiça. Mediocridade por todos os lados. O resultado é este que assistimos hoje por toda parte: violação de Direitos, ausência de ética, carência de escrúpulos, crise de moralidade administrativa, falta de exercício da virtude e cidadania.
Nos anos de chumbo, o País se transformou num quartel de dimensões continentais. Nos anos de mediocridade, o País é manobrado de uma forma que torna latente uma crise generalizada, remetendo os brasileiros para uma ausência de perspectiva, causada por uma situação econômica sufocante que afeta a tudo e a todos. Chegando ao fim o milênio, vamos percebendo que a questão deixa de ser militar ou civil, usar farda ou não. Exige novos rumos. A digressão é necessária para chegarmos ao concreto. As denúncias proliferam, envolvendo as máquinas institucionais e causando constrangimentos. É momento de se restabelecer confiança, credibilidade.
Os abalos nas instituições que têm a responsabilidade de manter a segurança pública e distribuir a Justiça têm sido muito fortes em vários Estados brasileiros. Assim é que desejar um mínimo de sossego e garantias individuais vai se tornando, nos grandes centros urbano, uma mera abstração. Como se houvesse um fatalismo a pairar sobre a cabeça de cada um, como espadas de Dâmocles, e absolutamente nada pudesse ser feito para evitar.
Aí é que está: pode. A questão é que segurança pública assume um sentido cada vez mais amplo. A decantada participação comunitária na solução dos problemas se torna cada vez mais necessária. Difícil encontrar um denominador comum quando prefeitura vai para um lado, Governo do Estado para outro, Polícias Civil e Militar seguem esse mesmo exemplo e a estrutura judiciária se comporta como se habitasse um Olimpo que não teria nada a ver com os imortais. Abaixo dele.
Esse modelo, o nada sinergético está defasado, corroído, consumido pelos ácidos dos tempos modernos. Muitas coisas são feitas de um determinado modo, hoje, simplesmente porque eram feitas assim, ontem. A mediocridade não permite evoluir, quer manter o status quo, não permite inovações e acaba implantando uma nova ditadura, na qual se finge que não há problemas cruciais. Em casos de tragédias, abrem-se exceções. Efêmeras.
31 de março passou. Em 1964, caía o presidente, as tropas tomavam as ruas. Agora, silenciosamente, sem coturnos ou tanques, as tropas da mediocridade na administração municipal paulista ilustra o que estamos tentando analisar, arrastando co-partícipes, ‘‘laranjas’’, ingênuos, inocentes úteis, corruptos. A população é a grande vítima.
Este, o cenário. Que precisa mudar, tem que mudar. Atravessamos os anos de chumbo. Tenhamos fôlego para sair dos anos medíocres.

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