Embora as águas ocupem cerca de 71% da superfície do planeta Terra, com volume estimado de 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos, fazendo dele o planeta azul, muitos não sabem que a água potável já é objeto de disputa do próximo milênio. Isso porque, quase todo recurso hídrico do planeta (97,3%) está nos oceanos, 2,07% formam as geleiras e calotas polares (água doce em estado sólido), restando somente a parcela de 0,63% de água doce em estado líquido, que não é totalmente aproveitada por questões de inviabilidade técnica, econômica e financeira.
Além disso, conflitos fronteiriços motivados pela água estão entrando na ordem do dia da política internacional. Entre alguns exemplos estão países como Síria e Turquia, Laos e Tailândia, Mauritânia e Senegal, Eslováquia e Hungria, que vêm travando longas disputas para deter o poder de uma determinada reserva hídrica fronteiriça.
Técnicos em recursos hídricos mundiais estimam que a água doce econômica e de mais fácil aproveitamento é de apenas 14 mil quilômetros cúbicos/ano. Para o engenheiro da Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais (CPRM), Ramiro Fernandes Maia Neto, a capacidade hídrica subterrânea é cerca de 100 vezes maior que o potencial dos rios e lagos, mas a captação desta água - situada em lençóis superiores a mil metros de profundidade - é uma atividade de risco, que exige tecnologia avançada de investigação hidrogeológica e perfuração de poços com altíssimo custo de exploração (US$ 1,2 mil/metros cúbicos).
Atualmente, a demanda mundial por água já representa 41% dos 14 mil quilômetros cúbicos/ano. No entanto, existe déficit de ofertas hídricas em determinadas regiões e uma evolução de mananciais com águas poluídas. A Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que nos próximos 25 anos cerca de 2,8 bilhões de pessoas poderão viver em regiões de seca crônica, com cada habitante consumindo apenas mil metros cúbicos/ano.
O Brasil pode ser considerado um País ‘‘privilegiado’’ em recursos hídricos, já que o volume armazenado de água subterrânea é da ordem de 58 mil quilômetros cúbicos e cerca de 257.790 metros cúbicos por segundo escoando pelos rios. Mas aproximadamente 89% da potencialidade das águas superficiais estão concentradas nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde habitam apenas 14,5% dos brasileiros (e cuja demanda hídrica é de 9,2%). As regiões Nordeste, Sul e Sudeste absorvem juntas os 11% restantes da capacidade dos rios e lagos, onde está localizada nada menos que 85,5% da população, com demanda de água de 90,8%.
O desafio brasileiro, enfatiza Maia Neto, será minimizar o desperdício de água, estimado em 40% e cujo prejuízo atinge cerca de R$ 1 bilhão/ano, além de ter de investir bilhões de dólares para recuperar a qualidade ambiental de muitos cursos d’água, como da Baía de Guanabara (RJ) e dos rios Tietê (SP) e Guaíba (RS).
‘‘O direito à água é fundamental ao homem, porque está embutido seu direito à vida. Portanto, o planejamento e gestão desse recurso devem levar em conta a solidariedade e o consenso em razão da sua distribuição desigual sobre o planeta’’, diz Maia Neto. E acrescenta: ‘‘Todo cidadão deve conhecer e respeitar a Declaração Universal dos Direitos da Água, em benefício próprio e do seu vizinho.’’

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