A dislexia e a nova ciência da leitura
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de novembro de 1999
Por Barbara Kantrowitz e Anne Underwood, da Newsweek (assinatura obrigatória) 
A primeira coisa que Kathryn Nicholas vai contar sobre seu filho de 11 anos, Jason, é que ele é um garoto brilhante e curioso, capaz de montar máquinas complicadas com Legos e lembrar os codinomes e as cargas de bombardeiros. "Ele tem um desejo fenomenal de ver como as coisas funcionam", diz Kathryn com orgulho.
Mas para Jason a leitura foi um desastre. Ele foi destacado para frequentar aulas de educação especial com três crianças levemente retardadas. Dois anos depois, apesar da ajuda extra, ele ainda não conseguia interpretar uma oração, e sua mãe receou que ele logo ficasse tão desestimulado que acabaria desistindo de tentar.
Foi então que ela ouviu falar de Virginia Wise Berninger, psicóloga pedagógica na Universidade de Washington que estuda a dislexia, distúrbio que torna extremamente difícil o aprendizado da leitura. Como parte de sua pesquisa em andamento, Berninger aplicou testes em Jason e depois o convidou para um programa de verão destinado a meninos disléticos. Os garotos não brincavam com jogos de letras. Eles faziam experiências científicas, estudavam biodiversidade, reuniam-se com um geneticista e radiologista da universidade - e aprendiam a ler palavras relacionadas com a ciência que estavam estudando. Berninger explicou que os cérebros deles não eram deficientes, apenas diferentes.
A psicóloga contou-lhes que Einstein também tivera problemas na escola, até encontrar uma que dava destaque ao raciocínio individual e desestimulava a memorização rotineira. Ao fim do programa, Jason foi até Berninger e lhe perguntou ansiosamente: "A senhora pode me ajudar a entrar para uma escola igual à de Einstein?"
Infelizmente não havia escolas como aquela perto da casa de Kathryn em Kent, Estado de Washington. Mas Jason fez avanços marcantes durante aquele programa de verão, em 1997. O que é melhor, preservou-os. Nunca vai ser um grande entendedor do sentido das palavras. Ele ainda tropeça em termos novos num texto. Mas é estudante de alto nível em sua classe do sexto ano e continua assombrando sua mãe todo dia com sua criatividade. "Olho para garotos como Jason e penso que Deus lhes deu outras coisas como compensação", diz sua mãe. "Eles raciocinam de modo diferente e vêm com idéias criativas em que nunca havíamos pensado.
Eles têm um dom, embora o mundo o considere uma deficiência." De fato, entre os disléticos famosos e bem-sucedidos figuram Tom Cruise, o artista plástico Robert Rauschenberg e o atleta olímpico Dan OBrien. Jason é um dos felizardos - e não só por ser esperto e criativo. Até recentemente, a dislexia e outros problemas de leitura eram um mistério para a maioria dos professores e parentes. Como consequência, era enorme o número de crianças que passavam pela escola sem dominar o sentido de um texto impresso. Alguns eram tratados como deficientes mentais; muitos eram deixados na condição de analfabetos funcionais, incapazes de concretizar seu potencial.
Mas em anos recentes - diz a pesquisadora Sally Shaywitz, de Yale - "tem havido uma revolução no que sabíamos sobre leitura e dislexia".
Pesquisadores como Shaywitz e Berninger estão empregando uma série de novas técnicas de captação de imagens para ver o cérebro em funcionamento. Suas experiências mostram que distúrbios de leitura resultam muito provavelmente de uma interligação deficiente de impulsos no cérebro - não de preguiça
estupidez, ou ambiente doméstico pobre.
Também existem indícios convincentes de que a dislexia é em grande parte hereditária; cientistas identificaram quatro cromossomos que talvez sejam os responsáveis. A dislexia é agora considerada problema crônico de algumas crianças, não apenas uma "fase". Cientistas também descartaram outro antigo estereótipo
o de que quase todos os disléticos são meninos. Estudos indicam que muitas meninas também são afetadas - e não recebem ajuda.
Ao mesmo tempo, pesquisadores pedagógicos apresentaram estratégias de ensino inovadoras para crianças que encontram dificuldade no aprendizado da leitura. Novos testes seletivos identificam crianças expostas a riscos antes de serem desestimuladas por anos de fracasso e frustração. E educadores tentam transmitir aos pais o aviso de que eles devem ficar atentos aos primeiros sintomas de problemas potenciais.
É uma missão urgente. Mas a alfabetização é uma meta social relativamente nova. Um século atrás, as pessoas não precisavam ser bons leitores para defender a subsistência. Mas na Era da Informação ninguém pode defender-se sem saber ler bem e entender material cada vez mais complexo. Esses dons não se desenvolvem facilmente em 20% das crianças.
Não que todos esses jovens sejam disléticos. Pesquisadores agora acreditam que a dislexia representa o ponto mais baixo da capacidade de ler e entender. As estratégias de ensino que ajudam os disléticos, os mais incapazes, também ajudam garotos que precisam só de uma pequena atenção extra.
Essas mudanças marcantes deviam ter vindo antes. A dislexia foi descrita pela primeira vez 100 anos atrás por W. Pringle Morgan, clínico geral em Sussex, Inglaterra. Em 1896 ele publicou um artigo no British Medical Journal sobre um menino de 14 anos chamado Percy que era "bom em jogos e de nenhum modo inferior aos outros de sua idade" - mas não conseguia ler. Porque Percy e outros como ele tinham problemas com a palavra escrita, não com a linguagem oral, supôs-se que a deficiência fosse visual. Os casos de dislexia eram entregues a oftalmologistas, que tentaram ensinar crianças disléticas usando letras e palavras bem grandes.
Aquilo não ajudou nem um pouco, pois a maioria dos disléticos enxerga tão bem quanto qualquer pessoa. Mas acha difícil desdobrar as palavras nos sons que as constituem, os chamados fonemas. Estes são os elementos mínimos e perceptíveis da linguagem; existem mais de 40 deles na língua inglesa. Para entender como esse processo funciona, Shaywitz usa o exemplo da palavra "cat", composta de três fonemas: "c", "a" e "t". A maioria das pessoas percebe isto, mas os disléticos conseguem ouvir apenas "cat" - um som único. Como consequência, não conseguem soletrar palavras, o primeiro passo da alfabetização. A maioria das pessoas passa por cima dessa fase de soletração, e o processo se torna uma parte automática, essencialmente inconsciente, da leitura. Disléticos ficam entalados já no início porque não conseguem estabelecer a conexão entre o símbolo e o som.
Pesquisadores estão tendo uma visão mais clara dessa causa usando novas técnicas de captação de imagens. O rastreamento do cérebro agora mostra que, quando disléticos tentam interpretar palavras, certas áreas da parte posterior do cérebro ficam em atividade insuficiente, ao passo que outras áreas da frente ficam superativadas.
Na edição de setembro do American Journal of Neuroradiology, Berninger e seu colega Todd Richards relataram um estudo em que rastrearam o cérebro de seis meninos disléticos e sete não disléticos que executaram três tarefas diferentes: distinguir entre tons musicais, distinguir entre palavras faladas que fazem sentido e outras sem nexo e escolher sílabas que rimam. A única diferença ocorreu na tarefa sobre a rima.
Disléticos tiveram muito mau desempenho e os rastreamentos mostraram que áreas da parte anterior de seu cérebro estavam superativadas. Isto sugere que disléticos precisam esforçar-se muito mais para analisar padrões sonoros. O processo de seleção dos sons não foi eficiente.
Shaywitz e seu marido, Bennet (co-diretores do Centro NICHD-Yale para o Estudo da Leitura e da Atenção), estão usando o processo de captação funcional de imagens por ressonância magnética para acompanhar o fluxo sanguíneo no cérebro. As áreas que recebem o máximo de sangue são as que funcionam ao máximo. No ano passado, Shaywitz e Bennet informaram na publicação Proceedings of the National Academy of Sciences terem visto um padrão semelhante de atividade mais intensa na parte anterior do cérebro, área que governa a produção da fala.
"Acreditamos que os disléticos tentam encontrar outro meio de chegar ao som da palavra", opina Shaywitz, talvez dizendo palavras em surdina.
Isto talvez seja uma causa da dislexia: trilhas ineficientes no cérebro. Com os resultados desta pesquisa, cientistas agora entendem muito melhor o modo como processamos a linguagem escrita. Eles constatam que o aprendizado da leitura não é um processo natural como o aprendizado da fala. "A fala é uma faculdade biologicamente muito bem interligada", diz Reid Lyon, chefe da divisão de desenvolvimento e comportamento infantil do Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano (NICHD). "Quase todos os seres humanos a adquirem da mesma forma. Eles murmuram, depois balbuciam, depois empregam palavras isoladas, depois juntam duas palavras." Cientistas calculam que a capacidade de usar a fala tem pelo menos 100 mil anos, ao passo que a linguagem escrita tem só cerca de 5 mil anos.
Porque a linguagem escrita é tão recente, seu aprendizado não está incluído em nossos genes; é preciso que nos ensinem. Qual método de leitura dá mais certo? A resposta é um pouco mais complicada do que as tão badaladas "guerras de leitura" da última década, em que defensores do método global, de um lado, e da soletração, de outro, afirmam estar no caminho certo.
O debate muitas vezes tão politizado desvia as atenções da questão real - os dois métodos não satisfazem a muitas crianças. Especialistas dizem que, ao contrário, é preciso alfabetizar de um modo que obedeça a uma sequência cuidadosa e inclua componentes dos dois métodos e muito mais. A alfabetização precisa basear-se em pesquisa sólida e adaptar-se às necessidades de cada criança. Nenhuma estratégia única vai dar certo para todos os que têm dificuldades, dizem os pesquisadores.
"As pessoas podem reagir de modo diferente a uma deficiência semelhante", diz a neurocientista Guinevere Eden, da Universidade Georgetown. "Alguns podem lançar mão de outros dons." O método certo para uma criança específica depende da gravidade do problema e da idade em que este é diagnosticado. Todos concordam que a intervenção em tempo hábil é a mais eficaz.
Pesquisadores acreditam que existe uma janela entre os 5 e os 7 anos, período em que se pode transmitir mais facilmente os dons da leitura.
"Se os garotos estão expostos a risco, podemos solucioná-lo com 30 minutos de intervenção diária no jardim da infância", diz Lyon. "Quando as crianças chegarem aos 8 ou 9 anos, serão necessárias menos de duas horas por dia de treinamento especial." O essencial é encontrar bem cedo os que correm o risco. Um novo teste para identificação, desenvolvido por Barbara Foorman e seus colegas na Faculdade de Medicina da Universidade do Texas-Houston, pede que os matriculados em jardins da infância dêem os sons de quatro letras específicas e conjuntos de letras. Garotos que revelam dificuldade são submetidos a testes de diagnóstico mais específico. Ainda este mês, o teste de Foorman, com duração de dois muitos e chamado Balanço Texas de Leitura Primária, vai ser usado em 89% das delegacias de ensino do Estado. Marilyn Jager Adams, pesquisadora na Escola de Pós-Graduação de Ensino Harvard, também desenvolveu um teste de dois minutos, agora em aplicação em escolas do Kansas. Ele examina as qualidades básicas dos pré-escolares e testa habilidades de mais alto nível, como a fluência e o reconhecimento de palavras, à medida que as crianças evoluem.
No futuro, conseguiremos detectar problemas até mais cedo. Dois pesquisadores na Universidade de Louisville, Victoria e Dennis Molfese, vêm estudando as ondas cerebrais de bebês e comparando-as com a habilidade para a leitura que os garotos têm quando chegam aos 8 anos.
Num relatório divulgado no começo deste ano, o casal Molfese informou ter constatado que bebês que ao crescerem tiveram problemas de leitura reagiram um pouco mais lentamente a uma série de sílabas gravadas - talvez porque não estivessem processando os sons com a devida eficiência.
Ninguém sabe como as descobertas do casal Molfese se encaixam no quadro mais amplo. Alguns pesquisadores acreditam que a lentidão de que os Molfeses falam tem a ver com outro fator fundamental para a previsão de dificuldades com a leitura, a falta de um dom chamado "menção rápida" - a pronta apreensão dos nomes de letras e números muito familiares. "O que se está medindo", diz Joseph Torgesen, psicólogo educacional na Universidade Estadual da Flórida, "é a rapidez com que uma criança consegue estabelecer conexão entre um símbolo visual e seu equivalente falado." Esse dom é essencial para a alfabetização.
Maryanne Wolf, do Centro de Pesquisa da Leitura e Linguagem da Universidade Tufts, acredita que a diferenciação dos sons e a rapidez com que eles são mencionados talvez sejam causas distintas da dislexia, algo que ela chama de "dupla deficiência".
Um programa que se tem revelado eficaz é o programa Lindamood de Sequenciamento de Fonemas (LiPS), que faz os estudantes explicarem como sentem os sons ao dizê-los. As consoantes recebem nomes segundo os movimentos feitos para produzi-los. Por exemplo "P" é um "abridor de lábios", pois estes começam a pronúncia juntos e depois se separam.
Isto dá aos estudantes outro meio de reconhecer sons de letras. E funciona porque, entre outras coisas, ajuda os disléticos a ultrapassar o obstáculo inicial, sua incapacidade de desdobrar palavras. Eles talvez não consigam distinguir os sons que formam uma palavra, mas podem sentir a boca fazendo movimentos distintos. Pesquisadores agora tentam verificar se esse tipo de treinamento pode causar mudanças no cérebro dos disléticos.
Shaywitz avisa pais e professores: Ao escolher um programa para seus garotos, procurem os que dão ênfase ao desdobramento de palavras em sons - o que os pesquisadores chamam de "percepção de fonemas".
Crianças disléticas precisam de ajuda intensiva e específica nesta área, diz Shaywitz. O segundo ingrediente-chave é aprender as letras que correspondem a esses sons - ou fonética. O fator final é a prática constante, usando histórias interessantes para desenvolver a fluência, o vocabulário e a compreensão. Embora estes sejam elementos de qualquer bom programa de leitura, a diferença está na maior intensidade e maior clareza quando destinado a disléticos.
Pesquisadores estão empregando essa informação, extraída das novas pesquisas sobre o cérebro, para revolucionar o modo como a leitura é ensinada a todos os estudantes. O principal obstáculo é que muitos professores estão terrivelmente despreparados para empregar as novas técnicas. "Ensinar leitura é ciência sofisticada", diz Louisa Moats, pesquisadora no MICHD. "Nossa profissão tem subestimado a dimensão e o tipo de preparo de que os professores precisam." Nos dois últimos anos, Moats vem trabalhando em algumas escolas públicas de Washington com grande número de estudantes que podem estar expostos ao risco porque vêm de lares de baixa renda e não têm muito contato com livros. O currículo aplicado a eles inclui muitas rimas, canções e jogos
bem como atividades práticas. No fim do primeiro ano, os administradores ficaram surpresos ao constatar que quase todos os seus pré-escolares começavam a ler.
Enquanto um número maior de crianças não tiver essa chance, o grosso do encargo continuará recaindo sobre os pais. E eles podem fazer muito, antes de seus garotos irem para a escola. Jogos de linguagem como o pig Latin (igpay atinlay) melhoram a capacidade de manipular sons transformando-os em palavras. Outro bom meio: qualquer coisa criada pelo dr. Theodor Seuss Geisel, por causa das rimas e jogos de palavras existentes nos textos. Claro que isto não é garantia de sucesso, mas pesquisas mostram que crianças postas em contato com rimas têm maiores chances de ouvir sons isolados da linguagem. Quando seus filhos entram para o jardim de infância, os pais precisam estar atentos para os indícios de que as crianças estão ficando para trás. Receber ajuda nem sempre é fácil; os pais precisam ser participantes.
Susan Hall, atual presidente da delegacia de Illinois da Associação Internacional de Dislexia e co-autora (com Louisa Moats) de "Straight Talk About Reading" (Falando Francamente sobre a Leitura), tornou-se participante cinco anos atrás, quando seu filho Brandon estava no quinto ano. Ela sabia que algo andava errado, pois ele não falava da escola e parecia ansioso demais em voltar para casa quando Susan ia buscá-lo no fim do dia. Ela se apresentou para ser mãe assistente. O que viu foi perturbador. "As crianças precisavam ler em voz alta", lembra. "Quando ouvi a primeira criança, percebi que ela lia muito melhor que meu filho. Quando chegou sua vez, ele ficou arrasado. Aquilo ajudou-me a expor o que estava incomodando-o." Susan pediu que Brandon fosse submetido a testes na escola, mas "eles disseram que não podiam fazê-lo porque ele ainda não havia repetido um ano" - requisito de muitas delegacias de ensino que custa aos garotos um tempo precioso. Foi impossível encontrar autores de bons diagnósticos. Depois que dois deles não deram certo, Susan decidiu estudar o assunto.
Susan, com mestrado em administração de empresas, Susan deixou o emprego e abraçou como causa a solução dos problemas de Brandon. "No primeiro ano, fiz três cursos de especialização em leitura em nossa faculdade local, percorri o país assistindo a 10 conferências e li 25 livros sobre o assunto", conta. Ela ficou impressionada com os oradores numa conferência da Associação Internacional de Dislexia e levou Brandon a um professor particular que usava os métodos deles. Aquilo ajudou, mas Brandon ainda tinha problemas. Finalmente, "a um alto preço para minha família", Susan levou Brandon a uma clínica Lindamood na Califórnia, onde ele finalmente fez um grande avanço.
Brandon, agora no sexto ano, lê muito bem, diz sua mãe, "mas continua tendo dificuldades na escrita, soletração, francês e, claro, ainda temos álgebra pela frente". Susan deu a Brandon aquilo de que os garotos disléticos mais precisam - o apoio emocional para manter atitude positiva em relação à escola. Mas as experiências de Sudan deixaram-na frustrada e irritada - sentimentos comuns a muitos outros pais entregues à própria sorte em busca de uma resposta. "Isto é difícil demais", diz. "A gente faz o que acha melhor e fica esperando que depois não surja uma pesquisa que mostra que a gente devia ter feito algo diferente. Precisamos tornar muito mais fácil esse processo." Eis o objetivo de todos os que se dedicam ao desvendamento dos mistérios da dislexia - pesquisadores, professores, pais e, acima de tudo, as próprias crianças.


