A difícil tarefa de se tornar empresário
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domingo, 24 de dezembro de 2000
Cláudia Lopes De Londrina 
Deixar a função de empregado para virar empresário da noite para o dia não é tarefa fácil. Vários negócios que faliram ou estavam quase fechando na região Norte foram assumidos pelos funcionários, apenas para garantir trabalho numa época de altas taxas de desemprego. A maioria dos atuais patrões, porém, ganha menos do que quando eram empregados.
A Churrascaria Gaúcha, de Londrina, começou a ser administrada por seus funcionários em janeiro deste ano. Mas a experiência não deu certo e a churrascaria, com 53 anos de tradição, fechou as portas há 20 dias com contas de água e luz atrasadas.
Uma das ex-proprietárias, a cozinheira Creusa Amaral, reclamou que seu telefone residencial também foi cortado. Nos últimos seis meses, retirava R$ 50 por mês. As contas lá de casa estão todas atrasadas, contou. Segundo ela, o negócio foi assumido por 15 funcionários. Ninguém, no entanto, preparado para trabalhar na parte administrativa. Faltou orientação. O sonho de melhorar de vida e virar patrão foi por água abaixo, afirmou Creusa, que tem 43 anos e fez apenas o primeiro ano primário. Como simples ajudante de cozinha, seu salário mensal era de R$ 200.
O sócio-proprietário da empresa maringaense Prisma Auto Mecânica, Ailton Bergameschi, também não consegue retirar os R$ 500 que ganhava por mês até há três anos como mecânico da Pismel, ex-concessionária da Ford. A empresa quebrou e pagou as verbas rescisórias dos funcionários com ferramentas. Ser patrão é difícil. Os encargos tributários são muito altos.
Bergameschi, de 46 anos, estudou até a sétima série do primeiro grau e começou a trabalhar como mecânico com 16 anos. O grupo de empresários, que há dois anos era formado por nove pessoas, hoje tem quatro. Para ficar mais visível à clientela mudamos de lugar no pátio e também passamos a trabalhar com todas as marcas de veículos, contou.
Os esforços não têm dado muitos resultados, segundo ele. Já estamos acumulando dívidas, disse Bergameschi. Ele afirmou que, há três semanas, a oficina andava às moscas. Mas por causa do final de ano o movimento melhorou. Se eu pudesse eu voltava a ser empregado. Só que não podemos perder a esperança. Temos que continuar lutando.
O sócio-administrativo da Cooperativa Esperança, de Jataizinho, Dirceu Urbano, também faz parte de um grupo de resistência composto de ex-funcionários que se transformaram em patrões. Há três anos, ele era chefe de seção do Frigorífico Santinho, que fechou. Dez meses depois de ter sido demitido, um grupo de 84 funcionários decidiu reabrir o negócio. Tinha gente passando até fome, contou. Nós recebemos tudo certinho mas ficamos sem emprego e sem expectativas, disse Urbano, que também é vereador no município.
Nem de longe o Esperança abate a mesma quantidade de bois do Santinho, que era de quatro mil cabeças/mês. Mensalmente, abatemos entre 400 e 700 bois. Só sobrevivemos porque não pagamos muitos encargos. Mas os sócios da cooperativa ganham de R$ 100 a R$ 200, dependendo do mês. Como empregados, recebiam salários entre R$ 300 e R$ 350.
A salvação da cooperativa será a obtenção da aprovação da Inspeção Federal para o abate de suínos. Se conseguirmos, pretendemos abater 300 porcos por dia, contou Urbano. Ele disse que não chegou a perder noites de sono como empresário. Eu sabia tudo da indústria. Aprendi sobre a parte administrativa na prática.


