É só chegar a hora do almoço ou do jantar que começa uma ‘‘guerra’’ dentro de casa - crianças que não querem comer e pais e mães apavorados por causa disso. Mas até que ponto a falta de apetite delas é normal? Será que é saudável substituir a refeição por leite e bolachas, ou o melhor é deixá-los com um pouco de fome?
  O pediatra Maurílio de Oliveira, de Londrina, explica que até o primeiro ano de vida, o bebê tem uma curva de crescimento bastante acentuada - até o quinto ou sexto mês de vida, o bebê dobra seu peso, e até completar um ano, triplica. Nesse período, o apetite é grande, já que ele precisa de um bom aporte de alimentos para crescer.
  Mas depois do primeiro ano de vida, o crescimento já não segue o mesmo ritmo, e a conseqüência é a diminuição do apetite. Isso, no entanto, acaba assustando pais e mães que acham seu filho ‘‘não come mais’’. Mas a verdade é que ele já não come mais
‘‘como antes’’.
  Além disso, um ano de idade, conforme o médico, marca também a ‘‘idade do desafio’’, quando os pequenos passam a desafiar os pais. E é aí que podem começar os problemas, quando eles percebem a ansiedade dos pais pela sua alimentação e passam a usar isso para desafiá-los. ‘‘Nessa idade, a criança também fica mais seletiva, escolhendo mais o que comer’’, explica.
  A prática de bons hábitos alimentares, ensina o pediatra, deve começar na infância, para fazer diferença (para melhor) na vida adulta. Começa com o aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses de vida, com inúmeros benefícios às crianças: menos chances de desenvolver alergias, imunidade maior e maior contato físico com a mãe.
  Com seis meses de idade já se recomenda a introdução de outros alimentos, além do leite materno, alimentação que vai ganhando consistência e variedade conforme avança a idade (leia texto na página). Aos dois anos, a criança já vai poder sentar à mesa e compartilhar toda a refeição com a família.
  Mas a imagem da criança sentada à mesa almoçando ou jantando com os pais parece um sonho distante? O pediatra concorda que ‘‘falar é fácil’’, e que a realidade pode ser muito mais difícil, mas também lembra que a preocupação com a dieta dos filhos passa por repensar a qualidade da alimentação de toda a família. E isso passa principalmente pelo exemplo, mas também pela oferta de alimentos em casa e até mesmo na resistência ao apelo dos filhos na hora das compras no supermercado.
  ‘‘A hora das refeições deve ser um ritual, uma hora sagrada, sem TV ou brigas, mas um momento prazeroso entre a família’’, recomenda. Por isso, a oferta deve ser de alimentos coloridos, cheirosos e balanceados - carboidratos, verduras e legumes, e carne magra, ‘‘quanto mais integral e mais ‘vivo’ (cru) melhor’’, e importante, sem refrigerante.
  ‘‘Se a criança não comer, não há problemas em deixar ela sentir um pouco de fome. Parece drástico, mas o segredo é não substituir o almoço por leite e bolacha, por exemplo. O ideal é oferecer o almoço de novo, dali meia ou uma hora’’, orienta.
  No supermercado, as escolhas devem seguir o mesmo padrão saudável, o que não significa que as crianças não poderão comer nunca as chamadas ‘‘bobagens’’ ou ‘‘tranqueiras’’: chocolates, balas, bolachas recheadas, salgadinhos e outros. ‘‘Pode sim, mas de vez em quando. A preocupação deve ser com o dia-dia’’, ressalta.
  ‘‘O que a gente faz é um convite à reflexão: como está a alimentação da família? Uma vez, uma mãe veio reclamar que o filho de dois anos só comia salsicha com mostarda. Mas quem comprava isso no supermercado era ela’’.

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