A (difícil) relação com as refeições na infância
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de março de 2006
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
É só chegar a hora do almoço ou do jantar que começa uma guerra dentro de casa - crianças que não querem comer e pais e mães apavorados por causa disso. Mas até que ponto a falta de apetite delas é normal? Será que é saudável substituir a refeição por leite e bolachas, ou o melhor é deixá-los com um pouco de fome?
O pediatra Maurílio de Oliveira, de Londrina, explica que até o primeiro ano de vida, o bebê tem uma curva de crescimento bastante acentuada - até o quinto ou sexto mês de vida, o bebê dobra seu peso, e até completar um ano, triplica. Nesse período, o apetite é grande, já que ele precisa de um bom aporte de alimentos para crescer.
Mas depois do primeiro ano de vida, o crescimento já não segue o mesmo ritmo, e a conseqüência é a diminuição do apetite. Isso, no entanto, acaba assustando pais e mães que acham seu filho não come mais. Mas a verdade é que ele já não come mais
como antes.
Além disso, um ano de idade, conforme o médico, marca também a idade do desafio, quando os pequenos passam a desafiar os pais. E é aí que podem começar os problemas, quando eles percebem a ansiedade dos pais pela sua alimentação e passam a usar isso para desafiá-los. Nessa idade, a criança também fica mais seletiva, escolhendo mais o que comer, explica.
A prática de bons hábitos alimentares, ensina o pediatra, deve começar na infância, para fazer diferença (para melhor) na vida adulta. Começa com o aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses de vida, com inúmeros benefícios às crianças: menos chances de desenvolver alergias, imunidade maior e maior contato físico com a mãe.
Com seis meses de idade já se recomenda a introdução de outros alimentos, além do leite materno, alimentação que vai ganhando consistência e variedade conforme avança a idade (leia texto na página). Aos dois anos, a criança já vai poder sentar à mesa e compartilhar toda a refeição com a família.
Mas a imagem da criança sentada à mesa almoçando ou jantando com os pais parece um sonho distante? O pediatra concorda que falar é fácil, e que a realidade pode ser muito mais difícil, mas também lembra que a preocupação com a dieta dos filhos passa por repensar a qualidade da alimentação de toda a família. E isso passa principalmente pelo exemplo, mas também pela oferta de alimentos em casa e até mesmo na resistência ao apelo dos filhos na hora das compras no supermercado.
A hora das refeições deve ser um ritual, uma hora sagrada, sem TV ou brigas, mas um momento prazeroso entre a família, recomenda. Por isso, a oferta deve ser de alimentos coloridos, cheirosos e balanceados - carboidratos, verduras e legumes, e carne magra, quanto mais integral e mais vivo (cru) melhor, e importante, sem refrigerante.
Se a criança não comer, não há problemas em deixar ela sentir um pouco de fome. Parece drástico, mas o segredo é não substituir o almoço por leite e bolacha, por exemplo. O ideal é oferecer o almoço de novo, dali meia ou uma hora, orienta.
No supermercado, as escolhas devem seguir o mesmo padrão saudável, o que não significa que as crianças não poderão comer nunca as chamadas bobagens ou tranqueiras: chocolates, balas, bolachas recheadas, salgadinhos e outros. Pode sim, mas de vez em quando. A preocupação deve ser com o dia-dia, ressalta.
O que a gente faz é um convite à reflexão: como está a alimentação da família? Uma vez, uma mãe veio reclamar que o filho de dois anos só comia salsicha com mostarda. Mas quem comprava isso no supermercado era ela.


