O bom humor pode ser descrito como uma grande característica de Rejaniel, depois, é claro, da honestidade. Com o falecimento dos pais aos 6 anos, foi adotado pela tia paterna. Sua família é de São Luís (MA) e como muitos de sua terra, ele e os irmãos se mudaram para a maior metrópole brasileira em busca de oportunidades.
''Meu irmão foi antes e voltou para me buscar. Eu tinha 19 anos e consegui um emprego na construção civil, cuidando da faxina da obra. Eu ganhava uns R$ 350 e morava em um barraco'', diz, ao relembrar que se perdeu nos primeiros dias em São Paulo. ''Eu me confundia todo''. Durante os 17 anos vividos na capital paulista, Rejaniel sentiu na pele o que é miséria.
Antes de perder o emprego, se separou da esposa com quem tem um filho e saiu de casa. ''Eu não tinha onde ficar porque nem do meu irmão e nem da minha família eu tinha mais notícias. Dinheiro então, nem pensar. Foi aí que passei a viver em situação de rua. Isso aconteceu há uns dois anos'', comenta ele, que conheceu Sandra na mesma situação. ''Faz uns 9 meses que estamos juntos. Ela também era da rua'', diz.
Sandra deixou a casa dos pais em Andirá há cerca de seis anos e desde então ficou sem contato com a família. ''Ela pegou o caminho errado e levei um susto quando ela apareceu na televisão. Logo depois, ligaram para avisar que ela estava vindo com o Rejaniel. Por mim, eles ficavam aqui, mas eles querem voltar'', conta a mãe, Rosa Gimenez. O pai, Luis Carlos Domingues também estava aliviado com a volta da filha. ''Que Deus abençõe eles'', diz, revelando certa timidez.
Morando nas ruas de São Paulo, o casal não conseguia emprego e vivia um dia por vez, sem nenhum plano de vida. ''Em situação de rua não tem como arrumar emprego. Ninguém dá oportunidade para quem não tem endereço fixo. As pessoas te olham com maus olhos e para sobreviver, é preciso ficar com um olho no peixe e outro no gato'', relata.
Para garantir a comida do dia, Rejaniel e Sandra caminhavam diariamente em busca de papelão, latas, ferro e cobre. No final do dia, isso era transformado em R$ 5. ''Quando eu conseguia bastante material, dava para ganhar R$ 20. Mas era raro. Tinha dia que eu chegava a carregar até 30 kg nas costas'', comenta Rejaniel, que apesar de ter estudado até a 4 série demonstra grande intimidade com as palavras, ao contrário de Sandra, que preferiu nem dar entrevista.
Para dormir, o casal tinha ''um condomínio''. Rejaniel explica que com o passar do tempo, fizeram amizade com outros moradores e conseguiram um cantinho no viaduto em Tatuapé. ''Tinha uma tela de proteção que a gente usava como divisória. Arrumamos uma corrente e cadeado para guardar os recicláveis e nossas coisinhas com mais segurança. Era nosso condomínio'', diz ele, que durante as andaças, encontrou um colchão de casal.
Para esquentar a comida, improvisaram um ''micro-ondas''. ''Era um bloco de concreto e uma grade por cima. Deixava a madeira queimando e com isso, também nos esquentávamos do frio. Mas tinha muita gente abençoada que nos ajudava. De 15 em 15 dias, um grupo de voluntários levava comida para nós'', conta. Quanto ao banho, o jeito era caminhar até o bairro da Mooca (Zona Leste) para usar a tenda montada pela prefeitura, que oferece chuveiradas de água morna.
Na situação em que Sandra e Rejaniel vivia, seria preciso recolher mais de seis milhões de latinhas ou cerca de 150 toneladas de papel para conseguir a quantia de R$ 20 mil. Rejanil admite que nesta situação não tinha nem como pensar no futuro. ''Às vezes batia uma angústia só de pensar na vida que estava levando, mas eu tomava umas pingas e esquecia tudo. No seguinte, a rotina não me deixava perder tempo pensando na vida'', desabafa. (M.O.)

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