A crise nuclear na Rússia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de outubro de 1999
Por Rod Nordland, da Newsweek 
São Petersburgo, Rússia, 21 (AE-NEWSWEEK) - As pessoas que visitam Sosnovy-Bor - um subúrbio distante de São Petersburgo - não podem dizer que não foram avisadas. A prefeitura da cidade ufana-se de possuir um contador Geiger digital, que mostra em grandes letras vermelhas os níveis de radiação local. A razão é porque a única indústria de Sosnovy-Bor é a Usina Nuclear de Leningrado, com seus quatro enormes reatores. Quando correspondentes da Newsweek visitaram a usina, em princípios deste ano, parecia um local de construção abandonado. Guindastes enferrujados se projetavam como gigantescos insetos mutantes sobre montes de materiais de construção, aparentemente abandonados. Esse material deveria ser usado para reformar os sistemas de segurança da usina, uma reforma originalmente marcada para terminar no final deste ano. Mas houve um adiamento para 2001. "Se a crise do rublo continuar", disse o porta-voz Karl Rendel, "parece muito claro que a reforma não estará terminada nem nessa data".
A usina de Leningrado é do tipo da usina elétrica nuclear de Chernobyl - só que muito mais perigosa. Se acontecesse aqui o que ocorreu em Chernobyl, muitos dos 4 milhões de habitantes de São Petersburgo teriam sido afetados por uma dose maçiça de radiação. Pessoas estranhas só podem entrar com uma autorização da Minatom, a agência de regulamentação nuclear da Rússia, que raramente concede essa licença.
Na época da visita da Newsweek, apenas três dos quatro reatores estavam funcionando - um deles precisou ser fechado permanentemente por causa de um vazamento de iodo radiativo e gases inertes em 1992.
Os visitantes da usina devem retirar os sapatos e calçar botas de plástico e vestir uma capa de proteção, mas, ao que parece, isso só serve para divertir o pessoal da equipe. Na Sala de Contenção do Reator do Bloco 2, por exemplo, muitos empregados não usam absolutamente nenhuma proteção - nem mesmo dosímetros - instrumentos que medem a radiação. (Durante uma breve visita, o monitor pessoal de radiação do fotógrafo da Newsweek passou muito acima dos limites permitidos).... "Quando éramos pequenos, costumávamos nadar no efluente (a água servida dos sistemas de refrigeração da usina) porque essa água era muito quente", ufana-se Viktor Lyubimov, de 22 anos, um técnico que trabalha na área do núcleo do reator.
As autoridades da usina se irritam com as sugestões de que poderia ocorrer ali um outro Chernobyl e afirmam que em Sosnovy-Bor não pode acontecer uma fusão nuclear. "O que chamamos de fator humano é muito importante", disse o diretor técnico, Viktor Romanov, referindo-se à importância do moral dos trabalhadores na manutenção de boas práticas de segurança. "Não se pode subestimar isso, pois é disso que dependemos".
Entretanto, os empregados da usina normalmente recebem do governo seus cheques de pagamento com um atraso de até seis meses. E, durante os dois últimos anos, os críticos da usina descobriram que pelo menos três empregados eram viciados em heroína. Um deles morreu de overdose no último inverno, os outros foram enviados a uma clínica de reabilitação.
Os ecologistas russos afirmam que pelo menos um viciado em heroina tinha acesso à sala vital de controle da instalação. O engenheiro Alex Epichin, vice-chefe de segurança, confirmou os casos de heroína, mas insistiu que "nenhum deles estava numa posição crítica".
Isso dificilmente causa tranquilidade, especialmente depois do grave acidente no Japão, há duas semanas. Neste país, onde o setor manufatureiro é baseado na precisão e na disciplina, os operários, muito bem remunerados, romperam ocasionalmente todas as regras dos manuais de segurança - e dois deles provavelmente irão pagar isso com a própria vida. Ao misturarem em baldes uma enorme quantidade de urânio altamente enriquecido, eles provocaram um "evento crítico", uma reação em cadeia fora de controle, obrigando as autoridades a ordenar que 300 mil moradores vizinhos ficassem trancados dentro de suas casas.
Elevado na semana passada, de incidente de nível 4 para incidente de nível 5 na Escala de Evento Nuclear Internacional (o desastre nuclear de Chernobyl em 1986, foi classificado como de nível 7), o vazamento de Tokaimura foi grave. E outros acidentes nucleares tornaram-se perigosamente comuns. Na semana passada, o Japão informou sobre outro vazamento, enquanto a Coreia do Sul ganhou destaque na mídia, com um vazamento que expôs 22 operários nucleares a radiação de baixo nível.
A Agência Internacional de Energia Atomica (AIEA) afirmou que houve 508 "incidentes" nucleares somente entre 1993 e outubro do ano passado, uma média de mais de um para cada uma das 434 usinas nucleares em operação no mundo, Por trás dessas falhas, existe um fato simples. A geração de energia nuclear já está em sua meia-idade. Nas usinas em todo o mundo, os canos, tanques e controles se desgastaram perigosamente, aumentando muito as chances de acidentes leves ou graves.. Os executivos da indústria nuclear insistem que a energia nuclear continua segura na ásia, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Mas o público não está mais engulindo isso. "Agora, muitos países europeus estão dizendo que o risco é inaceitavelmente altíssimo", diz Mohamed ElBaradei, diretor da AIEA.
As encomendas de reatores nucleares e os inícios de construção de novas usinas passou de 20 para 40 por ano na década de 1980; em 1997 houve apenas duas encomendas novas e cinco inícios de construção de usinas em todo o mundo. No ano passado, foram iniciadas as obras de construção de apenas quatro novos reatores nucleares na China, , em Taiwan e no Japão. E a produção das usinas nucleares norte-americanas declinou dramaticamente nos últimos anos em força de novas normas, muito mais rigorosas. "Para a indústria nuclear, não existe nenhum futuro real", disse Helen Wallace, física e promotora da Greenpeace na Inglaterra. "É claro que a energia nuclear está a caminho de seu desaparecimento" Mas é mais fácil dizer do que fazer isso. Cerca de 16 % da energia do mundo vem agora de usinas nucleares. Um terço da produção elétrica da Europa é gerada por energia nuclear. Em alguns países, esse número é muito mais elevado. A França recebe cerca de três quartos de sua energia de reatores nucleares. Esse tipo de dependência torna impossível que os governos simplesmente queiram acabar com ela.
Mas não é o estado das usinas na França, Estados Unidos ou mesmo no Japão que está tirando o sono dos especialistas nucleares. O problema é o que está acontecendo na ex-União Soviética. . Dos 58 reatores da era soviética ainda em funcionamento, 15 são reatores do tipo RBMK, idênticos no desenho ao de Chernobyl. Embora a explosão de Chernobyl tenha sido resultado de erro humano, - uma decisão dos operadores da usina de realizar um teste desastrosamente arriscado que nunca havia sido tentado anteriormente - o desenho da usina também é um fator importante. Os reatores RBMK, refrigerados com grafite e geralmente destinados à produção de plutônio em grau de armas nucleares e também de energia elétrica, têm tendência a se aquecerem mais quando alguma coisa não vai bem no núcleo do reator. As usinas ocidentais geralmente são refrigeradas a água e tendem a perder calor durante um accidente, tornando mais facil controlá-las.
O Ocidente está bastante preocupado com estas usinas envelhecidas e gastou até agora pelo menos US$2 bilhões para melhorar a segurança e o treinamento. Mas a maioria dos especialistas concorda que a única maneira de tornar realmente seguros esses reatores é desativá-los. O Departamento de Energia dos Estados Unidos compilou uma lista secreta de sete usinas mais perigosas do mundo. Todas estão no antigo bloco soviético. "Muitos reatores desenhados pelos soviéticos... apresentam significativos riscos para a segurança por causa das deficiências inerentes ao desenho, das economias em deterioração
das turbulências políticas, da fraca supervisão dos órgãos de regulamentação", disse oDepartamento. "Essa classe de reatores continua experimentando sérios incidentes, elevando o espetro de outro desastre semelhante ao de Chernobyl".
Ou pior. Oleg Bodrov, diretor do grupo ambientalista Green World em Sosnovy-Bor, tem fotos que afirma terem sido contrabandeadas da usina de Leningrado por trabalhadores . Mostram rachaduras de 70 polegadas de comprimento por 8 de largura no cimento grosso do prédio usado para armazenar dejetos altamente radiativos . "Somente neste prédio há lixo atômico suficientemente quente para fazer 40 Chernobyls. E a usina tem apenas 20 anos", disse Bodrov. "O que será dentro de 100 ou 200 anos?" As pessoas que moram perto dastas usinas velhas já estão convivendo com os desastrosos efeitos do envenenamento radiativo. Basta perguntar aos moradores de Chelyabinsk, nos Montes Urais da Sibéria Ocidental. A região está cercada por um anel de instalações nucleares, mas a mais famosa é a Associação de Produção de Mayak, uuma usina de reprocessamento localizada a cerca de 80 quilômetros de Chelyabinsk, perto de uma cidade chamada Novogorny. Em 1957, houve uma misteriosa explosão do isótopo radiativo estrônio-90, altamente tóxico, em Mayak, que deixou 450 moradores e operários feridos; outras 28 mil pessoas foram classificadas oficialmente como "afetadas" pela explosão. Desde então, houve meia dúzia de incidentes fatais , inclusive uma explosão de césio-137 , um isótopo altamente perigoso, em 1967, que espalhou particulas radioativas numa grande área. "E estes são apenas alguns dos acidentes que conhecemos", disse Nathalie Mironova, do Movimento pela Segurança Nuclear em Chelyabinsk. Ela revelou que as autoridades admitiram vasamentos acidentais de radiação em quantidade três vezes maior do que a de Chernobyl, "mas eu acho que é 10 vezes maior".
O prefeito de Novogorny, Aleksander Genilo, disse que sua pequena cidade ainda retira água potável do Lago Karachai, onde o complexo despeja seus dejetos radiativos. "No solo existe estrôncio radiativo 15 vezes superior ao limite, csio-137, 38 vezes superior ao limite e plutônio 10 vezes superior ao limite".
Mas as autoridades não acreditam que, quando o vento sopra, as pessoas da cidade sentem dores de cabeça. Dizem que isso é apenas "radiofobia". Um dia depois que a Newsweek entrevistou o prefeito Genilo, a polícia de segurança russa o interrogou e também outros moradores locais para saber o que tinham afirmado. Enquanto isso, as autoridades da Ninatom negaram permissão para que a Newsweek visitasse a própria usina de Mayak.
As autoridades russas têm muita coisa para ocultar. Um médico de um povoado perto de Mayak, Timirbai Galyulin, disse que quase todos os membros de sua família tinham problemas crônicos de saúde. Sua neta mais nova nasceu com apenas seis dedos. "Não temos estatísticas completas para provar isso", disse ele. "Mas eu nasci em 1939 e no povoado costumava haver 50 pessoas com a minha idade. Agora restam menos de 10 e a maioria delas são casos oncológicos". No hospital de Novogorny, o médico-chefe, que se identificou apenas como Yuri G., disse que em dois anos não houve ali nenhum nascimento normal. " Numa população de 10 mil pessoas, temos 30 a 40 casos de câncer por ano". O dr G. afirmou que tem medo das represálias das autoridades por falar a respeito desse problema. O diretor de uma escola local, Tabris Mingazin, afirmou: "Aqui somos todos vítimas". Em sua escola, as doenças crônicas são tão comuns que um terço de seus 230 alunos está ausente todos os dias por motivo de doença". Pesquisadores de Mayak vieram fazer exame de sangue nas crianças, mas nunca divulgaram os resultados. O prefeito afirma: "Novogorny deveria ser evacuada".
Poucos países ocidentais tolerariam uma usina igual à de Mayak ou de Leningrado em seu meio. Mas as próprias usinas nucleares ocidentais envelhecidas ainda têm muitos problemas. Na usina nuclear de Sellafield, na Inglaterra, integrada por um complexo de oito reatores e duas usinas de reprocessamento, houve 27 incidentes de nível 1 e 2 em 1998 e 1999 -em comparação com apenas 32 incidentes no mundo inteiro em 1997. Três empregados foram demitidos no mês passado por terem supostametne falsificado os exames de segurança do plutônio. Sellafield abriga o primeiro reator nuclear comercial do mundo. Inaugurada em 1856 pela então jovem Rainha Elizabeth II, a instalação deveria funcionar durante 25 anos. Agora já tem 43 anos e ainda está em atividade. Enquanto isso, a Inglaterra tornou-se o primeiro país europeu a desativar efetivamente um reator, a usina de Dounreay, perto de Thurso, na costa setentrional da Escócia. O processo de limpeza e fechamento levará até 100 anos e custará US740 milhões de dólares. As autoridades decidiram agir depois de reconhecer que as unidades de armazenamento do lixo radiativo estavam vazando e depois de descobrir misteriosas partículas "quentes" nas praias locais no início deste ano.
As partículas, parecidas com grãos de areia são suficientemente radiativas para provocar bolhas nas pessoas que se sentarem sobre elas e suficientemente perigosas para matar uma criança que as engulisse. As autoridadea afirmam que não sabem como escaparam da usina.
Este é um dos grandes problemas no caso da energia atômica: existe muita coisa que nem os especialistas conhecem. "Existe uma reação quase alérgica contra a radiatividade - é o medo do desconhecido", disse ElBaradei, do AIEA. Ele defende a indústria, mas quando indagado sobre a possibilidade de um novo Chernobyl, respondeu : "Não acredito.
A segurança melhorou em todo o mundo. Mas não existem garantias. E não existe nennhum motivo para complacência. Temos que fazer o máximo que pudermos e cruzar os dedos torcendopara que nada aconteça". Para as pessoas que moram perto de Mayak, de Sellafield, de Sosnovy-Bor - ou em qualquer outro lugar da Terra - realmente não basta apenas cruzar os dedos.


