A crise na região será passageira
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de abril de 1998
Flávio Moura Especial para a Folha 
Ney de SouzaJuan
Carlos
Barreto
comanda
a cidade
desde 1996
e aposta
na
industrialização
para
retomar
o
crescimentoPrefeito da segunda cidade mais populosa do Paraguai, o colorado Juan Carlos Barreto, 42 anos, eleito em 1996, é um comerciante que conhece na pele a importância dos compristas para sua cidade. Habitada por quase 200 mil pessoas, Ciudad del Este vive a maior crise econômica desde que se tornou um dos maiores centros comerciais do mundo.
Apesar dos números impressionantes de sua movimentação econômica, a cidade não pode ser considerada um recanto de prosperidade. O saneamento básico (esgoto e água encanada) atende apenas 40% da população, a iluminação pública não chega a 30% das ruas e o índice de pavimentação asfáltica é incipiente (cerca de 75% das ruas têm pavimentação primária).
O prefeito aposta na industrialização, na produção de soja, no combate na origem (Ásia e EUA) da produção de mercadorias piratas e no aumento da cota de compras para US$ 500 para devolver, até o fim de seu mandato, em 2001, uma cidade com mais perspectivas de voltar a crescer.
FolhaA região das Três Fronteiras experimentou um ciclo de crescimento acelerado nas duas últimas décadas, mas que há alguns anos, começa a dar sinais de esgotamento. Como Ciudad del Este pretende reaquecer sua economia?
Juan Carlos BarretoAs crises nesta região sempre serão passageiros. Poucos lugares do mundo reúnem tantas coisas importantes: Cataratas, Itaipu, a presença de três bons aeroportos internacionais. Especialmente em Ciudad del Leste, poderemos ter um período de prosperidade trazido pela soja, onde os colonos brasileiros têm um papel de destaque. Quanto ao comércio, nossa verdadeira vocação está em constante expansão e diversificação, impulsionada pelas fábricas que começam a ser instaladas.
FolhaFazendo um balanço depois de sete anos, o que o Mercosul significou para a cidade?
BarretoEste assunto não deve ser analisado a curto prazo. Para um país pequeno como o Paraguai, um acordo de livre comércio é como um atestado de maioridade. A concorrência aumenta, os produtos precisam ganhar qualidade para competir e o consumidor ser melhor atendido.
FolhaOs EUA ameaçam incluir o Paraguai em sua lista negra, alegando ineficiência das autoridades no combate à pirataria. Recentemente, o próprio Ministério do Interior paraguaio, divulgou uma pesquisa que apontava um índice de falsificação de 90% nos produtos comercializados em Ciudad del Este. O comércio da fronteira sobrevive sem a pirataria?
BarretoÉ muito mais fácil combater a produção pirata e não o comércio pirata. A pirataria provém da Ásia e do próprio EUA, não do Paraguai. Para esta cidade, um produto pirata, inferior, não é bem vindo. O interessante é que venham produtos de primeira linha para que tragam também consumidores de primeira linha. Lamentavelmente, a prefeitura não tem condições, nem poderes de exercer uma fiscalização adequada.
FolhaO que sua administração está fazendo para melhorar os três pontos críticos que os turistas apontam na cidade: trânsito, segurança e limpeza urbana?
BarretoMelhoramos muito o trânsito com o novo sistema de cartões para estacionamento no microcentro. Estudamos expandir para boa parte da cidade. Quanto à limpeza, o problema é de difícil solução. Durante o dia é impossível trabalhar e, à noite, o acúmulo é tamanho que pouca coisa pode ser feita pelos caminhões de compactação que trabalham incessantemente das 18h às 6h. Estamos ajudando no que podemos, inclusive financeiramente, a Polícia Nacional para que combata a criminalidade. É um trabalho árduo, pois em Ciudad del Este circula muito dinheiro e é natural que as quadrilhas se fortaleçam.
FolhaA cota de US$ 150 para os compristas brasileiros é adequada ao Paraguai?
BarretoCompreendemos o cuidado do governo brasileiro com esta questão, que é importante para a proteção da indústria nacional. Mas estamos propondo um aumento de US$ 500 e oferecendo obras de infra-estrutura nos setores que abordamos na questão anterior (segurança, trânsito e limpeza pública) e um auxílio na fiscalização ao contrabando.
FolhaQual a imagem que o senhor acredita que os brasileiros têm da cidade que administra?
BarretoAcho que a fronteira está tão unida que penso que os brasileiros se sentem um pouco donos, no bom sentido, de nossa cidade. E também os paraguaios se sentem muitíssimo à vontade em Foz do Iguaçu. Nossa relação mais que cordial, é fraternal.
FolhaQual o desfecho mais provável para a crise política que o Paraguai vive?
BarretoO Partido Colorado cometeu um erro ao deixar que Lino Oviedo participasse de suas primárias. Ele teve uma vitória muito convincente, em todos os lugares e, se concorrer na eleição, será o próximo presidente. Creio que seria um desastre para a imagem do país, um golpe neste momento.PERFIL
NomeJuan Carlos Barreto
Idade42 anos,
ProfissãoComerciante
CargoPrefeito de Ciudad del Este
PartidoColorado
Local de NascimentoCiudad del Este
Estado CivilCasado, um filho


