A Copa das ruas e dos campinhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 2014
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina Cada grito de gol dos colegas que disputam uma pelada na rua é uma tortura para o garoto Samuel. Atrás das grades do portão de casa, no Residencial Vista Bela (zona norte), ele está de castigo. "Me respondeu hoje e não vai sair para brincar", explica a mãe Lucinete de Oliveira, de 40 anos. Mas ele não se dá por vencido. Com muito custo, o menino de 10 anos consegue dobrar a costureira Lucinete e garante vaga na "seleção" da rua: ele e um colega três anos mais velho. A partida decisiva é contra outros dois garotos da rua de baixo.
Os times são decididos em um rápido dois-ou-um. Samuel se apressa em colocar a camiseta número 10 da Seleção Brasileira, do ídolo Neymar. "Ajuda a intimidar os adversários", brinca. Em tempos de Copa do Mundo, o sonho em vestir a amarelinha fala ainda mais alto. Os gols, demarcados com chinelos de dedo separados à distância de cinco pés sobre o asfalto, ganham medidas oficiais na cabeça das crianças. Para ter as traves, eles jogam descalços mesmo. Dizem já estarem acostumados. Até porque não há tênis que dure a tantos jogos na superfície rústica.
Mesmo com a concorrência da tecnologia, jogar bola na rua ainda é programa da criançada, principalmente na periferia. Samuel é apenas uma das muitas crianças que vivem no emaranhado de 2,7 mil moradias do Vista Bela, construídas em 2009, longe do centro da cidade, sem escolas, creches, ou áreas de lazer. As poucas quadras existentes no bairro não dão conta em atender os sonhos dos meninos, postulantes à uma vaga na Copa de 2022, no Catar. Sem a consciência das dificuldades sociais, para eles, o único entrave é quando a bola fura.
Com as sobras de tecido que ganha de malharias, Lucinete costura camisetas e até roupinhas de bebês com as cores do Brasil. "Essa época é uma febre, todo mundo quer", comemora. As peças são vendidas a menos de R$ 3. "O povo aqui é humilde, então faço um preço camarada", conta. Com o dinheiro, a costureira planeja dar uma bola nova de presente para o filho. Enquanto isso, Samuel segue fazendo embaixadinhas com a bola murcha mesmo. Quando vão jogar na rua, empresta uma do vizinho.
Já na zona leste, as crianças dos bairros carentes têm mais acesso a campos e quadras esportivas. Alguns já integram os times de base dos clubes locais. No campinho do Jardim Ideal, o pequeno Nicolas Miamura, de 12 anos, se agiganta sob o travessão, a 2,44 metros do chão. "Assim não dá, esse goleiro está pegando tudo hoje", retruca um dos garotos. Ele, o zagueiro Júnior Henrique, de 13, e o atacante Luís Fernando, de 12, jogam em posições diferentes, não torcem para o mesmo time, mas têm algo em comum: nenhum dos três viu a Seleção Brasileira ser campeã de uma Copa do Mundo. No último título, em 2002, estavam nascendo ou eram bebês de colo. "Acho que precisa melhorar bastante, mas estou torcendo muito", diz Nicolas.
EMPOLGAÇÃO
Na Vila Ricardo, bairro vizinho, os meninos também têm um campo à disposição, mas a euforia é tanta que eles começam o bate-bola na Rua Flor de Abril, em frente à casa do treinador Reinaldo Pereira da Silva, de 50, mais conhecido como Ná. A bandeira do Brasil pintada no asfalto e as fitas em verde-e-amarelo decoram o ambiente. Silva conta que a empolgação dos meninos triplica em época de copa. "Mexe com a imaginação deles, né. A seleção é o sonho de cada garoto que chuta uma bola neste País", avalia.
O treinador incentiva o sonho dos alunos, mas ressalta que a maior realização do trabalho social que faz é manter os jovens longe da criminalidade. "Dou a maior força, mas tenho que ser sincero e dizer que não é fácil chegar lá (seleção). Eles têm que saber lidar com a frustração", ressalta. A maior tristeza de Silva é ter perdido três garotos para o tráfico. "Foram três que seguiram o caminho errado e pagaram com a vida. É muito triste", lamenta. Para incentivá-los, ele usa o exemplo de Élber Giovane. "Ele saiu dos campinhos aqui do bairro e ganhou o mundo. É uma referência para os meninos".


