A breve e desastrosa carreira de mulher de negócios de Françoise Sagan Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 12 (AE) - Françoise Sagan é uma grande romancista. Uma pessoa de um charme raro, brilhantíssima, gentil, "maluquinha"
de uma graça devastadora, nada irreponsável e perfeitamente infantil em relação a problemas de dinheiro, o que explica que, apesar dos direitos autorais gigantescos, ela esteja cheia de dívidas e de uma execução do fisco.
Ora, ficamos sabendo hoje que, em 1992, ela se lançou em uma breve e desastrosa carreira de mulher de negócios. Sua ação desenvolveu-se no registro de petróleo em uma época que a força da sociedade ELF interessava-se pelo petróleo do Uzbequistão, jovem estado da ásia central resultante do fracionamento da União Soviética (URSS).
A ELF tinha em vista esse "tesouro" asiático. Infelizmente, o Ministério do Exterior francês detestava o presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, velho comunista e autocrata. Era preciso, então, encontrar alguém para ordenar ao ministro do Exterior francês a retirar seu "veto" e deixar a ELF agir no Uzbequistão. Esse alguém só podia ser o presidente François Mitterrand.
Foi, então, que um intermediário sobretudo duvidoso, André Guelfi, que trabalhava para a ELF, teve a idéia de gênio: uma única pessoa poderia levar Mitterrand a intervir junto ao Ministério do Exterior em favor do Uzbequistão: François Sagan, de quem Mitterrand gostava muito.
O negócio foi iniciado. Sagan aceita advogar a causa do Uzbequistão junto a Mitterrand. Mas o que ela faria nessa aventura? Ela é ignara em matéria de petróleo, em matéria de negócios, ela sabe apenas da existência do Uzbequistão. No entanto, ela se lança.
Por que fez isso? Prometeram-lhe enormes "comissões" (ela foi arruinada para sempre, doente também para sempre). Mas, sobretudo, essa dama de 63 anos, permaneceu uma jovem esperta, incontrolável, amante do entretenimento, do divertido. Ela fez lembrar a história em quadrinhos "Tintin".
E ei-la levada como uma palha pelo ciclone. Assinou pilhas de papéis dos quais nada compreende. Ela esquece tudo. Envia a Mitterrand uma carta particular do presidente do Uzbequistão, Karimov, que ela não conhece.
O negócio se estabelece. Um ministro do Uzbequistão vem a Paris. Sagan o convida ao Elysée. Vitória! Os amigos bizarros que rodeiam Sagan exultam: "Guelfi e Francelet, diz Sagan em uma entrevista ao "Le Monde", estavam como doidos. Eles diziam que logo o petróleo fluiria abundantemente, que comprariam cavalos, terras..." Um dia, Sagan recebe Mitterrand em sua casa . Ela convidou também um de seus "padrinhos": Francelet.
Hoje Sagan diz: "Mitterrand estava tão charmoso, tão divertido. Falamos de pessoas, do amor, da história...?" Em um momento, Sagan, que se lembra sempre de sua "missão", do mesmo modo diz a Mitterrand uma palavra sobre o assunto Karimov. Mitterrand ri e lhe diz gentilmente: "Querida Françoise, eu te amo muito em "esperta Lili", mas não em Mata Hari...".
Mais tarde, o próprio Karimov será recebido em Elysée. Enfim, Sagan vê Karimov. "Ele sequer sabia que eu estava aqui", diz Sagan. Mitterrand explica a Karimov que Sagan é uma grande romancista.
Apesar de tudo, o negócio fracassará. A ELF abandonará seus projetos do Uzbequistão em 1994. Diz Sagan: "Uma noite, jantei com Mitterrand. Um pouco confusa, disse a ele: Não tenho muita certeza de haver petróleo lá, no Uzbequistão. Sabe o que Mitterrand me respondeu? Querida Françoise, você não crê, do mesmo modo, que eu contasse com você para abastecer a França com petróleo!".
O resto é mais mesquinho. O intermediário que havia contatado Sagan reivindica que lhe deu volumosas comissões. Sagan não sabe mais o que fazer. O fisco demanda-lhe enormes somas de dinheiro. Ela sustenta a delicadeza, a frivolidade. Ela está doente. Seu corpo ficou esquelético com a vida, com o sofrimento. Ela está triste por ter sido enrolada nessa rocambolesca história do Uzbequistão e do petróleo.
Uma questão: quando outras mulheres patinham nos pântanos financeiros da ELF (Christine Deviers-Joncour...) são difamadas. Sagan faz sorrir e todos a acham maravilhosa, muito simpática. Alguns dirão que essa impunidade é injusta, e é verdade, mas assim: certas pessoas, porque têm o charme, a generosidade, a delicadeza, a poesia têm o direito a todas as indulgências...





