A barganha por trás da missão Primakov Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 29 (AE) - A visita que o primeiro-ministro da Rússia, Yevgeny Primakov, fará amanhã (30) a Belgrado, em busca de concessões do presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, que permitam a suspensão do bombardeio de seu país pela Aliança Atlântica, tem todas as características de um pagamento político pela promessa que seu governo obteve neste fim de semana de reativação de créditos do Fundo Monetário Internacional (FMI) suspensos há mais de um ano.
Um comunicado conjunto emitido após as conversações que Primakov e outros membros de sua administração tiveram no fim de semana, em Moscou, com o diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, anunciou acordo sobre meta fiscal para 1999, o envio imediato de uma missão negociadora do Fundo a Moscou e a disposição da organização de "continuar a trabalhar de forma construtiva" com a Rússia.
Primakov foi mais específico. Na mesma declaração em que anunciou sua visita a Belgrado, o primeiro-ministro afirmou ter obtido a garantia de novos créditos do FMI. De acordo com fontes próximas às conversações, citadas pela agência Interfax, o novo crédito será desembolsado em quatro parcela iguais e atingirá um montante de US$ 4,8 bilhões - o mesmo, aproximadamente, da segunda parcela do crédito de US$ 41,5 bilhões concedido ao Brasil em novembro passado e que a diretoria executiva da instituição deve autorizar amanhã.
Na semana passada, Primakov cancelou uma viagem aos Estados Unidos e mandou seu avião fazer meia-volta e retornar para a Rússia pouco antes de entrar em espaço aéreo americano, depois de que o vice-presidente Albert Gore alcançou-lhe por telefone via satélite em pleno vôo para alertar que a Otan estava prestes a iniciar o bombardeio da Iugoslávia.
O objetivo mais urgente da visita do líder russo a Washington era exatamente negociar com o FMI a reabertura dos créditos a seus país, que foram interrompidos no final de 1997 por não cumprimento das metas negociadas. Com a economia russa em profunda crise, a obtenção desses recursos é crucial para a estratégia de Primakov se colocar como um sucessor viável ao presidente Boris Yeltsin, cuja saúde precária talvez não lhe permita chegar ao fim do segundo mandato, no ano que vem.
Tivesse prosseguido viagem e desembarcado na capital americana, Primakov teria se colocado numa posição impossível. A antiga aliança entre Moscou e Belgrado, que tem raízes na identidade majoritária eslava dos dois países e não se alterou com o colapso do regime comunista em Moscou, o teria obrigado a denunciar a ação punitiva da Otan contra a Iugoslávia. Ao fazê-lo, Primakov teria certamente comprado briga com os EUA e os demais membros do Grupo dos Sete, que controlam o FMI, e comprometido a aprovação do crédito. Seis dos membros do G-7 são membros da Otan engajados na Operação Força Aliada.
A decisão do líder russo de abortar a viagem e retornar a Moscou abriu espaço para um desdobramento potencialmente mais útil para todos os lados. Washington identificou prontamente a oportunidade de usar a demanda russa por dinheiro do FMI em benefício de seus objetivos no conflito nos Balcãs e evitou reagir às críticas de Moscou ao bombardeio. Em lugar disso, porta-vozes do departamento da Casa Branca e do departamento de Estado passaram a sublinhar o papel positivo que os russos desempenharam durante o processo de busca de uma solução negociada da questão do Kosovo, especialmente nas recentes negociações do acordo sobre a autonomia da província, obtido em Rambouillet, França, e rejeitado por Belgrado. Na quinta-feira, Camdessus anunciou que iria a Moscou no fim de semana para ter os encontros que deveriam ter acontecido em Washington.
O agravamento da crise em todas as frentes, desde o início do bombardeio, reforça a importância da visita de Primakov a Belgrado. Um experiente diplomata e ex-chefe da política secreta
o premier russo está diante de uma oportunidade única para consolidar sua liderança em Moscou e afirmar-se como interlocutor confiável dos EUA e da Europa, levando Milosevic a ceder. Tendo obtido em princípio o compromisso de novos recurso do FMI, ele precisa agora convencer seu aliado Milosevic a cessar a operação de limpeza étnica em Kosovo. "Em público, Primakov continuará a denunciar a agressão da Otan e mostrar apoio a Milosevic, mas em privado o premier da Rússia usará todo o poder de barganha de que dispõe para tirar concessões do presidente da Iugosláviaque possam trazer os negociadores de volta à mesa de negociações", observou o boletim diário do G-7 Group, uma empresa de consultoria de Washington. "O que não se sabe, é claro, é que poder de convencimento a Rússia realmente tem sobre a Sérvia a essa altura".
Obviamente, o efeito da missão de Primakov a Belgrado é incerto e seu sucesso está longe de garantido. Mas a necessidade de preservar a boa vontade dos EUA, França, Alemanha, Inglaterra
Itália e Canadá no "board" do FMI deve funcionar como um importante incentivo para que o premier russo traduza pessoalmente a Milosevic, em palavras, a mensagem que a Otan lhe está enviando com bombas.





