A arte de afinar pianos
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sábado, 27 de fevereiro de 2010
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Das mãos do pianista sai o som das notas que, juntas, formam a melodia. A música toma conta do teatro e a plateia atenta ouve, aprecia e admira tamanha destreza do concertista, que vai contra as leis da física e faz o que parece ser impossível a um simples mortal. Emocionados, aplausos e pedidos de bis da plateia consagram o grande artista ao final do espetáculo.
Apesar de todos os méritos, um outro artista - oculto até então - entrou em cena para que tudo saísse perfeito. O afinador, que não recebeu os aplausos, tampouco os pedidos de bis, foi o responsável por deixar o instrumento impecável para que o som saísse harmônico e desse vida às partituras. No entanto, passa despercebido aos olhos do grande público e dos apreciadores da boa música.
Cada vez mais difíceis de encontrar, há profissionais na arte de afinar como Mozart Eccheli, que, no auge de seus 69 anos, conta que dedicou quase todos eles à profissão. Até mesmo porque, com esse nome, não poderia ter outra função, a não ser relacionada à música. ''Comecei a lidar com pianos ainda criança e, aos 13 anos, já dominava o instrumento. Assim como quatro dos meus irmãos, aprendi a ver e ouvir o piano com outro olhar, fazendo disso meu ofício até hoje'', lembra.
Para aprender, não frequentou escola ou curso, até porque não existem no Brasil instituições que ensinem o ofício. ''Aprendi tudo com o meu pai, que veio da Áustria em 1911 e abriu uma oficina em Lins, no interior de São Paulo. Tradição de família mesmo. Minha infância se deu em meio aos vários pianos que ele consertava. Mexia como se fosse brinquedo.''
Depois de anos trabalhando sob o olhar atento do pai, com 15 anos foi estudar em Campinas. ''Aproveitava o tempo livre para afinar pianos e ganhar um dinheiro extra. As pessoas achavam estranho um menino saber afinar piano, mas quando ficava pronto gostavam do resultado'', orgulha-se.
Esse foi o início oficial da carreira de Mozart. Em 1961, voltou para Lins, onde abriu uma oficina em sociedade com o irmão. Com o espírito aventureiro que herdou do pai, começou a prestar serviços para a região de Cambará, no Paraná, até chegar a Londrina. ''O serviço aumentou muito e, em 1968, mudei de vez para cá. Já são 42 anos morando aqui.''
Osiander Kochleitner, mais conhecido como Neto, também é outro artista da afinação em Londrina. Ainda que por curiosidade, assim como a maioria dos afinadores, começou cedo na profissão e aperfeiçoou o trabalho com a experiência. Como tem uma loja de instrumentos há quase 20 anos, foi do resultado de uma de suas negociações, que um piano ''caiu'' em suas mãos.
''Sempre trabalhei com compra, venda e conserto de instrumentos. Certa vez, troquei um teclado por um piano que estava em condições bem ruins. Para arrumar, comecei a mexer de curioso e, para isso, contei com a ajuda de um afinador de Maringá, que me passou algumas técnicas. No final, tive de reformar tudo. Desde então, não parei mais'', conta Neto. E lá se vão 15 anos na profissão.
Apesar de ter começado inesperadamente, a convivência com a música já faz parte do universo de Neto desde a infância. ''Meu avô era regente de uma orquestra e, já no Brasil, tinha uma marcenaria, onde fabricava seus próprios violinos. Já minha mãe era professora de piano.'' O afinador não chegou a se formar no curso de piano, mas tem conhecimento. ''Tenho noção de leitura musical e sei tocar um pouco'', revela.
Ainda que seja um de seus trabalhos, Neto diz que leva a afinação como hobby. ''Gosto muito do que faço. É uma função prazerosa, que faço para me distrair.'' Distração, no entanto, que exige dedicação, como acrescenta: ''É preciso ter paciência e ser extremamente detalhista, além de um bom ouvido. Para se ter uma ideia, no violão são seis cordas; no piano são 260. Além disso, existem mais de mil tipos de piano e cada um tem uma afinação. O tipo de material também influencia no resultado''.
Ambos aprenderam o ofício mas, por enquanto, não têm a quem repassar. Os filhos de Mozart seguiram carreiras distintas, e o filho de Neto ainda é muito pequeno, com apenas seis anos. ''Se ele quiser seguir a mesma profissão, vou passar tudo para ele. Vamos ver. Ele já me ajudou e deu para perceber que é muito detalhista. Mas eu ainda vou longe, trabalho é o que não falta'', observa Neto.


