A água potável fica cada vez mais escassa no País
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de março de 1999
Ulisses Capozoli Agência Estado. 
Apesar de dispor das maiores reservas hídricas do mundo, o suprimento de água potável nas regiões de maior consumo no Brasil já depende de fontes subterrâneas.
Um trabalho publicado em 1997 em São Paulo pelas secretarias estaduais de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, Saneamento e Obras - Mapeamento da Vulnerabilidade e Risco das Subterrâneas no Estado de São Paulo - mostra a existência de pelo menos 200 mil poços artesianos em todo o País, além de milhões de poços artesanais para o fornecimento de água potável.
Essa dependência de aquíferos, as reservas subterrâneas, pode trazer problemas futuros se a exploração não ocorrer de forma auto-sustentável ou se as águas forem poluídas, adverte o geólogo Chang Hung Kiang, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro.
No Estado de São Paulo, as estimativas são que 60,5% dos núcleos urbanos são servidos total (45,4%) ou parcialmente (15,1%) por fontes subterrâneas para o abastecimento de uma população de 5 milhões de pessoas. A dependência de aquíferos é maior em municípios do oeste do Estado, entre as bacias dos Rios Aguapei (91,3%), Turvo Grande (79,1%), Baixo Tietê (78,6%) e Tietê-Batalha (75,6%). Cidades como Ribeirão Preto, Bauru, Matão e Lins já dependem de água subterrânea.
As previsões para o futuro imediato são de uma demanda crescente de águas subterrâneas, tanto pelo crescimento demográfico como pela expansão econômica. Esses estoques têm vantagens em comparação com as águas superficiais, que devem passar por tratamento rigorosos antes de serem distribuídas para consumo.
O preocupante, segundo o trabalho das secretarias, é que a situação atual está marcada por uma visao imediatista de uso do recurso, prevalecendo o descontrole e a falta de mecanismos legais e normativos. Nestas condiçãoes, segundo o estudo, os aquíferos em diferentes áreas do território nacional estão sujeitos aos impactos da extração descontrolada e da ocupação indisciplinada do solo, pondo em risco a qualidade das águas.
As reservas de águas subterrâneas brasileiras estão estimadas em 112 bilhões de mO. Apenas um aquífero, o Guarany - de 1,6 milhão de kmN ocupando áreas do Brasil (1 milhão de kmN aproximadamente) Argentina, Paraguai e Uruguai - pode oferecer, em regime auto-sustentável, 43 bilhões de mO anuais, o bastante para atender uma população de 500 milhões de habitantes. O problema e que 16% da área de recarga desse aquífero, também conhecido como Aquífero Guarany Gigante do Mercosul, estão localizados no Estado de São Paulo, em áreas críticas quanto aos riscos de poluição.
Apenas na região metropolitana de São Paulo, metade da disponibilidade de água está afetada pela existência de lixões sem qualquer tratamento sanitário, segundo dados preliminares de um estudo, Entre Serras e Águas, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente.
Na América do Sul, o continente mais rico do planeta em recursos hídricos - 334 mil mO/segundo - o Brasil participa com 179.900 mO por segundo, 12% do total mundial, que soma 1.484.000 mO. O problema e que 80% dessa oferta esta na Região Norte onde vivem apenas 10% da população, analisa o professor Paulo Rodolfo Leopoldo da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu.
O Sudeste, região de maior consumo, tem menos de 10% (334 mil kmO) do potencial hídrico do Norte. No Sudeste, o Estado de São Paulo dispõe de oferta de produção de água de 12 litros/segundo por kmN, contra apenas 2 litros/segundo por kmN da Bahia, o mais pobre nessa medida conhecida como vazão especíica.


