Londrina - No primeiro dia em que a propaganda eleitoral gratuita invadiu os lares brasileiros, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou ontem uma pesquisa que certamente será bastante explorada nas campanhas: o precário estado da saúde no País, sob o ponto de vista dos eleitores. Das 2.418 pessoas acima de 16 anos ouvidas pelo Instituto Datafolha nas cinco regiões do País, entre os dias 3 e 10 de junho, 93% consideraram péssimos, ruins ou regulares os serviços públicos e privados de saúde no Brasil. A insatisfação com o Sistema Único de Saúde (SUS) atingiu 87% dos entrevistados, sendo que 70% deles afirmaram estar insatisfeitos com a qualidade dos serviços, atribuindo avaliações que variaram de péssimo a regular. O acesso e a demora no atendimento ao SUS foram os pontos mais criticados pelos entrevistados. A pesquisa, encomendada pelo CFM e Associação Paulista de Medicina (APM), não abordou o programa federal Mais Médicos, cuja contratação de profissionais cubanos para atuar nas unidades básicas de saúde sofre severa resistência por parte da classe médica brasileira.
Em entrevista coletiva concedida ontem, o presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto Luiz d’Ávila, disse que o estudo confirma que "a saúde não é uma prioridade de governo" e que o grau de insatisfação dos usuários das redes pública e privada "é emblemático." "Essa pesquisa deve gerar a reflexão na sociedade sobre os caminhos a se tomar", avaliou.
O pediatra Maurício Marcondes Ribas, presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), observou que a saúde brasileira, especialmente na rede pública, vive um quadro de evidente subfinanciamento há anos. "O investimento em saúde no Brasil é inferior a 5,4 mil dólares per capita por ano. Até a Argentina, que enfrenta uma crise econômica séria, faz mais do que isso. Sem contar os países de primeiro mundo. As unidades básicas de saúde não são resolutivas, o que reflete nos atendimentos de urgência/emergência, prontos-socorros e pronto-atendimento, com gente saindo pelo ladrão", disse.
Ribas apontou que a solução básica para problemas tão complexos é melhorar o aporte financeiro na saúde, com investimento não apenas nos profissionais, mas na infraestrutura de unidades básicas e hospitais de média e alta complexidade, especialmente nas regiões mais afastadas dos grandes centros metropolitanos. "Uma reivindicação nossa antiga já é a aprovação do projeto Saúde mais 10, que obriga o governo a investir 10% do PIB na saúde. Hoje esse índice não passa de 4%. Há um abaixo-assinado com mais de 10 milhões de assinaturas circulando no Congresso pedindo que esse projeto tramite e vire lei", cobrou.
Outra reivindicação do presidente do CRM-PR é que os médicos da rede pública tenham uma espécie de plano de carreira, que ele chama de carreira de Estado. "Assim ele pode optar por começar sua carreira no interior com salário digno, uma melhor infraestrutura, com equipe completa formada por enfermeiros, fisioterapeutas, e depois buscar instâncias intermediárias, até ir para centros maiores. Ou permanecer no interior mesmo e estabelecer sua carreira por lá. O que precisa é de investimento", sugeriu.
Para o presidente da Associação Médica de Londrina (AML), ginecologista Antônio Caetano de Paula, o resultado da pesquisa reflete o descaso com saúde e escancara o gargalo da rede pública. "O sistema paga o valor abaixo do que as instituições gastam com seus pacientes. Com isso, os hospitais têm que mobilizar a verba que recebem dos convênios particulares para pagar esse deficit do SUS, não podendo melhorar os serviços públicos", diagnosticou. Caetano também entende que a lógica de investimento está invertida, pois prioriza a medicina curativa em detrimento à preventiva.

mockup